Polícia

PMs mantêm versões da morte de menor

Por Lígia Ligabue | Enviada especial a São Paulo
| Tempo de leitura: 4 min

Algemados, vestindo uniforme do presídio, os seis policiais militares envolvidos na morte do adolescente Carlos Rodrigues Júnior, 15 anos, em Bauru em dezembro do ano passado, chegaram ao Fórum Regional de Santana, em São Paulo, para depor à Justiça na tarde de ontem. A audiência durou cerca de sete horas - terminou pouco antes das 21h – e eles ratificaram os depoimentos dados anteriormente à Polícia Civil, de acordo com a assessoria de imprensa do Tribunal.

O adolescente, que era acusado de, pouco antes, ter roubado uma moto, morreu durante abordagem policial, em sua casa, no Núcleo Mary Dota. Laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou que ele foi torturado e morreu em conseqüência de um dos 15 choques elétricos. De um lado, o tenente Roger Vittiver e o soldado Emerson Ferreira alegam que não presenciaram a tortura que levou o adolescente à morte.

Do outro, o cabo Gérson Gonzaga e os soldados Juliano Arcângelo Bonini e Maurício Delasta apontam os outros dois como sendo os autores da violência. O tenente aponta Delasta e Arcângelo como os autores das agressões. Já Ricardo Ottaviani diz que ficou com a família do rapaz no momento que as agressões ocorreram.

Os seis estão presos no Presídio Romão Gomes, na Capital, deste o dia do crime, 15 de dezembro, e respondem processo na Justiça de Bauru por homicídio, tortura e abuso de autoridade. Além disso, respondem processo administrativo na PM. Os policiais chegaram ao Fórum, escoltados, pouco antes das 14h.

Quatro deles estavam em uma perua Kombi e outros dois numa viatura Blazer. De acordo com o advogado Sérgio Mangialardo, seus clientes – o cabo Gérson Gonzaga e os soldados Juliano Arcângelo Bonini, Ricardo Ottaviani e Maurício Delasta - estavam na perua. Na outra viatura estavam o tenente Roger Vittiver de Souza e o soldado Emerson Ferreira.

Assim que chegaram ao Fórum, os veículos entraram na garagem do edifício - que fica bem ao lado da sede do 18.º Batalhão da PM da Capital - e os portões foram fechados.

Dentro do edifício, eles foram acompanhados por dois policiais militares. Às 14h20, os seis policiais algemados se alinharam de costas para a parede num dos corredores do terceiro andar do prédio.

Eles foram chamados pela juíza Élia Kinosita Bulman, do 2.º Tribunal do Júri, que leu a denúncia elaborada pelo Ministério Público de Bauru. Depois, todos saíram para aguardar os depoimentos individuais. Segundo relatos, o tenente permaneceu separado dos demais.

Depoimentos

O primeiro chamado a depor foi o tenente Roger . De acordo com informações da assessoria de imprensa do Tribunal, ele ratificou as informações que tinha fornecido durante o seu primeiro depoimento à Polícia Civil. Ele teria permanecido a maior parte do tempo fora do quarto onde o garoto estava e disse ter delegado missões específicas para cada policial durante a busca e apreensão na casa do adolescente.

Pelo depoimento dado à polícia, ele revela que a incumbência de vistoriar o quarto de Rodrigues Júnior teria sido dada a Delasta e Arcângelo. Roger permaneceu na sala de audiência durante uma hora e meia e foi seguido pelo soldado Emerson. Durante a audiência, ele também reafirmou o que já tinha relatado, garantindo que permaneceu o tempo todo na guarda das viaturas que ficaram do lado de fora da casa do adolescente. Seu depoimento se encerrou às 17h.

Em seguida, foi chamado o cabo Gonzaga. Durante seu depoimento, que durou cerca de uma hora, ele sustenta a versão que foi dada à Polícia Civil. Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal, ele garantiu que o tenente teria agredido Rodrigues Júnior e que o oficial, junto de Emerson, teria aplicado os choques no rapaz. Ele também ressalta, ao contrário do que Roger afirmou que, em nenhum momento, recebeu voz de prisão do tenente.

Depois de um breve intervalo, às 18h20, foi a vez do soldado Arcângelo ser ouvido pela Justiça. Ele também ratificou o seu depoimento ao delegado Marcelo Haddad, que presidiu o inquérito policial. Às 19h, o Fórum foi fechado, mas a audiência prosseguiu. O soldado Maurício Delasta foi convocado às 19h30 e reafirmou o relato fornecido à Polícia Civil. O soldado Ricardo Ottaviani, último a depor, foi chamado às 20h10.

De acordo com a assessoria do Tribunal, ele ressaltou que logo que a equipe de policiais entrou na casa, ele foi destacado para permanecer com a mãe e a irmã da vítima. Ele confirmou, assim como foi dito ao delegado Haddad, que ouviu os gemidos do adolescente.

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OAB acompanha

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Estado de São Paulo, Otávio Augusto Rossi Vieira, que acompanhou os depoimentos, avaliou que os réus estão tendo oportunidade de ampla defesa no processo. Mas pondera que o fato de um grupo ir contra o outro é negativo. “Se continuar essa linha - do oficial tentando ir contra os outros, e eles tentando ir contra o oficial - será muito prejudicial”, diz.

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