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Minha história: O ancião e o pardieiro


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As palavras ditas pelo médico Romeu Yague, diretor do Instituto Adolfo Lutz de Bauru, nos anos 70, ainda estão gravadas em minha memória: “... o carro é nada mais do que uma cadeira de rodas para o ser humano...” Sábias palavras. O carro, quantos malefícios para a máquina humana: intestinos, rins, bexiga, coração, pulmões, músculos, ossos, etc.

Gosto de ser um andarilho. Faço isto desde os anos 50, quando ainda era um garoto. Herdei o gosto pelo andar de meu avô materno. Faço por prazer, não por obrigação. Sinto-me um verdadeiro pássaro liberto quando ando pelas ruas. Minhas pernas são como asas, que me conduzem aonde desejo, a vários pontos da cidade. Não dependo de ninguém, nem de um carro. Higiene mental, antiestressante natural.

Sempre busco lugares diversificados. Sou marinheiro de terra seca. Quero ver lugares, fugindo da rotina. Sinto-me como um carro sendo guiado por mim, como Fernando Pessoa, que diz num poema sobre sua viagem pela estrada de Sintra (Portugal) ao volante do Chevrolet: “... sou eu quem controla a máquina ou é ela que me escraviza?”. Pelas minhas andanças de professor jubilado, deparei-me outro dia com uma casa, que chamou minha atenção.

Nos anos 60 ela foi uma casa de alto padrão, num bairro de classe média. Hoje, não passa de um pardieiro, uma verdadeira poluição visual. A casa antiga é como uma mulher já avançada em anos de idade. Ser idoso não significa ter chegado ao fim da vida como se fôssemos um cachorro sem dono. A mulher idosa deve se cuidar: maquiagem, roupas elegantes, cabelos cuidados, mãos pintadas, higiene pessoal, etc.

Vejam o exemplo das “meninas” (aquelas senhoras na melhor idade) que ficam sentadinhas num banco do calçadão, na quadra 6. Sempre alegres, comunicativas, vivendo a vida e não apenas vegetando. Estava eu assim lucubrando quando eis que de repente surge diante de mim a figura exótica do ancião, o dono do pardieiro.

Outrora, um senhor alegre, comunicativo, impecavelmente trajado, de razoável poder aquisitivo. Agora, um olhar macambúzio, postura cifótica, roupas sebentas, barba por fazer, empurrando contrariado a vida que Deus lhe deu. Casa e dono se associaram, numa simbiose tácita. Uma cumplicidade ímpar.

Casa antiga é como uma mulher na melhor idade. Precisa periodicamente ser cuidada, receber uma pintura de vez em quando, reparo no telhado, conserto nas portas que rangem, enfim: ter um aspecto agradável, de um lar, e não de ruínas que o tempo vai imperdoavelmente deteriorando.

Que meandros da vida conduziram inexoravelmente aquela criatura humana ao labirinto do desmazelo? Perda crescente do poder aquisitivo? Perda da ilusão pela vida? Perda da realidade circundante? Fui me afastando, seguindo meu caminho, meditativo...

Gilberto Sidney Vieira

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