No último domingo a medicina brasileira realizou no Hospital Sírio Libanês a primeira intervenção médica com o uso de robôs, abrindo uma nova fase no desenvolvimento cirúrgico do País. Dois pacientes foram submetidos a prostatectomia com a nova tecnologia, já utilizada em centros médicos avançados há vários anos. A primeira cirurgia ocorreu na França em 1988; Hoje, segundo os especialistas responsáveis pela cirurgia, cerca de mil robôs estão sendo usados no mundo. Setecentos deles estão nos EUA, 150 em países europeus e o restante no Oriente Médio. Antes do Brasil, apenas a Venezuela detinha esta tecnologia na América Latina. O procedimento é minimamente invasivo, preciso e possibilita uma rápida recuperação do paciente. Sem dúvida um avanço importante que, infelizmente, beneficiará um número limitado de pacientes em função do alto custo, inacessível à quase totalidade da população brasileira.
Para ela, o nosso combalido Sistema Único de Saúde oferece ainda dificuldades insanáveis que mantém, quase inalterada, a fila das cirurgias eletivas e o acesso aos procedimentos mais complexos. Todos aqueles que necessitam utilizar-se do sistema público de saúde conhecem os entraves para a realização de exames por imagem, a distribuição dos remédios - sobretudo os de alto custo, o transporte de pacientes, os transplantes de órgãos, os leitos de cuidados paliativos para doentes em fase terminal, etc. Poucas são as clínicas que oferecem condições para o tratamento de pacientes dependentes de drogas, principalmente se provenientes de famílias desestruturadas ou de baixo poder aquisitivo. Continuamos a conviver com o reaparecimento de doenças, que julgávamos extintas ou totalmente controladas, como a cólera e a febre amarela.
Pior quando se associa à incompetência e má gestão o descaso da população, com cuidados que pouco ou nada custam. Teriam feito a diferença e salvo, sem qualquer dúvida, muitas vidas. É inconcebível que neste País, onde a medicina se utiliza de robôs para realizar procedimentos minimamente invasivos, tenhamos que nos enlutar todos os dias com morte de tantos brasileiros vitimas da dengue, muitos deles na primeira infância, por absoluta incúria de nossas autoridades sanitárias.
Não aponto os culpados, são muitos! A começar pelo simpático ministro da Saúde, a quem cabe a responsabilidade de prover as condições para o combate do mosquito e exigir o cumprimento das medidas de todos conhecidas. Perpassa pelos responsáveis pela educação de nosso povo, que preferem vê-lo inculto, despreparado e incapaz de cuidar de si, de sua família e do seu próprio quintal. Desta maneira estarão mais suscetíveis às manobras políticas dos governantes e dependentes das benesses dos demagogos de plantão. Termina no cidadão que, contentando-se com as migalhas, não se contrapõe ao que está posto, ausentando-se no cumprimento das suas obrigações.
Enquanto isto, continuaremos assistindo a um presidente, nos palanques, alardeando feitos que não são seus, vitórias que ainda não tivemos e fingindo-se igual aos desassistidos, que faz questão de manter nesta situação enquanto ajuda os banqueiros a triplicarem seus lucros.
O autor, Milton Flávio, é médico, professor da Unesp e ex-deputado estadual-PSDB