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Macarronada cede espaço para o churrasco na mesa de domingo

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Houve um tempo, no Brasil, em que domingo era sinônimo de duas coisas (que, em geral, costumavam vir juntas): famílias reunidas e almoços regados a muita macarronada com frango e guaraná. Hoje, por conta das transformações ocorridas na sociedade, aquela cena clássica - em que um casal sorridente aparecia sentado à mesa cercado por uma penca de filhos, netos e sobrinhos - já não é tão comum de se encontrar.

Aos poucos, aquele modelo, por assim dizer, “quadrado” de refeição tem dado espaço a um ambiente mais descontraído. Sai de cena a boa e velha massa e sobem ao palco peças de carne, espetos e carvão.

Se antes tios e primos usavam a macarronada de domingo como pretexto para jogar conversa fora e colocar os causos em dia (ou mesmo para bater-boca e fazer as pazes logo em seguida), agora eles têm o churrasco como opção para os momentos de confraternização. Amigos e colegas de trabalho, que antes eram “gente de fora”, agora têm espaço garantido nas reuniões familiares

Uma das razões para essa mudança de comportamento parece estar na praticidade oferecida pelo churrasco. “Quando pensamos em macarronada, uma das primeiras imagens que vêm à nossa cabeça é a da mãe presa ao fogão, cozinhando para um mundo de gente. Num churrasco, por outro lado, o homem participa de maneira mais ativa. É como se houvesse uma maior interação da família no preparo da refeição”, explica Márcia Leme, nutricionista responsável pelo programa “Alimente-se Bem” do Serviço Social da Indústria (Sesi) em Bauru, que tem por objetivo ensinar as pessoas a montar um cardápio variado, nutritivo e barato.

É o que costuma ocorrer na casa do aposentado bauruense Jurandyr Luiz Carrara, 71 anos, morador do Jardim Carolina. Desde os anos 60, ele, a esposa e os filhos mantêm (quase que de maneira religiosa) o ritual de se reunirem aos domingos para almoçar.

“Antigamente, comíamos macarronada com frango, mas, com o passar dos tempos, as crianças foram crescendo e passaram a preferir churrasco. É mais prático, não suja muita louça”, afirma Carrara. Atualmente, na casa dele, as reuniões de família costumam ocorrer a cada 15 dias. “É que como os filhos estão casados, temos de ‘dividi-los’ com os parentes das noras e dos genros”, explica ele.

Na casa do empresário aposentado Aparecido Álvaro Bertucci, 75 anos, o cardápio do final de semana também passou por transformações profundas. Cinco décadas atrás, quando ele havia acabado de se casar com Clara - hoje com 73 anos de idade -, massas, frango e saladas (sem contar uma leitoazinha, de vez em quando) costumavam ser figurinhas tarimbadas nas mesas de refeição.

“Aquele cardápio de antigamente tinha muita gordura”, recorda-se Clara, que hoje prefere almoçar fora aos finais de semana. “Só quando os filhos (são três, no total, todos casados) estão em casa é que eu costumo cozinhar”, garante.

O marido Bertucci lembra que, no passado, a oferta de alimentos era bem menor. “A feira era o único lugar onde a gente encontrava coisas para comprar”, diz. Saladas de folhas, por exemplo, ele e a família quase não comiam antigamente. “Hoje, é difícil um dia em que passamos sem ter uma alface ou um repolho à mesa”, garante.

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Por onde anda?

Se o almoço de domingo de fato mudou, por onde anda todo o macarrão que é produzido no País? “O alimento já não está tão preso ao domingo como no passado. Hoje, ele já faz parte do dia-a-dia das pessoas”, garante Cláudio Zanão, diretor-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Massas Alimentícias (Abima), que representa 44 empresas do setor.

“Além de ser um alimento tradicional, a macarronada é um prato harmonioso, que une o sabor agradável à bela aparência”, afirma o bauruense Martino Malandrino Neto, proprietário de um restaurante de cozinha típica italiana instalado no Altos da Cidade.

Embora já não seja presença tão marcante nos domingos das famílias, o macarrão segue firme e forte na lista dos alimentos mais vendidos do País. Só em 2007, foram comercializadas 1,270 milhão de toneladas do produto em terras brazucas. Não por acaso, hoje o Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de massas alimentícias do mundo.

“Só perde para a Itália - por motivos óbvios - e para os Estados Unidos”, afirma Zanão. A proliferação das massas tem um lado negativo, na opinião de alguns “especialistas”. Para Malandrino Neto, a popularização, de certa forma, prejudicou o produto no quesito qualidade. “Atualmente, há macarrões e ‘macarrones’. A boa massa é sutil e não pesa no estômago”, salienta.

Estimativas da Abima apontam que, no ano passado, cada brasileiro consumiu, em média, 6,7 quilos do produto. São pessoas como o comerciante bauruense Eduardo Godói, 36 anos. Na casa dele, macarronada com frango é, ainda hoje, presença obrigatória aos domingos. “É algo natural, aparece sem ninguém pedir”, explica ele, que é casado, tem uma filha e mora no Núcleo Mary Dota, região norte da cidade.

Aliás, a incorporação dos galináceos à mesa dominical da família Godói foi relativamente recente (coisa de poucas décadas, prova de que a receita macarrão com frango ainda representa uma novidade para muitas famílias brasileiras, antes excluídas do mercado de consumo).

“Se formos analisar, o frango representou uma evolução em nosso cardápio. Quando eu era criança, minha mãe só fazia macarrão com sardinha ou alho e óleo - o meu preferido, por sinal”, diz o comerciante.

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