Articulistas

O sol nascente


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Passei a infância e a adolescência cercado de japoneses e nisseis, vizinhos da direita, da esquerda e defronte à casa dos meus pais em Marília. Vivenciei muitas lições, principalmente no associativismo, na disciplina, nos estudos e na dedicação à família. Mas, a lição que nunca esqueci me foi dada por um velho e próspero agricultor imigrado de Okinawa e que jamais se importara em aprender o português. Entrevistei-o para o jornal da minha terra, naturalmente com a ajuda de um intérprete. Perguntei sobre essa falta de interesse em se integrar ao país que o acolhera, sem poder conversar com os nativos. Respondeu que a sua atitude não deveria ser entendida como uma resistência à aculturação. Nunca tivera tempo para aprender um idioma muito diferente da língua materna. Chegara ao Brasil em 1939, ajudara a desbravar o sertão paulista e durante quase 40 anos trabalhara de sol a sol. “Passei todo esse tempo tentando entender o idioma da terra brasileira. Eu converso com a terra. A terra fala, eu entendo e dou o que ela quer”. Sua lavoura de algodão era um grande jardim, campeã nacional de produtividade por hectare.

Lembrei-me do fato na tocante cerimônia promovida pela Associação Nipo-Brasileira de Bauru, para abrir as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa. O desenvolvimento do Estado de São Paulo deve muito aos japoneses que trouxeram para cá o cooperativismo, novas técnicas agrícolas e experimentações no campo. Ao comércio e à indústria eles também deram sua contribuição ao primar pela seriedade nos negócios e muito trabalho para assegurar qualidade nos serviços. Nem sempre o Brasil foi hospitaleiro. Muitos deles foram dizimados pela malária, pela febre amarela e outras doenças tropicais. O governo deixou de cumprir muitas das promessas que os fizeram cruzar oceanos, em busca de um novo sol. Quando, em 1923, houve um grande terremoto no Japão recrudesceu a imigração para o Brasil. Naquela época houve acerbas discussões no Congresso Nacional e pronunciamentos de intelectuais como Miguel Couto e Felix Pacheco, hoje nomes de grandes instituições. O tom predominante era o seguinte: “Que horror recebermos essa gente! Proliferam como ratos e são da consistência do enxofre - amarelos e não se dissolvem”.

Isso há 85 anos. Hoje mais de 20% de nossos estudantes universitários são descendentes daqueles amarelos cor de enxofre, “que não se dissolviam”. Nossa história demonstrou que, ao contrário do que se pensava, a japonês se dissolve muito mais do que qualquer outro. O Carnaval no Nipo sempre foi um exemplo. Para um italiano, um espanhol, para qualquer pessoa de origem latina, há sempre a possibilidade psicológica e sociológica de se fazer entender. Posso falar português espanholado, italianizado como o paulistano da zona leste. Nas relações sociais com os brasileiros isso pouco importa. Dá para entender. Ao contrário, com o alemão, o polaco, o japonês, não há sequer a possibilidade de uma solução de compromisso no terreno lingüístico. É nas relações culturais que surgiram as nações e as civilizações. Dizia Max Weber que não existe cultura inteiramente estável e imóvel porque se tal ocorresse, não seria cultura, pois esta, por definição, é algo vivo, e tudo o que é vivo se transforma constantemente. É por isso que as churrascarias estão cheias de sachimi e suchi, palavras que já entraram nos dicionários.

A cultura brasileira é agressiva no sentido envolvente, capaz de absorver qualquer outra, de onde quer que venha. Os imigrantes, seus filhos, netos, bisnetos, acabam sentindo-se brasileiros e absorvem a nossa cultura, claro que conservando tonalidades da sua origem. Seria até uma pensa se tal não ocorresse. Desde os anos 70 os japoneses aparecem em primeiro lugar nas estatísticas oficiais de naturalização. Isso não significa “abandono” da pátria-mãe. Quando começaram a vir para o Brasil, todos eles tinham em mente ganhar dinheiro e voltar para o Japão. Como qualquer brasileiro hoje nos Estados Unidos, na Espanha e no próprio Japão. A intenção coletiva dos japoneses esboroou-se após a 2ª. Guerra Mundial. Em Marília houve muito tiroteio entre imigrantes esclarecidos e grupos fanáticos que insistiam em não aceitar a derrota japonesa na 2ª Guerra. Havia motivos religiosos e de lealdade à pátria. A onda de terrorismo nas colônias resultou em vários assassinatos, com intensa repercussão no Brasil e no estrangeiro. Esse conflito ficou conhecido como a fase da Shindô Remei. Os envolvidos foram julgados e condenados. Cumpriram pena, sem reclamar, nas nossas masmorras insalubres. Curiosamente imploravam não serem submetidos a um castigo que, para eles, era pior que a morte: a deportação.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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