Paulo Rodrigues Ortigosa contou-me sua malfadada história vivida na época do regime militar que prendia e arrebentava supostos transgressores da “paz política”, sujeitos aos desígnios dos ditadores de plantão. Façamos com o Paulo um retrospecto como viajantes do trem verde-oliva da história do golpe de 1964.
Em 1967, existiam no mercado canetas esferográficas que além do uso da escrita emitiam sons de tiros de festim. Paulo foi o inventor e fabricante para o comércio delas, e lazer nas folgas do seu cotidiano profissional. Paulo, fabricante de manetes de aviões, fornecedor das indústrias Neiva de Botucatu, era conhecido como inventor de coisas singulares. Despertou por isso a curiosidade e interesse dos seus préstimos do então sargento Nascimento, superior responsável do Tiro de Guerra de Bauru.
Estava o sargento à procura de alguém que produzisse detonadores de bombas de superfície terrestre, que seriam utilizadas pelos recrutas do seu destacamento, na demonstração em aulas práticas. O sargento Nascimento conseguiu com o Paulo a fabricação dos detonadores. No mesmo período, março/maio de 1967, uma manchete do “Diário de Bauru” estampava ostensivamente que o nosso professor Pardal bauruense fora fichado como subversivo e elemento nocivo pelo regime militar por conta de suas invenções bélicas. Diante da matéria tendenciosa, a vida pregressa do Paulo foi vasculhada pelo DOPS - Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo -, e instado a comparecer na Capital para depoimentos esclarecedores.
Imediatamente o “Diário de Bauru” levou a público uma retratação de sua anterior reportagem, insidiosa, maléfica e impensada, contra a pessoa do cidadão Paulo Rodrigues Ortigosa. Do primeiro interrogatório à detenção por um determinado período, e após idas e vindas da Capital, Paulo ficou tolhido do seu direito e exercício de trabalho, até provas contrárias à sua implicância com atividades políticas de esquerda revolucionária. Taxado como “persona non grata” pelos empresários de sua cidade, Paulo sobreviveu de empregos autônomos durante anos, e imerecidos diante de sua inegável capacidade como torneiro mecânico.
Paulo Rodrigues Ortigosa pede agora o ressarcimento ao Estado, ao governo democrático federal vigente, pelos prejuízos morais e financeiros provocados pela absurda delação caluniosa, e conseqüente privação e marginalidade imposta pelo regime militar de então. Pelo que vivi e vi na época braba da ditadura de generais, o pau comia solto no lombo de Chico, como no lombo de Francisco. Paulo nunca foi nem um e nem o outro. Hoje ele quer o respeito que merece o cidadão Paulo Rodrigues Ortigosa, e reparação dos danos causados durante o processo kafkaniano a que foi submetido. Isento-me de apreciações pessoais. Transmito publicamente o desejo do amigo Paulo, sem o mínimo gesto de fé cega e de faca amolada. Justiça se faça. Cabe ao amigo Paulo, e unicamente a ele, ousar a pretensão judicial cabível.
Odair Castilho - RG 5.604.771