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Entrevista da Semana: Edson Valentim

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 12 min

Um pastor político descrente de mudanças. Assim pode ser definido o perfil de Edson Valentim, presidente do Conselho de Pastores, grupo que congrega todas as vertentes das igrejas evangélicas em Bauru.

Segundo ele, a maneira como o sistema político brasileiro funciona inviabiliza as mudanças mais profundas. Por conta das composições e concessões que o Executivo é obrigado a fazer com o Legislativo para poder governar nem mesmo um prefeito evangélico conseguiria mudar a cara da cidade para melhor, avalia Valentim. “Muito daquilo que está corrompido no sistema não poderia ser mudado, não porque o prefeito não quer, mas porque ele não pode, não consegue”, afirma.

Por não ter essas amarras, a igreja, na opinião dele, tem mais condições de mudar a realidade de um povo do que a política. Na entrevista concedida ao Jornal da Cidade, Valentim fala sobre esse assunto e muitos outros.

Natural de Itaperuna, município localizado no norte do Rio de Janeiro, próximo à divisa com o Espírito Santo, Valentim é pastor há 26 anos. Seu primeiro trabalho foi na Igreja Batista de Pederneiras. Leia a seguir esses e outros detalhes da vida de um dos evangélicos mais engajados politicamente em Bauru.

Jornal da Cidade - Como e quando o senhor descobriu que queria ser pastor?

Edson Valentim - Quando eu era criança, tinha vontade de ser médico. Eu comprava revista, colecionava tudo que falava de medicina. Eu fui crescendo e quando cheguei à juventude vi que não era exatamente isso que eu queria. Quando eu estava prestes a fazer o vestibular, eu tive algumas experiências com Deus que mudaram meus planos.

JC - Naquela época, o senhor pensava em prestar vestibular para quê?

Valentim - Eu pensava em fazer curso de direito. Inicialmente, minha vontade era fazer faculdade de educação física, porque eu sempre gostei muito de esportes. Então, pensei em fazer educação física por causa da afinidade, mas não fui bem-sucedido. Pouco antes do teste de aptidão física, peguei uma gripe muito forte e fiquei bastante debilitado fisicamente. E eu que estava acostumado a fazer exercícios acabei reprovado no teste físico.

JC - E por que decidiu fazer direito?

Valentim - Após ser reprovado no teste para o curso de educação física, fiquei muito decepcionado. Eu tentava entender por que motivo aquilo havia acontecido. E a resposta veio por meio de textos bíblicos e de experiências pessoais que eu tive com Deus. Mas meu pai queria que eu fizesse uma faculdade. Na época, ele não era evangélico. Então, eu optei por fazer direito, mas antes deixei claro que minha vontade era estudar para me tornar pastor. Ele aceitou que eu fosse pastor, mas antes queria que eu prestasse vestibular. Fui fazer o vestibular e não passei. E no ano seguinte, fui para o seminário. Passei quatro anos fazendo teologia. Me formei em 1981 e no ano seguinte vim para Pederneiras trabalhar em uma igreja.

JC - E seu pai ficou chateado por não ter conseguido entrar na faculdade?

Valentim - Ele entendeu. Eu já havia decidido fazer o seminário. Eu o faria de qualquer jeito. Mas como meu pai insistia que eu fizesse um vestibular, decidi fazer direito, porque é uma área que tem uma certa afinidade com a teologia. É um curso bem amplo, tem o lado das audiências, a oratória. Isso me atraiu. Prova disso é que eu vim fazer direito aqui em Bauru. Ainda não consegui terminar. Os filhos foram nascendo e eu resolvi dar uma parada para retomar mais à frente. Fiz dois anos e meio de curso. Meu sonho é voltar e conseguir terminar.

JC - A determinação em fazer o seminário e se tornar um pastor nasceu dessas experiências que o senhor disse ter tido com Deus?

Valentim - Exatamente. Por meio dessas experiências, eu entendi que Deus estava querendo algo mais de mim, não apenas que eu fosse um freqüentador de igreja. Eu freqüentava igrejas desde os meus 5 anos de idade, quando minha mãe se tornou evangélica. Quando cheguei na fase dos 14 anos em diante, passei a ter minhas próprias experiências com Deus. Isso foi fazendo a diferença. Quando cheguei aos 17 anos, que era a fase da definição, as coisas estavam bem claras para mim. Eu entendia o que Deus estava querendo de mim. Fui buscar conselho com algumas pessoas mais velhas, mais experientes, falei daquilo que eu estava pensando, sentindo, e tive de todos eles, inclusive do meu pai, que queria que eu fizesse vestibular, a aprovação.

JC - E o seminário foi feito no Rio de Janeiro?

Valentim - Foi. Fiquei quatro anos no Seminário Teológico Batista, um dos mais famosos do Brasil.

JC - O senhor sempre foi da Igreja Batista?

Valentim - Sempre. Minha mãe tornou-se evangélica em uma Igreja Batista e ela levava os filhos com ela. Meu pai, só no finalzinho da vida - ele faleceu no ano passado -, foi quando ele tomou uma decisão também. Mas ele nunca pôs obstáculos. Então, minha mãe levava os cinco filhos com ela.

JC - Depois de formado, qual foi seu primeiro trabalho?

Valentim - Quando me formei, recebi o convite da Igreja Batista de Pederneiras. Eu terminei o seminário em dezembro de 1981. Em março de 1982, eu assumi como pastor em Pederneiras.

JC - O senhor veio sozinho para cá?

Valentim - Sozinho e solteiro. Eu conheci minha esposa em Pederneiras. Ela era de Bauru e trabalhava como regente. Um dia ela foi reger o coral em Pederneiras, nos conhecemos, começamos a namorar e dois anos e meio depois nos casamos.

JC - Depois do casamento, o senhor mudou para Bauru e continuou trabalhando em Pederneiras?

Valentim - Antes de casar, passei em um concurso para trabalhar como escrivão da Polícia Civil. Permaneci no cargo durante sete anos. A igreja em Pederneiras é bem humilde. Ela não tinha condições de garantir financeiramente o sustento da minha família. Eu conversei com a igreja e disse que precisaria de outro serviço para ter condições de assumir um casamento. Fiz o concurso. Fui o quarto colocado no Estado. Tinha três vagas para Bauru e eu fiquei com a terceira, porque um que estava na minha frente preferiu trabalhar em Jaú. Com isso, eu vim morar em Bauru e ia para Pederneiras três vezes por semana, para dar assistência. Como a igreja era pequena, tinha como fazer isso. E assim foi até 1988, quando deixei a igreja e fiquei só com o serviço de escrivão.

JC - Quanto tempo o senhor ficou longe dos púlpitos?

Valentim - Cerca de um ano, mais ou menos. No fim de 1989, eu vim para essa igreja (Batista Bereana), que na época ainda era pequena e funcionava na rua Cussy Júnior. Quando aceitei o convite para vir para cá, eu sabia que teria de deixar a polícia.

JC - E por que decidiu deixar a polícia?

Valentim - Porque estava difícil conciliar tudo. O segundo filho estava nascendo, eu estava fazendo faculdade e ainda trabalhava na polícia e cuidava da igreja. Eu não estava mais dando conta. Eu tinha que abrir mão de alguma coisa. Como havia condições, minha esposa trabalhava e eu também, ficamos apenas com o que ela tinha de salário, mais o que a igreja oferecia, e abri mão do serviço na polícia. Fiquei só com a igreja, porque ela era maior do que a de Pederneiras e dava não só melhores condições financeiras como também exigia mais tempo. Deixei a polícia e logo em seguida tranquei a faculdade porque não conseguia dar conta dos estudos. Agora, só Deus sabe quando volto.

JC - E como surgiu o convite para presidir o Conselho de Pastores?

Valentim - Quando eu vim para Bauru, tive contato com alguns pastores que faziam parte do conselho. Eu acabei gostando do serviço que eles faziam, me aproximei e permaneci. Estou no conselho desde 92 ou 93. Fui presidente entre os anos de 1998 e 2000. E agora de novo. Até o segundo mandato dá para levar. Mais do que isso não, porque é bem desgastante, não é um trabalho fácil. O conselho existe há mais de 40 anos, e durante muito tempo ele serviu mais para reuniões de oração e de confraternização dos pastores. Hoje, além disso, nosso foco está muito voltado para os problemas da cidade. Quando nós vemos que alguma coisa não está boa, nós cobramos. Na época que teve cassação de prefeito e de vereadores, eu era o presidente do conselho e nossa participação foi muito ativa diante de toda aquela confusão. A gente se posicionava, cobrava. Ainda fazemos isso, mas os conflitos diminuíram.

JC - E por que o Conselho dos Pastores acredita que é importante se envolver nas questões políticas da cidade?

Valentim - Nós temos a seguinte visão: nós somos pastores para a cidade, como um todo. Eu não sou pastor apenas da Igreja Batista Bereana. Sou pastor da cidade de Bauru. Meu compromisso não é só com um grupo de pessoas que está diretamente ligada a mim. Eu tenho um compromisso muito mais amplo, com 350 mil pessoas. Essa é uma visão que nós temos desenvolvido no conselho. O pastor tem um compromisso com a cidade.

JC - E vocês têm encontrado espaço entre os políticos de Bauru para mostrar a posição do conselho?

Valentim - Alguns vereadores têm nos dado abertura, mas são poucos. Nós temos procurado esses vereadores para receber deles informações e cobrar uma postura diante dos problemas da cidade. O prefeito não dá muita abertura. O prefeito anterior dava muito mais abertura, a qualquer momento nós éramos recebidos no gabinete para expor nosso pensamento. O atual, infelizmente, não dá essa abertura.

JC - O senhor gosta de se envolver em questões políticas?

Valentim - Eu gosto. Quase me envolvi na política alguns anos atrás, por meio de um amigo muito querido, que estava na política, mas Deus não me deixou. Foi uma experiência muito forte e Deus disse claramente para mim: ‘Eu te chamei para abençoar a cidade através da igreja, não através da política’. Depois daquele dia, eu continuo me envolvendo na política, porque toda ação em favor do povo passa pela política, mas não de forma partidária. Já fui convidado a me filiar a um partido político, mas não aceitei para não correr o risco de me ver tentado (risos). Eu não quero ser tentado a concorrer em uma eleição.

JC - E como o senhor vê o envolvimento da igreja na política?

Valentim - Na eleição anterior, nós chamamos todos os candidatos (a vereador, prefeito e deputado) para expor suas idéias na igreja e responder às perguntas dos presentes. Quem estava presente pôde conhecer um pouco mais de cada candidato. Mas vou fazer uma confissão: nós organizamos esses debates, mas não ponho fé nisso. Parece incoerência, mas não é. Eu creio que a mudança da cidade, embora passe pelo meio político, não será exatamente pela política que ela vai ocorrer. Infelizmente, nosso sistema político, e não somente ele, está corrompido. A expectativa de uma melhora significativa de uma eleição para outra é muito pequena. Eu não creio que somente o fato de termos um prefeito evangélico a cidade mudaria, porque o sistema político amarra muito. Mesmo sendo evangélico, o prefeito teria de fazer composições, concessões para os aliados e muito daquilo que está corrompido no sistema não poderia ser mudado, não porque o prefeito não quer, mas porque ele não pode, não consegue. Então, eu digo que a igreja faz muito mais diferença do que a política. Eu creio que a mão de Deus faz a diferença. Historicamente, sempre foi assim. Se eu não acreditasse nisso, não seria pastor.

JC - O senhor se sente incomodado com os comentários que afetam a imagem do pastor, dizendo, de forma generalizada, que são todos enganadores e que ganham dinheiro fácil?

Valentim - Teve época que eu me incomodava. Hoje, a minha postura é: a minha vida mostra quem eu sou. Sempre vai ter aqueles que generalizam, que vão se posicionar contra. Nunca haverá unanimidade. Por mais perfeito que seja seu trabalho, sempre haverá quem o critique. Então, quando eu ouço esse tipo de comentário, eu relevo, porque é ignorância, a pessoa não sabe o que está falando. Para mim, isso não incomoda mais. Eu sei que é uma minoria que faz isso. São poucos os que generalizam dessa forma.

JC - E como é o pastor Edson em casa? O que gosta de fazer quando está descansando?

Valentim - Eu gosto de cuidar de peixe. Nós reformamos a casa e a primeira coisa que eu fiz foi construir um tanque e colocar umas carpas lá. A minha distração é estar todo dia lá, jogando ração, mexendo, enfeitando. Este é meu hobby. Em casa, eu tenho o tanque no chão. No escritório da igreja, eu tenho um aquá-rio. Ontem mesmo, estava limpando as plantas do aquário. É isso que me relaxa.

JC - Esse gosto por aquário vem de quando?

Valentim - Eu aprendi a gostar de aquário com um pastor, amigo meu, que já faleceu, o pastor Oséias. Eu via como ele cuidava dos peixes, achei aquilo bonito e ele começou a me ensinar. Fiz um aquário pequeno em casa e me apaixonei pelo negócio. E meu filho vai pelo mesmo caminho. Sempre quando estou mexendo, ele está junto.

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Perfil

Nome: Edson Valentim de Freitas Filho

Idade: 48 anos

Local de nascimento: Itaperuna (RJ)

Mulher: Gisele Xavier de Moraes Freitas

Filhos: Vivian (19), Caio (16), Letícia (14) e Joyce (11)

Hobby: “Cuidar de peixes ornamentais”.

Livro de cabeceira: “O Caminho do Coração”, de Ricardo Barbosa de Souza

Filme preferido: “Titanic” e “O Messias”

Estilo musical predileto: Adoração

Time: Flamengo e Noroeste

Para quem dá nota 10: “Para minha esposa”.

Para quem dá nota 0: “Para nosso Congresso Nacional”.

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