Batidas mais lentas e letras repletas de sentimentos embalam o quarto disco da banda “Detonautas Roque Clube” lançado na semana passada. Com uma proposta bem diferente do albúm anterior, “O Retorno de Saturno”, é o primeiro trabalho sem o guitarrista Rodrigo Netto, morto durante um assalto em junho de 2006.
Composto por 11 faixas, o álbum é também o primeiro trabalho do grupo lançado pela Sony-BMG e foi produzido por Fernando Magalhães, guitarrista do Barão Vermelho.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista que o integrante Renato Rocha concedeu ao JC por telefone.
JC Cultura - Qual a principal temática de “O Retorno de Saturno”?
Renato Rocha - O disco tem uma temática universal que é o amor. Não o amor de marido e mulher, mas aquele fraterno e universal. É um disco de canções, feitas no violão, e o grande diferencial para mim são, justamente, as letras mais profundas. Na música “Só pelo bem-querer”, por exemplo, o Tico conseguiu verbalizar perfeitamente a minha visão do amor. A pessoa não tem que fazer força para estar com alguém, tem que estar pelo simples fato de querer ver o outro feliz e fazê-lo feliz.
JC Cultura - Essa é uma proposta bem diferente do disco anterior “Psicodeliamor sexo&distorção”. Este trabalho é um pouco reflexo do que vocês passaram desde a perda do Rodrigo?
Renato - “O disco anterior era uma proposta mais pesada, mais densa e experimental. Mas infelizmente, depois da perda do Rodrigo, a banda extravasou toda energia e sentimento nas músicas. A gente não estava a fim depois de tudo o que aconteceu fazer algo “barulhento” novamente, queríamos dar uma relaxada. Mas não foi uma coisa premeditada, foi naturalmente saindo assim. Acredito que tudo faça parte, mas isso está muito presente, é claro. Músicas como “Lógica” e “Verdades do Mundo” falam diretamente sobre o assunto. Mas o disco não deixa também de ter um lado político-social como nas músicas “Enquanto houver” e “Eu vou vomitar em você”. Essa temática é bem forte no Tico, que sempre foi muito engajado, mesmo antes do ocorrido com o Rodrigo.
JC Cultura - E como foi produzir o primeiro disco sem ele?
Renato - O Rodrigo era uma pessoa muito pró-ativa dentro da banda, uma pessoa querida e super talentosa. Ele não só tocava guitarra mais compunha muito também e por isso era grande parceiro do Tico nas letras. Então, naturalmente, ouve um receio, principalmente por parte do Tico dessa responsabilidade em relação às músicas. “Será que eu vou dar conta?”, ele sempre falava. Fora isso, somos uma banda que já tocamos juntos há 11 anos e cada um tem evoluído muito, individualmente. A nossa relação ficou mais sólida depois de tudo que a gente passou. A vida é tão efêmera, amanhã a gente pode nem estar aqui e essas fichas vão caindo. Tudo isso se reflete na maneira como a gente trabalha hoje em dia e se porta diante as situações.
JC Cultura - O título da música “Ensaio sobre a cegueira” é uma alusão à obra de José Saramago. Vocês tem tido influência da literatura para a produção das letras?
Renato - O Tico, que escreveu todas as letras desse álbum, tem se aproximado bastante da literatura ao longo dos anos. E de uns tempos pra cá a banda toda começou e ler muito e ultimamente estávamos lendo Saramago. A intenção desse título foi criar uma curiosidade, de certa forma homenagear o autor e fazer com que as pessoas, por analogia, se aproximem mais da leitura.
JC Cultura - Como você avalia as mudanças que ocorreram na banda desde o primeiro trabalho “Detonautas Roque Clube”?
Renato - As mudanças foram acontecendo naturalmente. A gente não tem mais vinte e poucos anos e é natural que no quarto disco falemos de coisas diferentes do primeiro. São outras abordagens, outras experiências de vida e a banda passou muita coisa para chegar até aqui e tudo isso reflete muito. Mas na verdade, as vezes as pessoas acham que o artista tem controle sobre a música, sobre a arte, mas é o contrario, é ela que toma conta da gente. A confecção de um disco, no nosso caso, é muito mais intuitiva. Não é porque um trabalho mais “puxado” para o eletrônico vai tocar mais que a gente vai fazer ele assim”.
JC Cultura - É o primeiro trabalho da banda com a Sony-BMG. Como foi essa mudança de gravadora?
Renato - A nossa relação com a Warner sempre foi muito transparente e eles nunca forçaram a gente a fazer nada. Mas em um determinado momento a única opção que eles tinham para a banda era fazer um acústico. Mas já havíamos feito toda a produção do disco e para a banda seria uma agressão com o nosso próprio sentimento e com a nossa própria música atual regravar tudo em um formato acústico. Não que a gente seja contra o formato, mas não era o momento e por isso decidimos rescindir o contrato e seguir nosso caminho. Então apresentamos o projeto na Sony, eles gostaram e não houve interferência nenhuma deles na gravação do disco.
JC Cultura - Quais as expectativas para esta turnê?
Renato - Nós aprendemos algumas lições com o último disco “Psicodeliamorsexo &distorção” e uma delas foi que expectativas demais geram frustrações. Era uma proposta mais densa e por isso mais difícil de trabalhar. Mas mesmo assim fizemos uma turnê linda, embora não tão extensa quanto a dos dois primeiros trabalhos. Agora, se existe alguma expectativa, é claro que queremos que o disco toque e que as pessoas tenham acesso à nossa música, é de que façamos uma turnê interessante e que gente consiga viver do nosso trabalho. Viver de arte no Brasil é tão difícil, seja ela qual for, então conseguir levar as músicas novas ao maior número de gente possível é a nossa intenção.