Geral

Casos parecidos se sucedem com tempo

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

A tragédia do momento no Brasil é a morte da menina Isabella Nardoni, 5 anos. O assunto ocupa horas e horas na programação das emissoras de rádio e TV e tem merecido toneladas de tintas e de papel dos jornais e revistas. Não se fala de outra coisa. Todo mundo quer dar seu palpite. O tema já beira a exaustão. A tendência porém, daqui a pouco, é que o assunto esfrie e ninguém fale mais nisso. É quase certo que novos casos vão surgir e, de novo, tragédias serão transformadas em espetáculos. Pelo menos é assim que tem sido.

Em maio do ano passado, foi registrado o desaparecimento da britânica Madeleine McCan, 3 anos, que comoveu o mundo. Ela dormia em um quarto de hotel com outros dois irmãos pequenos no complexo turístico da Praia da Luz, em Portugal, quando sumiu. Os pais haviam saído para jantar.

Três meses antes, o caso do menino João Hélio Vieitis, 6 anos, havia dominado o noticiário nacional por várias semanas. O garoto foi morto durante um assalto realizado por quatro jovens e um adolescente. Eles não deixaram que a mãe retirasse o filho do carro e João Hélio foi arrastado no asfalto por sete quilômetros, preso ao cinto de segurança.

Em fevereiro de 2003, o produtor artístico Alexandre Alvarenga jogou o filho, um bebê de 1 ano, contra o pára-brisa de um veículo após se envolver em acidente. A criança atravessou o vidro e parou no colo de outro motorista. O bebê teve fratura na base do crânio e perda de massa encefálica, mas sobreviveu.

Além deles, se recuarmos um pouco mais no tempo, vamos encontrar muitos outros exemplos de comoção popular por causa de alguma tragédia envolvendo crianças. Em Bauru, na década de 1970, o assassinato da menina Mara Lúcia Vieira chocou a cidade. Com 9 anos na época, a garota foi estuprada e morta em uma casa na rua Professor José Ranieri, no Centro. O crime aconteceu no dia 15 de novembro de 1970 e até hoje não foi desvendado.

Seu túmulo, no Cemitério da Saudade, é um dos mais visitados no feriado de Finados e também no transcorrer do ano. Mesmo que o autor do crime seja encontrado, ele não poderá ser processado, porque o crime está prescrito.

Quem não se lembra do caso da Escola Base, ocorrido em março de 1994, quando seis pessoas foram acusadas, de forma precipitada, de abusarem sexualmente de crianças? Antes mesmo de verificar a veracidade da denúncia, o delegado Edelcio Lemos divulgou à imprensa as informações dos laudos preliminares.

A divulgação levou à depredação e saque da escola. Os donos do estabelecimento foram presos. Entretanto, o caso foi arquivado por falta de provas. Não havia indício de que a acusação tivesse fundamento.

De acordo com o professor Dino Magnoni, 47 anos, do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, o Brasil é um dos poucos países onde o suspeito vira réu com muita facilidade. Segundo ele, o direito do cidadão de não ser considerado culpado até que se prove o contrário não é muito respeitado por aqui.

Na opinião dele, essa é uma das heranças deixadas pelo regime autoritário que vigorou no País por muito tempo. “A ditadura criou um vício nos meios de comunicação. E isso persiste até hoje. Eles prendem, julgam e condenam sumariamente. Se no fim da apuração o acusado for inocente, dão apenas uma nota e fica por isso mesmo”, critica.

Para o professor, a briga pela audiência leva à espetacularização das tragédias. “Mais do que a relevância do assunto, vale o retorno que ele pode dar para a empresa. No lugar do jornalismo, está se fazendo entretenimento”, reclama.

Ele cita os exageros do caso Isabella. “Se prestarmos atenção, vamos notar que desde o começo apareceram poucas novidades sobre o assunto. Em quase um mês, quase tudo foi repetição. Era a mesma coisa vista de ângulos diferentes”, observa.

O sociólogo Murilo Cesar Soares, também da Unesp, é outro que acredita haver certo exagero na cobertura do caso. Na avaliação dele, os meios de comunicação já dedicaram espaço e tempo além do razoável para o assunto. “Que eu me lembre, nem mortes como as de Ayrton Senna e Tancredo Neves tiveram cobertura por tanto tempo na mídia. A atual comoção da opinião pública é muito induzida por essa dilatação exagerada do caso que, apesar de triste, está circunscrito aos envolvidos”, pondera.

Segundo ele, em razão disso, pessoas estão sendo julgadas e condenadas não pelos órgãos competentes, mas por populares. “O que não é aceitável no Estado de Direito”.

Comentários

Comentários