Cultura

O que mais interessa a Elba

Diego Molina
| Tempo de leitura: 5 min

Prestes a completar 30 anos de carreira, Elba Ramalho promoveu, mais uma vez, uma guinada em sua trajetória. Seu novo CD, “Qual o Assunto que Mais Lhe Interessa?”, foi lançado no final do ano passado pelo Ramax, selo independente e da própria artista. Ele é um marco não apenas de uma nova forma de mostrar sua música, sem o poderio de uma gravadora, mas de retomada do que Elba fez de melhor em sua história: interpretar grandes compositores com um pé no regionalismo e outro na modernidade.

É a turnê desse CD - que também será lançado em DVD em breve - que a cantora paraibana traz hoje a Bauru, em um show semi-acústico no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves, a partir das 21h. Os ingressos já estão esgotados.

A turnê, patrocinada pelo Bradesco Prime, traz canções nunca registradas por Elba, entre inéditas e sucessos de sua carreira. A apresentação deve ter faixas do novo álbum, marcado pela variedade rítmica, como “Tempos Quase Modernos (Qual o Assunto que Mais lhe Interessa)?” (Roberto Mendes/Capinam), “Conceição dos Coqueiros” (Alexandre Bicudo/Lula Queiroga/ Lulu Oliveira), “Dois para Sempre” (Lula Queiroga), “Noite Severina” (Pedro Luís/Lula Queiroga) e “Rua da Passagem” (Lenine/Arnaldo Antunes”).

Ao repertório do CD, Elba somou momentos memoráveis da carreira, como “Palavra de Mulher”, composta na década de 80 por Chico Buarque. Dos parceiros habituais, incluiu “Leão do Norte” (Lenine/Paulo Cesar Pinheiro), “Gostoso Demais” (Dominguinhos e Nando Cordel), “Chão de Giz” (Zé Ramalho) e “Amplidão” (Chico Cesar). Canções populares, como os frevos “Banho de Cheiro” (Carlos Fernando) e “Frevo Mulher” (Zé Ramalho) também integram o roteiro do show.

Vestida na turnê pelo estilista Lino Vilaventura, Elba Ramalho é acompanhada por três músicos: Marcos Arcanjo (guitarra, viola e violão), Anjo Caldas (percussão) e Toninho Ferraguti (acordeom). Confira a seguir a entrevista dada por Elba via e-mail ao JC Cultura.

JC Cultura - “Qual o Assunto que Mais Lhe Interessa?” já estava “em gestação” desde antes de seu último show em Bauru, no final de 2005. Essa demora para o lançamento foi proposital? A saída de Lenine da produção do disco atrapalhou o processo?

Elba Ramalho - Nada foi proposital, apenas circunstancial. Quando se trabalha sem pressão, o tempo se esvai mais rápido e também rola mais gostoso, sem ansiedade ou constrangimento. A saída do Lenine, que não foi bem uma saída, me levou a buscar outras alternativas e a turma de Recife, os Queiroga, precisou se deslocar muitas vezes e isto leva tempo... Mas penso que saiu no tempo que Deus determinou.

JC Cultura - Como foram os trabalhos com Lula, Tostão e Yuri Queiroga, os produtores? A sonoridade que você imaginava para o disco foi alcançada?

Elba - Foi surpreendente encontrar Lula depois de tantos anos de amizade e saudade e também a grata revelação do Yuri, sem falar na competência de Tostão, meu batera e grande amigo. Saiu como planejamos e muitas outras coisas nos surpreenderam pelo inusitado. Um dos itens que mais me encanta no disco é a sonoridade. Gosto dos arranjos, da concepção e execução destes. Só tem “fera” tocando e grande músicos compartilhando conosco da experiência.

JC Cultura - Além de ser seu primeiro trabalho pela Ramax (selo independente da própria cantora), o disco parece um divisor de águas também na questão da sonoridade. Desde “Solar” você não tinha uma produção tão “moderna” nos álbuns, no que toca a mistura dos elementos regionais com elementos bem “século 21”. É só uma impressão ou realmente foi essa a intenção?

Elba - É fato e uma boa sacação sua. Desde “Solar”, só fiz coisas bem normais, ou melhor, dentro do padrão da normalidade dos discos anteriores, com exceção de “Elba e Dominguinhos”, que considero um trabalho competente, falo de disco e show.

JC Cultura - Como em “Leão do Norte”, a seleção de compositores para esse disco foi primorosa. Ficou muita coisa boa de fora? Você já tem músicas para um próximo trabalho?

Elba - Você lembrou um momento bem especial na minha carreira, de mudança de gravadora e do encontro com Robertinho de Recife no disco “Leão do Norte”. O próximo será comemorativo de 30 anos de carreira. Estamos pensando, semeando idéias para colher mais adiante.

JC Cultura - Por que a opção de uma turnê semi-acústica e intimista pelo Interior? É um formato ao qual você se adaptou facilmente, sabendo da energia e do ritmo que seus shows normalmente têm?

Elba - O meu show nesse formato não perde a verve, ao contrário, ganha vigor na comunicação, nas revelações feitas sob o foco da atriz, no canto forte e maduro, na exímia execução dos músicos... Tudo se sobressai com mais intensidade, por incrível que pareça. Gosto desse tipo de show, porque outra Elba se revela, uma que poucos estão acostumados a ver.

JC Cultura - A turnê tem alguma música diferente ou surpresa para os fãs? Algo que você não cantava há tempos?

Elba - Tem muitas músicas do novo disco e alguns resgates, alguns desejos obscuros à prova, enfim, posso cantar muitas coisas e o público vai determinar o roteiro final.

JC Cultura - O novo DVD já está pronto? Quando ele deve ser lançado?

Elba - Agora sim, acabamos de fechar. Está indo para a fábrica e será lançado em Sampa em grande estilo. Está muito bonito, tanto o show quanto o documentário.

JC Cultura - E, por último, mas não menos importante: hoje, qual é o assunto que mais lhe interessa? E qual assunto não lhe interessa em nada?

Elba - O assunto que mais me interessa é o que envolve o espírito na decisão final. Recheado de amor e virtudes que elevam, penso que o homem precisa rever, urgentemente, valores, moralidade, ética, para almejar transcender. O que não me interessa são as iniqüidades praticadas pelos mais poderosos do mundo, o sangue que jorra sobre a Terra, crianças em sofrimento e a ausência de Deus nos corações.

• Serviço

Elba Ramalho faz show no Teatro Municipal hoje, às 21h. Os ingressos estão esgotados. O teatro fica na avenida Nações Unidas, 8-9. Mais informações pelo telefone (14) 3235-1072.

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