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A realidade do impossível


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Já se gastou toneladas de papel e rios de tinta, no dizer de Franklin Martins, sobre a revolução que não houve, em maio de 1968. Os jovens de calça Lee ou minissaia, sandálias franciscanas, queriam uma revolução nas superestruturas, como rezava a cartilha de Mao Tsé Tung. Hoje sabemos que não deu certo. O capitalismo venceu. A adesão pura e simples ao mercado fez a economia crescer, embora a desigualdade social tenha aumentado. Mas, isso é outra história.

Os gritos das manifestações de rua, no entanto, ainda ecoam como uma crítica ao autoritarismo. “É proibido proibir”. Venceu a imaginação, o desejo sem repressão e o amor sem censura. A juventude de 68 ficou longe de uma revolução, no sentido clássico de mudar o sistema político-econômico-social como queria Gramsci. Mas mostrou à História a importância do jovem na política e na cultura. O ano de 68, no Brasil, “não terminou” para muitos, sob o calendário do Ato Institucional n. 5. Lamente-se os mortos, presos, torturados e exilados. Comemore-se a verdadeira e universal revolução dos costumes.

Pílulas anticoncepcionais, rebeldia, rock e contracultura são algumas das muitas palavras-chave que fizeram o moço e a moça – antes subordinados à valorização do modelo adulto – ganharem ares de protagonistas. Enquanto os Beatles buscavam sua espiritualidade, jovens de toda parte flertavam com a nouvelle vague, o cinema novo, a ecologia, as teorias da sociedade de massa, as idéias de McLuhan, Debord e Marcuse. Era a imaginação do poder. Veja só uma das palavras de ordem: “Sejamos realistas, desejemos o impossível”.

Quem tem mais de 55 anos deve se lembrar que Bauru também sofreu esse contagio, à maneira caingangue. Afinal, somos parte do Planeta. Pelo menos se viu algumas passeatas de protesto contra o fim da meia-entrada para estudantes; a favor do passe privilegiado para os universitários nos ônibus do Quaggio e protestos pelo aumento das mensalidades na ITE. Havia os “desbundados”, ou seja, os desvairados que queriam aparecer, mas não negavam a ascendência burguesa. Ainda assim, o desbunde foi uma das vertentes da resposta à brutalidade do regime ditatorial. Por causa dessa palavra “desbunde”, que o Flávio Pedroso empregava em sua coluna no Diário de Bauru, fomos, ambos, parar na Censura Federal em São Paulo, sob ameaça de prisão. Aquela coluna era diferente da de hoje, no JC, focada em celebridades globais. Naquela época Flavinho era um espadachim da palavra que terçava sua caneta feito o Zorro atrás do sargento Garcia. Touché em todo mundo. Fosse lá quem fosse. Desbundar era contra o regime e o colunista foi denunciado pela sociedade conservadora da época, pelas gozações em cima daqueles que se achavam importantes, numa cidade sem importância.

E o que resta, hoje, de 1968? Para o cineasta Eduardo Escorel, “uma fotografia na parede, nada mais”. Envelhecemos. Naquela época éramos jovens. Acreditávamos que era possível enfrentar a ditadura militar com manifestações de rua ou entrelinhas nos jornais. Fico impressionado com a enorme passividade dos jovens diante da violência e da corrupção que assola o país. Onde está o poder de mobilização hoje? O sociólogo francês Michel Misse cogita que não se trata de apatia, mas sim de uma reformulação do ato de reivindicar. O mundo mudou muito, a mobilização tem outros meios, como a internet. Temos hoje uma multiplicidade de manifestações, com menos gente nas ruas, mas muito mais espalhados pelo país, em luta por direitos e contra arbitrariedades políticas.

Para não ser tão otimista e nem do contra, digo que restou de 68 o lado erótico e o mitológico. A beleza sensual da vida, a escolha por viver de maneira rica todas as esferas expressivas é, em 2008, infinitamente superior há 40 anos. Também não quero ser tão melancólico. Se for verdade que o movimento feminista e outros movimentos de emancipação são herdeiros, mesmo que parciais, dos ideais de 68, concluo: valeu a pena.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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