Bairros

Ferroviários ocuparam pontos distantes

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 4 min

Por ter seu desenvolvimento ligado à chegada das ferrovias, Bauru teve bairros inteiros criados para abrigar os milhares de ferroviários que trabalhavam nas três empresas que atuavam na cidade: Sorocabana, a Noroeste do Brasil (NOB) e a Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

As mudanças vieram de forma intensa, já que logo após a sua emancipação, em 1896, Bauru tinha apenas 500 moradores e, em 1910, com a chegadas das três ferrovias, sua população saltou para cerca de 10 mil habitantes.

“Nessa época, a cidade oferecia para quem se instalasse na cidade benefícios avançados para uma cidade do Interior. Bauru tinha luz elétrica, telefone, bancos e um forte comércio”, conta Nilson Ghirardello, professor de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisador das ferrovias em Bauru.

O pesquisador explica que as ferrovias que operavam em Bauru não foram só responsáveis pela ocupação do território bauruense, mas também de territórios na região. “Diversas cidades foram formadas ao logo do trajeto das ferrovias”, afirma.

Em Bauru, além de investir em oficinas de trabalho, escritórios, construção de estações de embarque e desembarque de passageiros e depósitos de produtos que eram transportados pela ferrovia, as empresas construíram casas às margens dos trilhos e outros locais, que rapidamente foram ocupados pelos seus funcionários.

“A Vila Curuçá foi construída em meados do anos 30, para abrigar especificamente os funcionários da Noroeste do Brasil (NOB). O então presidente da NOB determinou a construção de dezenas de casas para servirem de moradia para os funcionários e o nome Curuçá foi escolhido porque no local existia uma pequena estação com esse nome”, narra o professor de história moderna e contemporânea João Francisco Tidei de Lima, da Universidade do Sagrado Coração (USC). Anos mais tarde, o local passou a ser chamado de Vila Dutra.

Como as três ferrovias que atuavam em Bauru possuíam milhares de funcionários, outros bairros foram surgindo e crescendo devido à ocupação dos ferroviários. Na Vila Falcão e Jardim Bela Vista, centenas de casas foram construídas pelas empresas para que seus funcionários morassem próximos ao local de trabalho.

“Casas de alto nível para época era construídas para funcionários do alto escalão das empresas e outras moradias de qualidade inferior eram construídas e alugadas para os demais funcionários”, conta Lima.

Além dos bairros criados com a ocupação dos ferroviários, o Centro da cidade também recebeu investimentos das empresas ferroviárias. Nessa área, dezenas de moradias foram erguidas com o mesmo intuito de servir como moradia para os ferroviários. Grande parte dessas construções, localizadas próximas à Estação Ferroviária, hoje se encontram fechadas, sofrendo a ação do tempo.

O que não se encontra deteriorado teve suas características arquitetônicas alteradas ou demolidas. Entre eles se encontram bares, restaurantes, hotéis e lojas de comércios diversos, construídos no século passado próximos da estação de olho no movimento diário de pessoas em torno da estação.

“Em 1959, 28 trens de passageiros tinham como ponto de parada a Estação Ferroviária de Bauru, cerca de 1.000 pessoas passavam diariamente pelo local”, afirma Lima.

Atualmente, diversas casas construídas na Vila Falcão e Dutra ou na Jardim Bela Vista foram demolidas e deram lugar às construções com projetos de arquitetura mais modernos, mas próximo ao Centro velho diversas casas construídas para abrigar os ferroviários ainda estão em pé, algumas invadidas, outras alugadas por ex-ferroviários junto à Rede Ferroviária Federal.

Os prédios construídos para funcionar como hotéis e pensões tiveram sua estrutura interna modificada e, atualmente, abrigam comércios diversificados e pequenas igrejas.

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Ocupação para preservação

A Prefeitura de Bauru, nos últimos anos, vem ocupando alguns dos prédios construídos pelas empresas ferroviárias que atuavam na cidade. De acordo com a assessoria de imprensa do município, quatro desses imóveis que no passado abrigavam repartições das ferrovias hoje servem como sede de três secretarias: Esporte e Lazer, Bem-Estar Social (Sebes), Museu da Imagem e do Som (antiga estação da Paulista) e o prédio do Museu Ferroviário, administrados pela Secretaria Municipal de Cultura.

De acordo com José Augusto Ribeiro Vinagre, secretário de Cultura do município, o projeto de revitalização do Centro velho da cidade passa pela reforma e reativação desses prédios históricos. “São prédios tombados como patrimônio histórico, por isso a reforma deve seguir algumas regras, como a manutenção de suas fachadas”, lembra Vinagre.

O secretário explica que a reforma está sendo realizada aos poucos, com os próprios recursos da secretaria e com a mão-de-obra de condenados pela Justiça com pena alternativa.

Ainda de acordo com a assessoria de imprensa, havia a intenção de desapropriação do prédio da Estação Ferroviária da NOB com pagamento ao Sindicato dos Ferroviários em três parcelas anuais (2006, 2007 e 2008). O local seria utilizado pela Secretaria Municipal de Educação, inclusive com a instalação de uma creche no local.

No entanto, o Sindicato dos Ferroviários procurou a prefeitura com o pedido de revogação do Decreto de utilidade pública da Estação Ferroviária. A solicitação foi reforçada por entidades de classe do comércio, que vislumbraram a possibilidade da criação de empregos com a implantação do empreendimento comercial, que acabou não vingando.

Vinagre conta que pretende transformar o local em um braço do Museu Ferroviário para abrigar grandes peças ligadas à ferrovia que seriam reformadas e colocadas à exposição pública.

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