Saúde

Inspire, respire, transpire

Por Julliane Silveira | Folhapress
| Tempo de leitura: 7 min

Os dias mais quentes definitivamente ficaram para trás e aumentaram as camadas de roupa para esconder o corpo. Esta parece ser a época certa para pensar em deixar a academia de lado, depois de uma temporada de exercícios intensos para exibir um corpo em ordem no verão. Pelo menos é o que mostram os números: em três grandes redes de academias de São Paulo consultadas pela reportagem, o período com menor procura e maior desistência de alunos segue outono e inverno adentro.

O problema, alerta uma pesquisa divulgada em fevereiro pelo “American College of Sports Medicine”, é que a fase de parada favorece um ganho de peso maior do que o perdido durante a prática esportiva. “As pessoas deveriam ter em mente que os benefícios do exercício não são um depósito de banco. O que afeta a saúde é o que fazem hoje, e não o que costumavam fazer”, alerta o pesquisador Paul Williams, do Departamento de Ciências da Vida do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, na Califórnia (EUA).

Williams avaliou, durante sete anos, 17.280 homens e 5.970 mulheres. Concluiu que aqueles que corriam pequenas distâncias (até oito quilômetros por semana) estavam mais sujeitos a ganhar peso quando pararam do que os que se exercitavam mais. “Não sabemos ao certo quanto tempo de parada levaria ao ganho de peso. Eu imagino que de seis meses a um ano”, diz Williams.

O estudo mostra ainda que a diminuição nas distâncias da corrida causa ganhos significativos de peso em todos os níveis, mas o aumento na balança é progressivamente maior à medida que o corredor se aproxima do sedentarismo.

Especialistas brasileiros acreditam que o aumento de peso pode ser explicado pelos hábitos alimentares adquiridos durante a prática dos exercícios. “A pessoa se propõe a nadar três vezes por semana e, por conta disso, passa a ingerir mais calorias. Então, pára de freqüentar, não diminui a ingestão de comida e adquire quilos extras”, diz a endocrinologista Zuleika Halpern, uma das diretoras do departamento de obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Para Williams, medir a ingestão calórica com a precisão necessária para computá-la em ganho ou perda de peso é difícil - o dado não foi considerado na pesquisa. “Provavelmente, parte do peso adquirido corresponde à compensação, pela dieta, da energia gasta ao começar a se exercitar”, aponta o pesquisador.

Isso ocorre porque, em geral, quanto menos uma pessoa se exercita, menos se compromete com a atividade e tem menos disposição para fazer compensações (como diminuir a ingestão calórica) a fim de evitar ganhos de peso, se parar de praticá-la. É a explicação do fisiologista do exercício Turíbio Leite Barros Neto, coordenador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte (Cemafe), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “É uma questão comportamental. Ela não se envolve tanto na atividade e fica mais próxima de desequilibrar a relação gasto/ingestão de calorias.”

Em contrapartida, muitas pessoas assumem metas irreais no verão, com dietas extremamente restritivas e exercícios vigorosos demais, difíceis de manter por muito tempo. Quando deixam de lado ambas as “estratégias”, tendem a relaxar demais e voltam a se alimentar como antes.

Além disso, diz o médico, tudo o que o corpo reconhece como estímulo é usado para desencadear um mecanismo adaptativo, o que acontece também com o gasto de calorias: o indivíduo ativo terá maior consumo energético do que o sedentário. Em suma, quem possui mais massa magra tem um consumo maior de calorias por quilo de peso do que o indivíduo com mais tecido gorduroso. E a vida sedentária ajuda na diminuição da massa muscular e no aumento da gordura corporal, uma vez que músculos são bastante flexíveis - da mesma forma que aumentam quando estimulados, diminuem se não são exercitados.

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Empatia com exercício ajuda a evitar desistência

A empresária Maria Ines Moane passou por diversas academias durante dez anos, sem se fixar em nenhum tipo de exercício. “Não gostava de nada, não me sentia motivada, mesmo ganhando peso entre uma atividade e outra”, conta.

Há quatro anos, experimentou aulas de danças étnicas, que pratica até hoje. “Não queria só malhar, queria me alongar, me aproximar dos colegas. Para mim, o bom da dança é a interatividade.” Agora, ela freqüenta um estúdio três vezes por semana, durante uma hora e meia.

Maria Ines percebeu que o mais importante para mantê-la assídua era ter empatia com o exercício. O que deu certo. “O melhor exercício é o de que se gosta e isso é muito pessoal, tem a ver com a personalidade, o que pode ser decisivo para o aluno persistir ou não”, diz Mauro Guiselini, diretor do Instituto Runner de Pesquisa.

Para o fisiologista Turíbio Leite Barros Neto, aliar exercícios e prazer é a saída para se exercitar ano após ano. “Manter um nível de atividade sem desacelerar é muito difícil. Por isso, é preciso buscar uma rotina agradável, não encarar como obrigação, mas sim como fonte de prazer.”

Márcio Mancini, endocrinologista e presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), concorda: “O indivíduo não deve buscar soluções radicais, mas, sim, conseguir se imaginar praticando aquela atividade daqui a dez anos”.

É assim que o analista de sistemas André Pasqualini pensa ao pedalar 26 quilômetros por dia para ir e voltar do trabalho. Ele, que não conseguia passar mais de três meses na academia por falta de tempo e pelo “tédio”, emagreceu dez quilos após adotar a bicicleta como meio de transporte. “Não faço restrição alimentar nenhuma e mantenho meu peso. Se tenho boa saúde, devo à bicicleta”, diz ele, que criou um site para trocar informações sobre ciclismo e participa todo mês da Bicicletada, um evento que reúne ciclistas para pedalar à noite em São Paulo.

O ideal é experimentar diferentes atividades, buscar informações sobre os benefícios e tolerar as etapas necessárias para começar a enxergá-los. Essa era a principal dificuldade da administradora Renata Leal Costa, que não tinha disciplina e desistia de malhar antes de perceber as mudanças em seu corpo.

“Quando me permiti ficar mais tempo na academia, comecei a gostar, ver que não era tão difícil. Fiquei viciada, pois me alimento e durmo melhor”, diz Renata, que conta com a ajuda de uma personal trainer para variar os exercícios e estimulá-la nos “dias de preguiça”.

“É até uma questão de química cerebral, em um processo complexo que envolve as endorfinas, hormônios do prazer: quem vibra quando faz exercícios e se sente recompensado tem a atividade mais facilmente incorporada à rotina e dificilmente vai parar”, afirma Barros Neto.

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Articulações

Além da dificuldade para manter o peso, o exercício intermitente também oferece outros riscos, como a sobrecarga das articulações e dos tendões. O problema, na verdade, está em acreditar que, mesmo se exercitando somente em algumas fases da vida, o condicionamento físico se mantém.

“Quem faz atividade física e pára é, de fato, um sedentário”, alerta o ortopedista Ricardo Cury, diretor do Comitê de Cirurgia do Joelho da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT). E, quando volta a praticar exercícios, tem os riscos de um inativo, como o maior potencial de lesões.

“O mais lamentável é que esse indivíduo perde os benefícios da atividade física em relação à capacidade cardiorrespiratória, ao controle de pressão arterial e de glicemia e à obesidade. E quando quer tirar o atraso, algo típico do pré-verão, muitas vezes com tempo insuficiente para adquirir condicionamento, pode ter problemas ortopédicos, como inflamação nos tendões”, diz.

Com esse hábito, o organismo acaba sofrendo agressões em vez de criar um mecanismo de adaptação progressivo e de manutenção. Isso sem falar nos riscos de morte súbita por excesso de esforço do coração, já conhecidos.

“O aluno acha que está adaptado porque treinou um tempo na academia, mas parou ou freqüenta irregularmente. Quando volta, quer seguir o treino de antes, mas precisa necessariamente de uma readaptação”, diz Mauro Cardaci, coordenador da musculação de uma rede de academias em São Paulo.

Isso acontece porque, no Brasil, a atividade física ainda é vista pelos praticantes com fins puramente estéticos, e não como estilo saudável de vida, justifica o diretor técnico de outra rede de academias, Saturno de Souza. “Menos de 2% dos brasileiros praticam sistematicamente algum esporte e muitos buscam resultados rapidamente sem entender que os de médio e longo prazos são muito maiores: força muscular, resistência e melhora do sistema cardiovascular”, afirma.

Para os que se preocupam com a beleza, o hábito de se exercitar irregularmente também traz prejuízos estéticos: o vaivém de peso pode causar pele e músculos flácidos. “O problema é o efeito rebote, que é mais forte com o passar do tempo, uma vez que a massa muscular diminui com o passar dos verões e é mais difícil correr atrás do prejuízo da parada”, explica Turíbio Leite Barros Neto, coordenador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte (Cemafe), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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