Bauru comemora hoje o Dia da Luta Antimanicomial, um movimento que tenta mobilizar a população por uma sociedade sem manicômios há mais de 20 anos. Essa luta, no entanto, não começou no Brasil. Para se ter uma idéia da dimensão do combate aos manicômios, temos que lembrar do médico italiano Franco Basaglia. Em maio de 1978, Basaglia, membro do Partido Comunista Italiano, conseguiu que o Parlamento de seu país aprovasse a Lei de número 180 que acabava com os hospitais psiquiátricos.
Desde então, diversos movimentos surgiram em todo o mundo, visando acabar com o sistema de internação, oferecendo alternativas para que os portadores de distúrbios mentais tivessem direito a tratamentos, sem que fossem retirados do seio da família e do convívio da sociedade. No Brasil, se iniciou com o posicionamento dos trabalhadores de saúde mental. Surge então, em 1987, o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, se posicionando no sentido de negar o manicômio como forma de tratamento e de propor novas alternativas terapêuticas ao indivíduo portador de transtornos psíquicos.
Em Bauru não é diferente. Os profissionais que lidam diretamente com portadores de distúrbios psíquicos encampam todos os anos a Semana de Luta Antimanicomial, que se encerra hoje, com o Dia de Luta Antimanicomial. Segundo a psicóloga e gerente do Centro de Atenção Psicossocial (Caps), Maria Bernadete de Oliveira Paula, a semana foi voltada justamente para os pacientes e familiares de pacientes que freqüentam o Caps.
O objetivo? Mostrar aos familiares dos pacientes e, em conseqüência, à sociedade em geral, que a internação de uma pessoa com distúrbios psíquicos não é a melhor alternativa de tratamento, como muitos ainda acreditam. Além disso, romper o velho preconceito que existe na população, de chamar quem tem alguma doença mental de “louco”.
De acordo com Bernadete, a única preocupação da família, quando um paciente está em crise, é interná-lo. “A internação não se dá dessa forma. É um processo: o paciente tem que vir até a unidade, passar por avaliação psiquiátrica para ver se é ocaso de internação e só daí a gente vai solicitar uma vaga para a central de vagas”, explica.
É aí que reside outro problema grave na área de saúde mental: o número de vagas para internação é limitado e não é definido pelo município, ela fica centrada no Departamento Regional de Saúde 6 (DRS-6), e as vagas para internação para a região de Bauru ficam centradas no Hospital Psiquiátrico de Jaú. “Nós temos dificuldades por causa disso, não há vagas. E além disso temos que lidar com a família que quer internar o paciente a todo custo”, frisa.
O que pode ser feito? Bernadete explica que o tratamento intensivo, quando o paciente precisa ir todos os dias ao Caps é o recomendado em situações de crise. São feitas várias avaliações para saber se o portador do distúrbio está reagindo bem ao tratamento. Em casos que o paciente não se estabiliza, nos períodos em que não fica no Caps, ele é encaminhado ao pronto-socorro.
Se as dificuldades permanecem, os profissionais do Caps têm, ao menos, alguma coisa para comemorar: a diminuição das internações, desde que os Centros foram criados, há seis anos. “É justamente esse o objetivo: tratar o paciente dentro de casa, tirando ele da crise”, destaca Bernadete. No entanto, para isso é necessário um trabalho de conscientização da família, que é justamente o foco da Luta Antimanicomial.
A gerente do Caps ressalta ainda que essa conscientização visa mostrar aos familiares que a internação, ao contrário de curar o paciente, pode tornar a doença mais crônica, isso sem falar na perda de identidade que um paciente internado sofre. “A internação não vai resolver. Tira ele da crise, mas se não continuar a tratar, ele vai sempre repetir as crises, e elas serão cada vez piores”, diz.
A terapeuta ocupacional Sônia Regina Fraga Lopes lembra ainda que antigamente a internação era comum, já que havia os hospitais psiquiátricos e todos os casos iam direto para eles. Os Caps foram criados, lembra ela, justamente para acabar com a prática de internação indiscriminada. “Eles (os pacientes) ficavam sumidos da sociedade, isolados e eram tratados todos juntos. Com os Caps, foram separados por patologias, por doenças”, destaca.
Em Bauru são três unidades do Centro de Atenção Psicossocial. O Caps 1 – Transtorno Psiquiátrico Adulto é o que trata os distúrbios mais graves, cujos pacientes precisam ser acompanhados e que, às vezes, não têm aceitação na sociedade, são discriminados. O Caps ad - Álcool e Drogas, como o nome já diz, trata pacientes com distúrbios causados pelo consumo dessas substâncias, e por fim o Caps I – Criança e Adolescente.