“O artista deve manter sua liberdade diante de qualquer circunstância”, assim pensou e assim viveu uma pessoa que se faz extremamente necessária nos dias atuais: o cineasta brasileiro Glauber Rocha. Até a sua morte Glauber foi um profeta que movimentava mentes e provocava o questionamento. Este Sócrates terceiromundista possuía uma liberdade criativa que incomodava e retirava do marasmo as pessoas à sua volta. Retratado no documentário “Glauber, o Filme - Labirinto do Brasil”, de Sílvio Tendler, acompanhamos seu enterro, depoimentos de pessoas que estiveram em sua trajetória, seus pensamentos, suas obras cinematográficas e seus comportamentos. No fim deste caminho traçado por Tendler ficamos inconformados com a inércia do ser humano em uma sociedade neoliberal. Não com a inércia de luta pela sobrevivência, mas justamente com uma inércia de criatividade, de novidade, de utopia e, finalmente, de transformação da realidade individual e coletiva. A memória de um artista que realizava um cinema libertário e independente nos leva a questionar sobre nosso fechamento no individualismo e o impulso vital de abertura para a vida.
Para o filósofo francês Henri Bergson, a vida é um constante processo criativo impulsionado por um “élan vital”, ou seja, um impulso de vida que faz com que os seres vivos estejam em constante estado de transformação. O universo está em contínua mutação, criando novas formas e sendo um espaço para o surgimento do novo. A esta fonte inesgotável da qual emanam todas as coisas no seu fluxo perene, ao impulso vital que não é substância, mas força, que produz por evolução sempre novas e melhores formas, Bergson deu também o nome de “duração” (durée). A vida é um rio que flui em uma duração constante que carrega em si o que já existiu e o que está por vir. Segundo o filósofo, “duração é criação contínua, um ininterrupto jorro de novidade”. Neste universo, o ser humano possui um papel fundamental, pois nele encontramos consciência viva, duração concreta, liberdade criativa. Esta vida espiritual da pessoa humana deve estar em constante comunicação com os seres do universo (atenção à vida), carregado de passado (memória) e em constante expectativa para o futuro (imortalidade). A vida, e principalmente a vida humana, é um constante tornar a ser, criativo surgimento de formas e atos para a superação da matéria. Esta, segundo Bergson, é o único obstáculo para o impulso infinito, pois a matéria é inerte, dispersa e solidificada. Mas, ao mesmo tempo em que a matéria impede, limita a evolução do élan, que é puro movimento, ela torna-se necessária, pois é na interação do impulso vital com a matéria que o novo pode surgir. Assim, o élan seria a força e energia que atuam na matéria.
Nesta dialética entre impulso vital e matéria, nascem no universo humano duas tendências: a moral repressora (regra de coesão social que garante e preserva a vida e os interesses das pessoas) e a expansão libertária (a abertura para a liberdade). Desta forma, temos sempre presente na vida humana dois momentos éticos: o fechamento e a abertura.
A moral fechada é o universo mental que nos formata e nos torna apenas peça de um sistema. Ela é a moral da pressão social: obedece-se às leis impostas pela sociedade (cuja finalidade é a conservação da ordem social) por medo das conseqüências sociais ou econômicas aos “transgressores” do sistema ou pelo desejo de se obter as recompensas prometidas a quem age segundo o sistema. A moral aberta, porém, se constitui em um momento superior do comportamento humano, um momento mais alto da vida, ou seja, sua atuação em liberdade.
Na moral aberta o ser humano experimenta e vive a mais alta expressão da vida, e ao se deparar com as leis da sociedade se eleva à liberdade. Diferente da moral fechada, que pretende ser imutável e tende à conservação, a moral aberta está em movimento e tende à constante busca de melhoria da existência e ao benefício da humanidade: é a moral fundada no amor à vida.
Viver profundamente é ter consciência da mutabilidade do universo e da responsabilidade do ser humano em interagir com seu mundo, deixando fluir, na criatividade e sem o medo do novo, o impulso de vida que todos nós possuímos. Isso significa não se deixar levar pelo conformismo ou pela falsa ideologia da economia de mercado, mas ter a consciência de que cada um pode dar sua contribuição para que o universo humano se transforme em uma realidade mais bela e fraterna. A cada instante, a cada momento, podemos modificar nossa realidade interior e social tornando nossas utopias mais próximas da matéria, mais próximas de uma realidade a ser partilhada com todos. No trabalho, na família, no círculo de amigos, no bairro, enfim, em todos os espaços que freqüentamos podemos dar sentido à nossa vida (que consiste em uma passagem) liberando a força positiva que nos move. Basta nos conscientizarmos de que a vida não “é” assim, mas “está” assim.
* Especial para o JC