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Dr. Automóvel: Tecnologia de Fórmula 1

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Todos nós sabemos que a Formula 1 é um autêntico laboratório de desenvolvimento e pesquisas da industria automobilística. Milhares de inovações que hoje são corriqueiras em nossos automóveis de rua vieram das pistas de corrida, notoriamente um ambiente muito rigoroso para as máquinas. Invenções como freios a disco, cintos de segurança, injeção de combustível, pneus radiais e sem câmara, câmbios semi-automáticos, eletrônica embarcada, carenagens em fibra de carbono, aerodinâmica veicular, telemetria e muito mais existem por que foram desenvolvidos para as necessidades da pista.

Mas, como tudo que é exagerado, tem pecados. Um Formula 1 atual tem mais a ver com um caça a jato do que um automóvel. Anda (ou voa) na pista a velocidades maiores que muito avião de pequeno porte. Tem asas semelhantes aos aviões, só que invertidas para forçar o veículo contra o solo (down force) e não para decolar (sustentação). Os motores da Formula 1 ultrapassam os 900CV com um peso inferior a 600 kg, o que dá uma relação peso-potência de 0,66 kg/CV, ou 1,5 CV para cada quilo! Como exemplo, um carro popular com cerca de 1000 kg e 70 CV tem uma relação peso-potência de 14,28 kg/CV ou 0,07CV /kg, ou seja 21,5 vezes menos que um Formula 1... Toda essa potência precisa de controle, e isto hoje é feito eletronicamente nos carros de corrida. Câmbios eletrônicos, controle de tração, controle de largada, sensores de rotação, potência extra para ultrapassagens, telemetria externa com possibilidade de ajustes dos boxes com o carro em movimento e uma infinidade de outros truques entraram e saíram dos carros nos últimos tempos. Alguns foram banidos do regulamento por darem muita velocidade ao carro em detrimento da segurança, outros foram eliminados por seus custos elevados ou por tirar a competitividade na corrida.

Vejamos o caso dos pneus. Até 14 anos atrás os pneus eram lisos, de borracha extra macia e muito largos, chamados de slicks. Estes pneus davam uma enorme aderência ao carro, permitindo velocidades em curvas absurdas e manobras rápidas. Tinham um desgaste elevado e precisavam ser trocados regularmente, dando boa briga nos boxes. Para aumentar a segurança e diminuir a velocidade, alteraram as regras e eliminaram os slicks, obrigando as equipes a usarem pneus com ranhuras e mais estreitos. Estes pneus tinham 3 configurações básicas: 2 ranhuradas para piso seco, uma mais dura e outra macia, e uma versão para chuva. De início a velocidade caiu mas logo chegou aos mesmos patamares de antes, só que agora com pneus mais estreitos, o que era um contra senso. E o pior é que os carros passaram a andar juntos, dificultando a ultrapassagem. Para mudar o cenário, a FIA mudou a regra novamente e obrigou as equipes a usarem pelo menos 2 jogos de pneus diferentes durante a corrida, ou seja pelo menos um jogo duro e outro macio. Com isso, esperava-se equilibrar mais as corridas pois alguns carros se davam melhor com pneus macios e outros com os duros. O que aconteceu? Dificultaram-se mais ainda as ultrapassagens e a Formula 1 perdeu a graça. Quem larga na frente tem muito mais chance de ganhar do que os outros e as corridas ficaram monótonas. Para o ano que vem está prevista a volta dos pneus slick e com eles, a competitividade. Outros controles eletrônicos estão sendo tirados dos carros e devolvidos ao piloto, e isto fará com que quem tem mais braço volte a se destacar na corrida. Vimos nas últimas provas que muita gente andou derrapando e saindo de curvas sem controle porque estava mal acostumado, e agora vão ter que mostrar se tem braço ou não.

Os controles e superfícies aerodinâmicas também serão afetadas para a próxima temporada. Hoje tem carro na pista que parece mais um cabideiro do que um carro de corrida, de tanto apêndice aerodinâmico (asinhas, aerofólios, spoilers, lemes, etc.). Alguns são fixos e outros reguláveis, e os mecânicos se esforçam para ajustar tudo durante pit stops. Espero que os novos carros fiquem mais parecidos com os da década de 60, lisos e esguios, sem frescura. Os pilotos com mais talento para o ajuste da máquina e direção em corrida se destacarão do resto da manada, e os carros serão mais guiáveis e próximos da realidade dos outros automóveis. Este é um dos fundamentos da Formula 1, a pesquisa para a indústria automotiva.

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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

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