A sabedoria popular costuma afirmar que aquilo que uma mãe (ou um pai) faz por um filho, um filho não faz pela mãe. Que pessoa, por exemplo, seria capaz de gastar R$ 45 mil para comprar um presente para aquela que lhe deu a vida? Fossem R$ 45,00, muita gente até poderia responder que sim. Mas R$ 45 mil! Quanto exagero...
O que muita gente não sabe é que, em Bauru, dezenas de casais não se importam nem um pouco em dispor dessa quantia em favor de um filho. Mulheres que sofrem de infertilidade (ou cujos companheiros apresentam tais problemas) chegam a gastar de R$ 8 mil a R$ 45 mil para tentar engravidar através de tratamentos médicos.
Caso deseje realizar uma única tentativa pelo mais avançado método de reprodução assistida disponível atualmente - a injeção citoplasmática do espermatozóide (em inglês, ICSI), em que o gameta masculino é introduzido no óvulo por meio de um aparelho micromanipulador produzido no Japão, cujo valor gira em torno de R$ 400 mil -, a candidata a mamãe terá de dispor de, no mínimo, R$ 12 mil.
Casais que optam pela fertilização in vitro clássica (conhecida popularmente como “bebê de proveta”), técnica relativamente mais simples (não requer aparelhagem tão moderna), têm de gastar cerca de R$ 8 mil.
Mesmo aqueles que estiverem em condições de recorrer a tratamentos de menor complexidade - como a inseminação artificial simples, em que o sêmen do marido é injetado no fundo uterino da esposa (região localizada próxima à entrada das trompas de Falópio) - serão obrigados a dispor de uma soma considerável: R$ 2 mil, valor que cobre toda a medicação utilizada no decorrer do tratamento (hormônios sintéticos importados dos Estados Unidos, responsáveis pelo “amadurecimento” dos óvulos), mais os exames e procedimentos médicos necessários.
Assim como no dito popular, tamanho da conta bancária não é documento quando se fala em métodos de reprodução assistida (embora seja um fator bastante útil, dada a quantia que a pessoa tem de arcar para poder engravidar).
A reportagem apurou que há casos, em Bauru, de casais que tiveram de se submeter a quatro tentativas seguidas pelo método ICSI para poderem alcançar o sonho de ter um filho, enquanto outros foram bem sucedidos logo na primeira. Há situações, ainda, em que mulheres permaneceram incapazes de engravidar, mesmo depois de terem gasto uma soma superior a R$ 45 mil.
Isto porque o fato de a mulher ter um óvulo fecundado colocado no interior de seu útero não garante que ela estará com um bebê no colo, nove meses depois. Na inseminação artificial, as chances da gravidez ser bem sucedida variam entre 20% e 25%. Na fertilização in vitro clássica e na ICSI, as probabilidades são um pouco maiores - cerca de 35%. As possibilidades que uma mulher fértil tem de engravidar em uma relação sexual normal variam entre 15% e 20%.
Casados desde 1999, os bauruenses Maria Moura, 34 anos, e Gilmar Soares, 33 anos, resolveram desafiar as estatísticas. Há cerca de três anos, o comerciante descobriu que era estéril (tinha baixa contagem de espermatozóides, e resolveu encarar um tratamento de reprodução assistida.
“Procuramos diversos médicos e todos disseram que, por meios naturais, nossas chances de ter um bebê seriam de apenas 1%”, conta Gilmar. Para poderem se submeter ao tratamento (cujo valor total foi de R$ 15 mil), ele e a esposa tiveram vender uma caminhonete S-10. Maria ainda se viu obrigada a deixar a faculdade de nutrição. Valeu à pena? “Claro que sim. Eu recomendo a todas as mães que sonham em ter um filho que não desistam jamais. Existem muitas saídas para o problema da infertilidade, basta a pessoa acreditar”, diz ela, com as gêmeas Mariana e Geovana, 2 anos, no colo.
As meninas são dois dos cinco embriões introduzidos no útero de Maria por ocasião do tratamento (os outros três não vingaram). Nas técnicas de fertilização in vitro, os especialistas costumam retirar do ovário de oito a dez óvulos para serem fecundados, dos quais apenas quatro são colocados dentro da mulher. Em geral, aqueles que não são utilizados na primeira tentativa são congelados, para poderem ser aproveitados em ocasiões futuras (caso a mulher queira engravidar novamente, por exemplo).
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Acompanhamento
Casais que passam por um tratamento de reprodução assistida costumam ter à disposição um serviço de acompanhamento psicológico, devido ao estresse e à ansiedade a que ficam submetidos.
“O objetivo inicial do acompanhamento psicológico é fazer com que o casal aceite o problema da infertilidade. Isso é um trabalho difícil, por conta dos modelos fixos que nossa sociedade criou em torno da paternidade. Para o homem, o fato de não ser capaz de ter um filho corresponde à perda da masculinidade. Já para a mulher, a incapacidade de gerar um bebê é o mesmo que não cumprir sua missão”, explica a psicóloga e professora da Universidade Paulista (Unip) de Bauru Marcela Vendramini Morato Velosa.
Superado o problema da aceitação da infertilidade, o profissional tem agora de convencer o casal de que o tratamento não é infalível. “Nessa fase, é preciso deixá-los cientes de que farão um investimento alto que nem sempre trará o retorno desejado”, afirma.
Esse trabalho nem sempre é dos mais fáceis. “O casal cria expectativas em relação à criança que poderá nascer. Quando chega o período da mulher menstruar e fica comprovado que o bebê não veio, é o mesmo que a pessoa entrasse em um período de luto”, lembra ela.
Nesses casos, a psicóloga tenta mostrar ao casal meios de se superar a desilusão. O trabalho dos profissionais se mostra necessário, também, nas situações em que o tratamento é bem sucedido. “Como a expectativa em torno da criança é muito grande, é comum que as mães fiquem se questionando: ‘Será que vou segurar o bebê? Será que ele nascerá sadio?’ Essa ansiedade pode ser prejudicial para o feto e mesmo para a gestante”, explica Velosa.