Onipresente. Essa é a principal característica da fuligem que invade as casas de Bauru, desde o último final de semana. “Por dentro das paredes, pelos quartos, pelos prédios e no portão”, escreveu uma vez o compositor Nando Reis. Mesmo quem conhece o contexto da letra pode dela se apropriar para descrever o quão intruso é o problema, decorrente de queimadas simultâneas.
Grande parte é de cana-de-açúcar, na região. Outras são pontuais, conseqüência do fogo ateado em terrenos baldios, cujo transtorno se limita às casas próximas, avalia o major José Guerxis de Aguiar, comandante do Corpo de Bombeiros de Bauru. Somadas, multiplicam insatisfações e trabalho à corporação, que já recebe entre dez e 15 chamadas de incêndio em mato por dia.
Para evitá-las, a população dispõe de apenas uma arma: educação, diz o comandante. “É possível conseguir grandes resultados com pequenas atitudes. Se ninguém colocasse fogo em mato e vez ou outra acontecesse algum acidente, não haveria tantos problemas”, afirma. Por compartilharem de opinião semelhante, moradores próximos a uma universidade de Bauru teriam se sentido até coniventes com a incômoda fuligem com a qual conviveram.
Perceberam que a vegetação das imediações foi capinada, mas não recolhida. Como ninguém teria tomado uma rápida providência diante da situação, alguém vislumbrou no fogo uma saída. “Só depois caiu a ficha. Poderíamos de ter feito alguma coisa, quem sabe até um mutirão para recolher”, explica a técnica de administração Marcia Maria Pestana Mota, imbuída de sentimento cívico.
Quando o problema já estava consumado, lhe restou correr para fechar portas e janelas.
A fuligem piora a qualidade do ar, que já não está boa em virtude da baixa umidade, típica desta época do ano. Por sua vez, a falta de chuva facilita a ocorrência de queimadas. Quem as estimula está sujeito a sanções, informa Guerxis. Mas eventuais prejuízos e dificuldades envolvem até mesmo setores que nada tem haver com a origem do problema, como é o caso de restaurantes. “É horrível. Dá impressão de desleixo, como se não tivéssemos limpado, sendo que não fizemos outra coisa desde cedo”, comenta Alzira Borges, proprietária de um deles.
Segundo ela, a fuligem mancha as toalhas brancas e, quando molhada com gotas d’água das garrafas de refrigerante gelado, por exemplo, provoca uma sujeira preta no chão de aspecto muito ruim. “Todos os anos nesta época é uma angústia, mas parece que está pior”, conclui.
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Frente fria
Uma frente fria deve chegar a São Paulo na próxima quinta-feira. Segundo o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), ela deve vir acompanhada de chuva. Como a data não é tão próxima, a precipitação não pode ser confirmada, explica a meteorologista Rita Cerqueira.
No entanto, mesmo que ela não venha, a umidade do ar vai melhorar, informa. A temperatura também deve ficar mais amena. O quanto deve cair, ainda é cedo dizer. Mas não deve ser muito, conclui. Ontem, a mínima foi de 21 graus e a umidade do ar chegou a 31%. A partir dos 30%, o estado já é de atenção, segundo o Centro de Pesquisas Meteorológicas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
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Multa requer identificação
Queimadas em terrenos baldios no perímetro urbano são proibidas em Bauru, segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma). Por meio da assessoria de imprensa da prefeitura, o órgão cita a lei municipal número 4.318. Ela prevê multa de 25 mil Unidades Fiscais de Referência, com acréscimo de 50% em caso de reincidência. Cada unidade vale atualmente R$ 1,0641.
A queimada também é proibida em nível federal, pela lei de crimes ambientais (número 9.605). Neste caso, até prisão é prevista, dependendo da gravidade do ato. Ainda segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, o Decreto Federal 3179/99 também prevê punições. Ela pode variar de advertência à multa mínima de R$ 1 mil. Mas a aplicação das leis é dificultada por ser condicionada à identificação do autor da ação, o que geralmente não é possível, acrescenta o órgão de comunicação.
Autuações também são feitas pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), assim que técnicos confirmam queimadas irregulares de cana. No entanto, de acordo com o gerente da companhia Alcides Tadeu Braga, a medida ainda não foi necessária nesta safra, cuja situação é melhor em relação ao mesmo período de 2007. “No ano passado, já tínhamos autuações”, relembra.
De acordo com ele, o órgão continua dando prioridade a fiscalizações a partir de queixas dessa natureza.