Houve um casamento, em Caná da Galiléia, e a mãe de Jesus estava lá. Jesus e seus discípulos também foram convidados para esse casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais Vinho!” Jesus respondeu: “Mulher, ainda não chegou a minha hora”. Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Este parágrafo foi extraído do livro de São João, capítulo 2,1-5 e traduz integralmente o início dos milagres de Jesus Cristo. Posteriormente, ele pede aos discípulos para encherem seis talhas (potes) de água até a boca e, a partir daí, realiza seu primeiro milagre, em Caná, sendo questionado pelo mordomo: “Todos servem primeiro o vinho bom e quando já estão embriagados servem o de qualidade inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora!!” (Jo 2-10). Essa história bíblica foi a motivação de um pequeno grupo de pessoas que iniciaram, perseveraram e ousaram em um sonho que hoje se torna realidade.
Nessa passagem bíblica, Maria, a mãe de Jesus, teve um discreto e eficaz papel e, com sua palavra, leva seu filho ao primeiro milagre, e ainda resolve um problema para os noivos. Assim fez um discreto grupo de pessoas, que valorizavam a partilha e acolhida, e juntas resolveram ousar em sua missão de vida, deixando discretamente seu conforto diário para se dedicar ao outro. Escolheram o Ferradura Mirim, no ano de 1982.
Era um trabalho “embaixo de árvores”, à sombra, e as pessoas eram tudo de bom que o bairro possuía. A violência não existia aí, nessa época. Era um trabalho simples, de se colocar junto, perto do outro, para dizer como viver é importante, uma catequese para lembrar a todos que os desafios e as dificuldades fazem parte do crescimento da vida. O tempo passou, a comunidade cresceu, a árvore foi cortada e esse grupo conseguiu um galpão, onde improvisaram tudo, até uma cozinha. Passaram, então, a se reunir todos os sábados e, além dos trabalhos educativos, passaram também a contar com um reforço alimentar: as crianças almoçavam antes de ir embora. Uma vez por semana, 250 crianças recebiam um abraço desses voluntários, muitos sorrisos e muita informação. Tudo muito pouco, para os que têm muito, mas muito para eles que não tinham quase nada.
Em 1995, esse grupo de pessoas fundou a Associação Comunitária Caná, uma associação que visou dar um rosto jurídico às doações que eram solicitadas. Foi o início do “enchei as talhas...” Jo 2-7. Esse ano foi o período em que a comunidade do Ferradura Mirim mais cresceu, assim como suas necessidades: as crianças passaram a necessitar de um apoio escolar; muitos adultos, de alfabetização. O mundo começou a exigir a inclusão digital, melhor capacitação profissional e diversos programas de desenvolvimento pessoal e profissional. Como atender a tantas necessidades, sem uma estrutura física, sem pessoal com formação adequada para esse fim? Iniciou-se a busca incessante para obtenção de fundos para a realização de um grande projeto que pudesse atender a todos.
Em resposta ao apelo de Maria em Caná, que disse: “Fazei tudo o que Ele vos disser” e também atendendo as necessidades dessa comunidade, com uma alegria contagiante, a comunidade do Ferradura Mirim ganha, a partir de hoje, com sua inauguração oficial, em um terreno de 4.355 m2, uma área construída de 2.417 m2, com 9 salas de aula e multiuso, sala de informática, biblioteca, refeitório, capela, quadra poliesportiva e cozinha toda equipada, onde a improvisação deixou espaço para o profissionalismo. Uma estrutura digna para um bom desenvolvimento pessoal e profissional, em um bairro carente de todas as necessidades básicas para o ser humano. O sonho passa a ser o Projeto - CANÁ, que é fruto de um trabalho ousado, perseverante e empreendedor e que, certamente, promoverá um salto de qualidade em formação, sem precedentes para a história da Comunidade do Ferradura Mirim, com atendimento integral de segunda a sábado. “As talhas foram enchidas até aborda...” Para a transformação dessa água em vinho bom, é necessário o apoio de toda comunidade bauruense. Essa transformação não pode ser mais um sonho de poucos.
Parabéns a todos os envolvidos na história e no Projeto - Caná. Sonho que se sonha só, é um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade. (autor desconhecido).
A autora, Irma R. De Souza, é bacharel em Comunicação Social - habilitação em Relações Públicas/Unesp-Bauru, com pós-graduação em Gestão Estratégia Marketing - USC - Bauru