Doze pediatras da Maternidade Santa Izabel, por meio de documento encaminhado a vários órgãos públicos, denunciam que a entidade está em crise estrutural e de funcionários. Segundo eles, a situação se aproxima do caos e pode, inclusive, futuramente, culminar com o encerramento do serviço prestado, caso o problema não seja revertido.
A informação, no entanto, é refutada pela Associação Hospitalar de Bauru (AHB), administradora da maternidade. Para a AHB, trata-se de pressão por parte dos médicos que não aceitaram o reajuste salarial proposto.
“Como faltam pediatras no Brasil todo, eles ficam numa situação vantajosa. Nós estamos correndo atrás de outros médicos e deveremos firmar convênio com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu para suprir essa lacuna”, informa o superintendente da associação, Reinaldo Rocha.
A iniciativa da AHB é entendida pelos pediatras como retaliação pelas denúncias. De acordo com informações apuradas pelo JC, sempre que os supostos problemas são mencionados, a administração ameaçaria passar a gestão para outra entidade, como fundações da própria Unesp. Neste caso, os médicos correriam o risco de perder o emprego.
Ocorre que hoje uma equipe de diretores da Unesp de Botucatu virá a Bauru conhecer a maternidade. A idéia é firmar convênio com a Faculdade de Medicina para que médicos residentes trabalhem mais especificamente na unidade de terapia intensiva (UTI) neonatal. Segundo Rocha, justamente a visita dos diretores teria provocado o vazamento das críticas ao Jornal da Cidade, que teve acesso ao documento.
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De acordo com o texto redigido pelos pediatras, os monitores utilizados na UTI neonatal - responsáveis pelo controle de saturação de oxigênio, pressão arterial, freqüência cardíaca e respiratória, por exemplo - não são mais adequados e não fornecem os parâmetros necessários aos profissionais. A AHB reconhece a necessidade da substituição, mas garante que os equipamentos não impedem o atendimento adequado.
“A AHB tem recursos solicitados para que isso seja corrigido. Nós fizemos uma nova UTI no Hospital de Base (HB). Agora é a UTI da maternidade”, explica o superintendente da associação.
Enquanto isso, os ventiladores da unidade seguem sem manutenção, informam os pediatras signatários da denúncia. Eles ainda informam que o serviço laboratorial é realizado no HB e que não são raros os episódios de extravio de amostras e a constante demora na entrega dos resultados de exames.
A alegação também é contestada por Rocha. “Pode até ocorrer extravio, o que é corrigido com o resultado emitido imediatamente. Não demora mais do que o necessário. Inclusive, temos veículo para transportar em caso de emergência”, ressalta. Os serviços de imagem também são alvo de preocupação por parte dos médicos.
Eles explicam por meio do documento que o raio-x só é realizado na maternidade em horário comercial. Em caso de necessidade nos finais de semana e nos plantões noturnos, o jeito é deslocar-se para o HB. Já ultra-som e tomografia são realizados exclusivamente no HB, que está sem ecocardiograma há bastante tempo.
“Sempre foi assim. Não existe, num sistema de saúde como o nosso, um complexo todo centralizado na maternidade. Raio-x funciona 24 horas, só que no Base. Como vamos manter três? Tem ultra-som na maternidade”, diz Rocha. De acordo com ele, o HB está para receber um ecocardiograma, já que o antigo não tem mais conserto.
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Exclusividade na UTI
Dentre as denúncias feitas pelos médicos da Maternidade Santa Izabel está a de que não é raro o médico de plantão da UTI neonatal responder também por setores como Unidade de Cuidados Intermediários (UCI) e Alojamento Conjunto. A medida afronta as diretrizes tanto do Conselho Regional de Medicina (CRM), quanto da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), informam os profissionais.
O problema de fato aconteceu uma vez, confirma o superintendente da AHB, Reinaldo Rocha. No entanto, segundo ele, a UTI sempre é priorizada, em detrimento dos outros setores. “Como tem dificuldade, o lugar que não fica sem ninguém é a UTI”, explica o representante da associação. De acordo com ele, os problemas ocorrem especialmente nos plantões de finais de semana. “Se o grupo está tão preocupado, deveria cobrir sábado e domingo também. De segunda a quinta, a sexta, não tenho problema”, comenta.
Rocha admite que, numa ocasião, o plantonista da UTI do HB foi deslocado para a da maternidade por falta de profissional para atender os recém-nascidos. Um outro médico do corpo clínico foi acionado para substituir o que estava no hospital.
“Isso aconteceu porque um médico do grupo que está reclamando não foi trabalhar. Trouxemos plantonistas de Presidente Prudente, Araçatuba. O que levou a entidade a procurar novos médicos é a dificuldade que tem, aliada às necessidades da maternidade, tendo em vista ser o único hospital que atende o Sistema Único de Saúde (SUS) de Bauru e região. A remuneração do SUS é muito baixa e fica difícil competir no mercado”, frisa Rocha, ao referir-se aos proventos pagos.
Segundo os pediatras da maternidade, o salário deles é o mais baixo da cidade e da região. Somando-se as condições de serviço, que dizem serem ruins, a escassez de profissionais estaria explicada, assim como os plantões descobertos.
“A gente propôs um aumento de salário equiparando às outras UTIs que nós temos aqui e este grupo não aceitou. As outras equipes que ganham isso estão trabalhando. No Base, a UTI pediátrica está funcionando normalmente e não existe a mesma pressão. Uma das opções estudadas é fundir as duas UTIs, aproveitando essa equipe. Essa denúncia aconteceu depois que a associação não concordou com o reajuste salarial”, reitera o superintendente.
Porém, as baixas remunerações resultariam até na contratação de profissionais menos qualificados, segundo o texto elaborado pelos médicos. “O serviço de enfermagem é deficiente no que diz respeito aos enfermeiros e técnicos, quer em número como também em capacitação”, consta em trecho do documento.
Segundo o superintendente da AHB, no entanto, todos os profissionais, inclusive médicos, estão habilitados no ponto de vista documental. “Tecnicamente também tem médico ruim”, conclui.