Tribuna do Leitor

Nós, brasileiros


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Nós, brasileiros, gostamos de empregar o famoso “ jeitinho “ ou a lei do menor esforço em todas as ocasiões possíveis e imagináveis. Mas não nos atemos às conseqüências dessas atitudes ou das suas incoerências. Esquecemo-nos de que na vida, como na física ou química, sei lá, a cada ação corresponde uma ou mais reações. Ainda votamos no candidato “esperto e inteligente“ porque não conseguem provar nada contra ele; e depois esbravejamos contra a corrupção e falta de ética na política, com as notícias dos milhões na Suíça enquanto hospitais públicos estão sucateados etc. Votamos como cordeirinhos enchiqueirados sempre nos mesmos candidatos a vereador e deputados; e depois não entendemos por que os nobres parlamentares se preocupam mais com seu futuro político, com quem vai ser o próximo candidato do partido a governador, do que com os princípios básicos da nossa cidadania. Indignamo-nos com os cabides de emprego que ainda grassam nos órgãos públicos; mas não nos lembramos de que fomos nós quem lhes demos "autonomia" para isso.

Ocupamos espaço nesta tribuna para criticar veemente os radares que fotografam motoristas em excesso de velocidade e os azuizinhos encarregados de multar os transgressores do trânsito; mas ao mesmo tempo protestamos contra a violência no trânsito e cobramos leis mais severas no trânsito para punir os transgressores que nos ameaçam. Esquecemo-nos que um ente querido nosso pode ser a próxima vítima do motorista irresponsável acostumado à impunidade e a dirigir democraticamente a 120 quilômetros horários em áreas urbanas. Nas reuniões de pais e mestres, "enchemos a bola" do filho que teve comportamento censurado pelo professor ou recebeu nota baixa; e depois não entendemos por que o pimpolho não consegue sucesso num vestibular, concurso público ou emprego decente numa empresa privada. Achamos "um mala-sem-alça" o policial militar que nos multa pela falta do cinto de segurança, ou mesmo aquele que somente tenta nos educar sobre seu uso; e depois lastimamos o ente querido com ferimento agravado num acidente de trânsito pela falta do cinto de segurança.

Tratamos mal o agente de saúde que nos visita para alertar sobre os perigos da água empoçada e lixo acumulado no quintal; e depois achamos que a epidemia de dengue "é culpa exclusiva do governo". Consideramos "papo furado de psicólogo, sociólogo ou outro ólogo" quando tentam nos alertar para os perigos da mediocridade de certos programas de televisão e da má influência que exercem na formação dos mais jovens; e depois não entendemos por que nosso filho começou a imitar o tresloucado roqueiro, a fumar ou beber em tenra idade. Gostamos de cuidar dos nossos interesses pessoais em primeiro lugar; e depois nos indignamos quando o agente público a quem delegamos o poder faz o mesmo. Atiramos latas de refrigerante e copos descartáveis em qualquer lugar, afinal, estamos pagando, então "podemos detonar"; depois achamos que as galerias pluviais entupidas são culpa exclusiva do governo municipal. Ostentando camisetas de ocasião, fazemos abaixo-assinados, passeatas, panelaços, carreatas e buzinaços como protestos contra a violência, corrupção ou crime organizado; mas posamos orgulhosamente para a fotografia frequentando lugares suspeitos de lavagem de dinheiro.

Sidnei Rodrigues

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