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O que se aprende com a dor?


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Nós nunca aceitamos a dor como nosso estado “natural”; nós a identificamos como uma experiência deprimente e inaceitável. Fazemos de tudo para nos aliviarmos da dor, pois ela nos faz reféns, quebra a nossa vontade, limita nossa atividade e nosso discernimento a ponto de ficarmos quase desamparados. Ela nos impede de pensar com clareza e de encontrar ajuda. É uma experiência solitária e romper o domínio da dor é uma coisa difícil de conseguirmos sozinhos. O sofredor se encontra numa classe particular e sua dor lhe dá a prerrogativa e o direito de se colocar diante do Criador, de questioná-Lo, de desafiá-Lo e de crescer por intermédio deste processo. Isto porque, não importa quanta dor se possa sentir, a alma se mantém intacta e dinâmica, sempre pronta a fortalecer essa comunicação.

Quem sofre talvez seja tentado, em algum momento, a entregar-se ao sofrimento, a desistir de seu entusiasmo pela vida. Dor e sofrimento, no entanto, são oportunidades de desafiar a maneira com que encaramos a vida. Quando se encara a vida como sendo limitada ao aqui e agora, ao imediatismo de uma existência física, se amedronta por qualquer coisa que agrida esta existência. Entretanto, quando se toma consciência de um espectro mais amplo, de uma realidade espiritual além da física, a dor é apenas um componente que nos leva a reconsiderar o sentido da existência.

É importante ver a dor como uma prova que nos permite avaliar o quão monopolizado estamos pelo conforto material em oposição ao crescimento espiritual. É preciso lembrar que a dor é uma oportunidade de crescimento – uma chance de rever nossa conduta, uma chance de parar e examinar a vida em busca da origem de tamanha dor. Libertar a si mesmo do sofrimento começa por intermédio da ação – afastar-se e desviar sua atenção da situação dolorosa, afastar-se da causa que gerou tais sintomas, para que se possa iniciar um processo de cura.

Começar a afastar-se da dor exige um forte empurrão amigo e a ação pode ser tão simples quanto procurar atendimento médico ou especializado e seguir as orientações prescritas; nas horas vagas, ler um livro, envolver-se em um projeto, tomar aulas de alguma coisa – enfim algo que ajude a alterar aquela perspectiva solitária e míope de si próprio e do mundo. Há muito tempo, contaram-me que um menino de quatro anos de idade contraiu pólio e, desde então, teve que usar aparelhos ortopédicos e caminhar com muletas. Mesmo assim tornou-se um grande violinista, um virtuose. Certa vez subiu ao palco, sentou-se, removeu as muletas, colocou o violino sob o queixo e começou a afinar o instrumento quando, com um ruído estridente, uma das cordas se rompeu. A audiência esperava que ele pedisse outra corda, mas em vez disso, ele fez um sinal ao maestro para começar e executou o concerto usando três cordas. Ao final, depois de ovacionado, foi inquirido pelo maestro para que explicasse a razão de não ter substituído a corda e ele respondeu: “nossa tarefa é fazer a melhor música possível com o que nos resta”. Suas palavras foram além da ruptura de uma corda de violino. Falaram de sua paralisia e de todas as rupturas da vida. A felicidade não é a ausência de sofrimento, mas a capacidade de assumir as mazelas que a vida nos impõe e resgatar das regiões mais obscuras da alma uma música, que às vezes, mesmo “incompleta”, pode estar entre as mais belas sinfonias.

Todos nós gostaríamos de conhecer nosso destino, principalmente para evitar a dor que o erro causa. Um desses erros – e dos maiores – é não agir em momentos difíceis por medo de errar. O poder reside na virtude de decidir e agir, porque a vida é progresso, é evolução, é desafio. Cada ação, cada desafio vencido, abre novas perspectivas de vida. Mas, quando a decisão é não agir, a evolução fica parada e, assim, permanecemos existindo abaixo de nossas possibilidades.

Certa vez, duas rãzinhas saíram para um passeio. Percorreram os prados saltitando alegremente. De repente, depois de um salto, caíram em um balde cheio de leite, esquecido pelo vaqueiro perto do estábulo. A única coisa que podiam fazer era nadar para não se afogarem no leite. O tempo passava e o cansaço aumentava. Uma delas desistiu e morreu afogada. A outra apesar de toda dor causada pelo esforço, continuou nadando. De repente, algo surpreendente aconteceu: sob suas patinhas, percebeu algo com consistência mais firme que o leite. Reuniu suas últimas forças, apoiou-se naquela massa e saltou para fora do balde. De tanto movimentar suas patinhas, o leite se transformou na manteiga que lhe deu condições de saltar e ela foi capaz de transformar uma situação terrível em uma libertação. Portanto, nos momentos mais difíceis, a única coisa que não podemos perder é a esperança. Só é preciso cuidar dos pensamentos, pois eles se tornam palavras; cuidar das palavras, pois elas se tornam ações; cuidar das ações porque, com o tempo, passam a ser hábitos; cuidar dos hábitos, pois eles estruturam a personalidade e cuidar da personalidade, já que é ela quem cria o destino.

Quando se aprende com a própria ignorância, deixa-se de ser ignorante; quando se aprende com a escuridão, ilumina-se; quando se aprende com a dor, ela desaparece.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular de engenharia mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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