As comemorações pela conquista da Copa do Mundo de futebol pelo Brasil em 1958, na Suécia, trouxeram de volta algumas recordações interessantes do clima vivido pelos brasileiros naquele final de década, quando mal se virava a página do trágico final da “Era Vargas” e não se imaginava que aqueles anos seriam reverenciados pelas gerações futuras como a gloriosa “Era JK”. Há 50 anos Nelson Rodrigues, o genial escritor e jornalista, vaticinava que finalmente o brasileiro iria se libertar do “complexo de vira-lata” que o fazia acreditar que “nada pode dar certo porque somos um país de incompetentes”... Até mesmo no futebol, pois tendo os melhores jogadores do mundo, fracassáramos em todas as Copas. A sensacional (e inesperada!) vitória na Suécia, coincidindo com um período de rápido crescimento econômico no final do governo JK, ajudou a recuperar a autoestima e a confiança dos brasileiros na capacidade de construir um país melhor.
De tempos a tempos, contudo, assistimos a tentativas razoavelmente bem orquestradas (na academia e na mídia) de convencer a sociedade que “mesmo quando as coisas estão melhorando, vamos terminar mal”. Como agora, o enorme esforço para demonstrar que o Brasil está perdendo as condições de sustentar o robusto crescimento de sua economia porque não teremos competência para enfrentar as pressões inflacionárias externas. Isso num momento em que apenas as taxas de inflação do Brasil e do Canadá - dentre os países que adotaram o sistema de metas - são as únicas que não ultrapassaram os limites de tolerância previstos , suportando nos últimos meses as fortes tensões de aumento de preços que estão desestabilizando a economia mundial.
A repetição do “não pode dar certo” porque não temos competência para crescer sem desestabilizar , que o governo não vai conseguir deter a alta dos preços, é claramente uma orquestração de natureza política para ofuscar os bons resultados da economia nos últimos três anos, em matéria de crescimento , melhoria do emprego e da redução das desigualdades de renda. Trata-se de fazer renascer o “complexo de vira-lata” nesse período pré-eleitoral para neutralizar os índices de popularidade do presidente Lula que são claramente vitaminados por aqueles resultados. A única forma de atingir esse objetivo é assustar a população com a idéia que se a inflação atingir 6% em 2008, teremos de volta a hiperinflação , inevitavelmente... É algo ridículo, mas faz parte da crença que sempre é possível cooptar uma parte da mídia para provocar uma elevação das expectativas da inflação, repetindo à cada hora que o custo de vida não vai parar de subir.
Os últimos movimentos do presidente Lula mostram que ele está super atento a esta ofensiva e determinado a utilizar os instrumentos de política monetária para mostrar que o combate a inflação continua sendo a prioridade das prioridades de seu governo. Mas que isso não é incompatível com as iniciativas para sustentar o crescimento econômico, como procurou demonstrar esta semana com o lançamento dos generosos programas de investimentos na agroindústria e na agricultura familiar para ampliar significativamente a produção de alimentos.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e.mail: delfimnetto@terra.com.br