A Rede Globo tem divulgado, com freqüência, durante sua programação, o site ‘Memória Globo’, que traz entrevistas, imagens de arquivos, biografias de artistas e jornalistas, além de textos sobre momentos marcantes da emissora e do país nas últimas quatro décadas. O mais curioso do novo site é o item ‘polêmicas histórias’, entre elas, é claro, a edição do debate entre Collor e Lula, que foi ao ar no Jornal Nacional e teria influenciado na vitória de Collor para a Presidência da Republica nas eleições de 1989.
Cinco homens dos bastidores do jornalismo da emissora na época estão no site explicando o que aconteceu, ou teria acontecido, na redação da Globo naquele dia. O curioso é que cada um deles, embora já com (respeitosos) cabelos brancos, dá uma versão diferente, mostrando que até hoje ninguém, nem mesmo a Globo, sabe por que ou por quem o debate foi editado. Como informa o site, a emissora já havia publicado um compacto do debate no Jornal Hoje, mas outra versão, a mais polêmica, foi feita e levada ao ar no Jornal Nacional.
Armando Nogueira, então diretor da Central Globo de Jornalismo(CGJ), afirma no site que o episódio foi uma deslealdade de funcionários de sua confiança. “Eu tinha um diretor chamado Alberico de Souza Cruz (então Diretor de Telejornais de Rede da CGJ) que, a minha revelia, juntamente com um editor chamado Ronald de Carvalho, eles deformaram a edição que nós tínhamos exibido no Jornal Hoje, versão aprovada pelo João Roberto Marinho, que telefonou para Alice Maria, e disse que tinha gostado muito da edição. Eu disse que era pra reproduzir (no Jornal Nacional) a edição que publicamos no Hoje, ela passou essa orientação ao Alberico, eu reforcei pro Alberico que, à minha revelia, mandou fazer alterações das quais eu só tomei conhecimento no ar. Então eu estava diante de um caso típico de deslealdade, de traição profissional, traição funcional”.
Já segundo Alberico as ordens foram outras: “O Ronald me ligou e disse que tinha recebido instruções da Alice Maria transmitindo determinações do João Roberto Marinho e do doutor Roberto de que a edição do Hoje foi manipulada a favor do Lula, então o João Roberto passou a instrução que era pra fazer uma coisa direita, que não era para ser favorável ao Lula ou ao Collor, aí eu disse que não ia cuidar desse assunto”.
O editor de política da CGJ em 1989, Ronald de Carvalho, assume a responsabilidade pelo compacto que foi ao ar no Jornal Nacional, mas afirma que apenas obedeceu a ordens de seus superiores. “O compacto do debate já estava editado, feito pelo Wianey Pinheiro, eu percebo que o compacto estava descompensado, havia um empate, o Wianey pegou os melhores momentos do Collor e os melhores momentos do Lula ..... mas naquele momento cabia mostrar a realidade, que não estava mostrada naquele compacto. O jornal Hoje ainda estava no ar quando recebo um telefonema da Alice Maria. Ela disse: ‘Olha, Ronald, refaz o compacto do debate. Eu não quero no Jornal Nacional o mesmo debate do jornal Hoje, estava muito equilibrado. Faz outra edição’. (…) Eu, desde o primeiro momento, sempre tenho dito e repito: o único responsável pela edição do debate fui eu. Não recebi instrução de ninguém.”
A mesma Alice Maria, que ligou pro Alberico dizendo que a edição deveria ser refeita, deu outra ordem para Wianey Pinheiro, que era editor regional da Globo em São Paulo. “Me ligou primeiro a Alice Maria e disse que tinha orientação para eu repetir o compacto do debate que foi ao ar no Jornal Hoje”. Pinheiro não sabe até hoje por que a ordem não foi respeitada. “Um fenômeno que, talvez algum dia se saiba, é o que aconteceu entre 13h30 e 19h30 daquele dia”, afirma Pinheiro.
Alice Maria, que é tão citada, não esta entre os depoimentos que o ‘Memória Globo’ disponibilizou acerca do debate das eleições de 89, mas no livro ‘Jornal Nacional’ (Jorge Zahar Editor), ela comentou o caso, a versão por ela apresentada não vai de acordo com a de Ronald Carvalho.
“O Armando Nogueira me ligou, dizendo que a edição (do Hoje) estava correta, que o João Roberto Marinho tinha falado com ele e que deveríamos repetir a mesma matéria no Jornal Nacional. Telefonei imediatamente para o Pinheirinho e falei do telefonema do Armando”, afirma Alice Maria.
Minha avó diria: “Que feio! Homens de barba caluniando feito crianças que, mentem para não assumir a culpa de ter quebrado o vidro da janela com a bola de futebol”.
Visitem o site ‘Memória Globo’ (www.memoriaglobo.com.br) e ouçam o que cada um deles têm a dizer, quem sabe você não encontra o culpado.
*Collor renunciou a presidência dois anos depois de assumir o cargo, prestes a perder o mandado. Atualmente ele é senador da República pelo Estado de Alagoas.
*Lula perdeu outras duas eleições. Atualmente é presidente da República, pela segunda vez consecutiva.
Juliano Dip