São 21h de terça-feira, véspera de feriado. Em busca de um pouco de diversão, grupos de jovens se espalham entre os inúmeros barzinhos de Bauru. Poucas horas depois, outros tantos iriam lotar uma das maiores casas noturnas da cidade.
Na quarta-feira, Dia da Revolução Constitucionalista, ninguém trabalha ou vai para a escola. É hora de comemorar a madrugada. Tanto nas rodas de conversa das choperias quanto na balada, a maioria dos clientes segura nas mãos um copo com algum tipo de bebida alcoólica. Mas com a nova Lei Seca, como é que fica a volta para casa?
“A gente vai de carro, né? Eu sou bem resistente à bebida e dirijo muito bem. Se for o caso, a gente dá um tempo depois da balada e espera melhorar (o estado de embriaguez) até conseguir dirigir”, tenta explicar a enfermeira Ana Carolina, 26 anos.
Sob a condição de não fornecer o sobrenome à reportagem, ela se mostra bastante sincera sobre seu procedimento e o de suas amigas na hora de ir embora das festas. “A verdade é que não tem ninguém que não bebe na nossa turma. E não vai ser essa lei que vai mudar isso de uma hora para outra”, diz.
A nova lei federal 11.705, a que se refere Ana Carolina, entrou em vigor no dia 20 de junho e alterou o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), proibindo o consumo de qualquer quantidade de bebida alcoólica por condutores de veículos. Antes, era permitida a ingestão de até 6 decigramas de álcool por litro de sangue, o equivalente a seis copos pequenos (do tipo americano) de cerveja.
Pelas novas regras, quem for pego dirigindo com 2 decigramas de álcool por litro de sangue ou mais, além da multa de R$ 955,00, irá perder a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) por um ano. Se o exame de sangue apontar concentração igual ou superior a 6 decigramas, o motorista poderá ser preso e terá de pagar fiança para ser libertado.
Estratégias
Para escapar de tão rígidas regras, o público jovem, à sua forma, tem criado subterfúgios para driblar a fiscalização da polícia. Sentado em uma mesa rodeada de amigos em uma choperia na avenida Nuno de Assis, o mecânico de autos Marcelo, 32 anos, revela que as mensagens eletrônicas transmitidas por telefone celular nunca foram tão úteis como agora.
“No final de semana passado, meus camaradas mandaram torpedos avisando que tinha blitz em frente a um posto (de combustíveis) que eu costumo ir, então nem apareci por lá”, observa ele, que não quis informar o sobrenome. Uma outra estratégia, segundo conta o amigo Reinaldo Adilson dos Santos, 34 anos, é voltar para casa transitando pelas ruas pouco movimentadas dos bairros residenciais, onde parece ser mais improvável haver comandos policiais.
“Eu bebo moderadamente, sei o que estou fazendo. Não vai ser um copo de cerveja que vai tirar a minha capacidade de dirigir”, justifica-se, dizendo que, quando passa da conta, prefere recorrer à carona de um amigo.
Optar por serviços de um taxista ou mototaxista, aliás, parece ser uma opção descartada pela maioria dos baladeiros em função do alto custo que envolve, mesmo para aqueles que pertencem à classe média alta da cidade. Do outro lado da cidade, em um barzinho bastante requisitado da avenida Getúlio Vargas, entre um gole e outro de chope o empresário Fernando Poli, 29 anos, afirma que pretende continuar dirigindo sempre que beber até a quantidade de álcool que considera ser o seu limite.
“Se eu precisar, posso pagar para me levarem de volta para casa. Infelizmente, com a precariedade do sistema de transporte público que a gente tem hoje, principalmente no período noturno, só vai poder sair de casa e beber sossegado quem tiver dinheiro. É uma lei extremamente elitista”, dispara, acrescentando ainda que as novas regras poderão incentivar as pessoas a substituir o álcool por outros tipos de drogas.
“O cara que cheirar um quilo de cocaína, fumar um quilo de maconha, tomar um ácido e der três picos na veia vai estar sóbrio, segundo o teste do bafômetro. Por isso, acredito que essa lei pode gerar um problema social muito maior do que as pessoas imaginam”, salienta.
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Piloto da vez
A poucas mesas de distância, no mesmo bar da avenida Getúlio Vargas, um grupo de cinco amigos se diverte em uma animada conversa. Mas um detalhe chamou a atenção da reportagem.
Um deles, o dentista Marcel Devides, 30 anos, está consumindo apenas água. Questionado, ele conta que foi escolhido o ‘piloto da vez’ em um sorteio realizado na semana passada, quando a polícia passou a realizar blitze nas principais vias da cidade.
“A cada dia que a gente sai, um de nós fica sem beber para poder dirigir e levar os demais para casa. Esse é o nosso acordo”, resume o dentista. Os amigos se dizem favoráveis à nova lei de “tolerância zero” e comprometidos a participar do revezamento na direção do automóvel, para que todos possam se divertir em segurança – e sem correr o risco de provocar encrencas com a polícia.
“Quando se trata de proteger vidas humanas, a lei tem de ser rígida, sim. Se houver redução no número de acidentes de trânsito, mesmo que seja pouco, já estará valendo a pena”, destaca, ao lado de Devides, a professora Andréa Pinheiro, 36 anos.