O prefeito Tuga Angerami realizou ontem uma reflexão, em entrevista, que expõe os gargalos da administração municipal e questões que ainda terão de ser enfrentadas dentro da máquina pública. Do ponto de vista político, o chefe do Executivo fez uma espécie de auto-avaliação sobre a opção que tomou diante da expectativa gerada junto ao eleitorado que o levou ao Palácio das Cerejeiras. Tuga diz que compreende a frustração dos que não foram atendidos e que tem consciência da escolha que fez. “Queimei meu patrimônio eleitoral em troca de uma gestão de sacrifícios”, afirmou.
Em uma avaliação sobre os rumos da cidade e o cálculo que os erros e acertos do governo produzirão sobre o processo de sua sucessão, Angerami argumenta que a “conta vinda dos erros” não é de nenhum de seus colaboradores, rejeitando a tese que certamente virá de adversários na tentativa de colar os prejuízos em Clemente Rezende e Rodrigo Agostinho, o primeiro aliado do tucano Caio Coube e o segundo com a petista Estela Almagro na disputa eleitoral. Leia os principais pontos da entrevista concedida ontem, no gabinete do prefeito:
Jornal da Cidade – A remoção de favelas e de pessoas em áreas de risco virá pelo Fundo Municipal de Habitação Municipal e será transferida para a CDHU. O que a cidade deve fazer em sua visão com a Cohab, que não constrói e só gerencia carteira de mutuário?
Tuga Angerami – A Cohab enfrenta o desafio de se tornar adimplente junto ao sistema financeiro habitacional, o FGTS em especial. As receitas eram insuficientes para poder fazer os repasses no nível do compromisso que tem com o FGTS. O trabalho de saneamento foi feito e tinha de ser feito. Se fecha, o passivo vem 94% para o acionista majoritário, que é a prefeitura. E paga como? Administra essa dívida como? O papel do Gasparini Júnior não foi simpático à comunidade, teve de cobrar inadimplentes, renegociar e de cumprir as decisões judiciais de retomar imóveis e recomercializar. Falta ainda o esforço de acertar o encontro de contas com o órgão federal e acertar o seguro. O esforço é para a Cohab resolver isso, para que o próximo prefeito busque parcerias com a CDHU ou mesmo o acesso a recursos no governo federal.
JC – Sua gestão vai abrir licitação para utilizar os recursos que já devem entrar no fundo de infra-estrutura pela venda de terrenos?
Tuga – O primeiro terreno menor que recebeu na licitação oferta de R$ 200 mil o Jurídico vai posicionar se convoca o segundo colocado, ou abre nova licitação, sem contar a sanção que tem de ser aplicada ao vencedor da licitação que não depositou o valor. Os dois terrenos do Jardim Panorama, na Nações Unidas, que receberam oferta de cerca de R$ 2 milhões foram adjudicados e aguardamos o depósito da primeira de três parcelas até sexta-feira. Há licitação em curso para usar esses recursos em pavimentação na periferia ainda este ano. Mas se não der, não tem problema, o dinheiro está garantido para que o próximo prefeito possa utilizar em asfalto, fica no fundo. O terceiro terreno da Nações, ao lado da OAB, vamos abrir outra licitação para tentar vende-lo. Os lotes menores do Jardim Celina não vamos mais insistir em tentar vender.
JC – O projeto do Plano Diretor aprovado anteontem na Câmara cria o Instituto de Planejamento, compromisso de sua campanha. Ele altera o papel atual da Seplan, que não tem fôlego para produzir projetos de obras?
Tuga – Continuo achando que o Instituto é uma boa proposta. A prefeitura não tem condições de atender à demanda por projetos e tivemos dificuldades nesta área. A idéia é muito boa, está na lei, mas acho que não há tempo para implementar nesta gestão. O Instituto é para pensar a cidade, para pensar macro, e a Seplan fica para cuidar do cotidiano de aprovar projetos, plantas, regularização de áreas, fiscalização.
JC – Se política fosse como religião, o prefeito diria que o estado é laico. Mas as pessoas desejam saber qual é sua visão pessoal de quem reúne melhores condições de assumir o “barco”?
Tuga –No dia da eleição eu assumo o compromisso de dizer qual foi meu voto. Geralmente eu voto entre 10 horas e 11 da manhã no Ernesto Monte. Saio da votação e digo o meu voto.
JC – Mas o senhor tem seu histórico político, tem a política na veia, tem o patrimônio político exposto pela gestão e tem o Rodrigo em uma candidatura e o Clemente em outro grupo. Qual deles, em seus grupos, é melhor para Bauru?
Tuga – Esta é a maior prova de que eu não ia interferir no processo e não o fiz. De um lado tem o Rodrigo Agostinho, que foi secretário, trabalhou muito e bem, enfrentou dificuldades na Semma e não vinha reclamar, pôs a mão na massa. Tenho admiração e carinho por ele. Do outro lado tem o Clemente, junto com o Caio. O Clemente teve capacidade em solucionar um problema para várias gerações, o plano para o tratamento de esgoto. Ele é meu amigo, parceiro há muito tempo, fizemos política juntos há mais de 20 anos. Essa questão é o mesmo que perguntar seu eu fiz uma boa opção política.
JC – O senhor fez uma boa opção política?
Tuga – Acho que a opção política pressupõe um grupo de referências, eu tinha, e pressupõe a disposição por um projeto pessoal. Bobagem dizer que é só projeto de partido. Eu já via a tendência do Rodrigo sair por uma via e o Clemente por outra. Eu não forcei, não cobrei nada de ninguém e não misturei as coisas. O Clemente tomou sua decisão e tem direito a isso, assim como o Rodrigo. Tem um momento que é você com você mesmo que decide.
JC – A cidade tem seis alternativas. Qual é a melhor via para a atual situação da Prefeitura? Como vê a candidatura da Rosa junto ao espólio político do Izzo?
Tuga – A candidatura da Rosa é legalmente legítima. O eleitorado é quem vai tomar essa decisão. Eu já disse que têm boas alternativas e tinha o Garmes, que tomou decisão de não disputar, mas um ótimo perfil. É muito natural que eu centre meu comentário em cima das candidaturas do Rodrigo com a Estela e do Caio com o Clemente. Para mim é espontâneo isso e me sinto a vontade para comentar.
JC – E como fica a conta da participação deles no governo?
Tuga – O Rodrigo e o Clemente foram colaboradores do governo e não tem de jeito nenhum que ficar com o ônus das decisões difíceis porque essas decisões foram minhas. A conta dos erros da própria administração é minha. Isso não é deles, é meu. As críticas, os erros, eu sempre chamei para mim, porque eles tiveram seus papéis específicos, em suas áreas, e foram muito bem no que fizeram. Não tem nada de transferir a eles conta alguma da gestão. Os secretários se desdobraram, todos eles, com o pouco que tinham nas mãos. AS decisões tomadas são minhas. Eu sou o prefeito. A conta é minha.
JC – Mas o produto dessa conta final da gestão será discutido na eleição em outubro? O prefeito assume isso?
Tuga – O período eleitoral vai ser importante para levar as pessoas a avaliarem para a origem de problemas crônicos, do que não foi resolvido ou foi gerado. Queimei meu patrimônio eleitoral em troca de uma gestão de sacrifício. Dei minha parte e digo isso com tranqüilidade. Queimei meu patrimônio eleitoral. Sei disso. Contribui com um bocado da minha saúde. Mas entendi o papel que tinha de fazer e não me arrependo. Tomei decisões antipáticas, que não ganham votos e não dão dividendos. Acertei contas, dívidas, ao invés de atender ao pedido de asfalto. E compreendo a frustração do eleitor que esperava de mim que fosse atendido. Ele produziu essa expectativa em cima do meu primeiro governo e é legítimo. Mas tinha de pagar dívida, alguém tinha de fazer e eu assumo a responsabilidade de ter feito. É antipático. E eu fiz. E o próximo prefeito terá de pagar. Porque nós pagamos, mesmo com sacrifícios. Dá para pagar. O eleitorado saberá ver a origem da conta para não repetir erros. A cidade se sacrificou. Tem uma hora que tinha de parar com o que foi feito. E eu parei.
JC – O prefeito assimila a crítica pela opção que fez?
Tuga- Compreendo. Eu fui prefeito em outra época, em outra circunstância, em regime de inflação galopante. E com as transferências de receitas foi possível fazer, dar respostas. Hoje tem de fazer provisionamento para 13º salário e precatório, senão não paga. Compreendo o eleitor que esperava a repetição nessa gestão da época em que a remuneração pelo dinheiro era alta, embora artificial. E o Poder Público se beneficiou disso na época. A frustração dessa expectativa agora justifica a reação. Tem setores que têm a compreensão dessa opção que o governo fez. Mas querer que todos compreendam é difícil. E onde realizamos tivemos uma boa assessoria de comunicação, com um jornalista ético, competente, o Ronaldo. Mas eu não podia investir em marketing institucional para divulgar. Estava acertando dívidas, como iria investir em publicidade?
JC – Como é possível pensar em um aporte que possa pagar uma conta adicional de mais de R$ 400 milhões ao longo do tempo para a Funprev em função do cálculo deficitário na capitalização das aposentadorias e pensões?
Tuga - Regularizamos a dívida de R$ 80 milhões acumulada do passado e teve gente que achou loucura. Mas tem de pagar, e nós estamos pagando. Mas eu quero sentar com os vereadores para discutir uma proposta que tem de ser enviada ao Ministério da Previdência para corrigir o desequilíbrio previdenciário de anos atrás. Não há como fugir do aporte para a Funprev. Tem de enfrentar esse problema. Ou faz agora, com aporte menor, ou a Funprev consome todo o seu capital e a prefeitura é quem terá de ficar com toda essa conta daqui a algum tempo. Aí é muito pior e a prefeitura responde pela conta de um buraco negro de 11 anos. Vamos ter de mandar uma proposta de acerto para Brasília, com aporte periódico. É claro que terá de ser valor suportável e de longo prazo, mas não tem como evitar isso. Isso ocorreu porque no início dos anos 90 houve a decisão da prefeitura de sair do regime geral da previdência, unificou no estatuto, e tiveram a idéia de ficar com previdência própria, um equívoco de misturar vínculo trabalhista com previdenciário. O pior é que parou de contribuir para o regime geral e não se criou o regime próprio nesses anos. Essa é a conta que tem de enfrentar para longo prazo.