Política

‘Carente’, eleitor quer ser ouvido

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

O candidato entra na feira livre e logo é reconhecido pelas pessoas (embora não pareça, já estamos em época de eleições). Uma senhora chega e praticamente ordena: “Você precisa dar uma passada no posto de saúde do meu bairro, numa segunda-feira. Aquilo lá está uma vergonha”. Mais adiante, um senhor de idade se aproxima e diz: “Você tem de ir na minha rua, qualquer hora dessas, para ver como ela está abandonada”.

Haja paciência para ouvir tantas queixas - algo natural em uma cidade como Bauru, em que a história política recente foi marcada por administrações de competência questionada e pela carência extrema de recursos para o setor público.

Em tempo de campanha eleitoral (bastante morna ainda, é fato), candidato põe os pés para fora de casa e logo recebe cobrança. São queixas referentes ao mau atendimento oferecido pelas unidades de saúde e à falta de vagas em creches; reclamações por buracos nas ruas e pela ausência de pavimentação nos bairros da periferia; lamentações ocasionadas pelo atraso na coleta de lixo e pelo excesso de mato nas calçadas e nos terrenos baldios.

Há um forte clima de insatisfação no ar. Foi isso que constatou a reportagem, nas duas últimas semanas, quando teve a oportunidade de acompanhar três dos candidatos a prefeito de Bauru - Rosa Izzo (PDT), Caio Coube (PSDB) e Rodrigo Agostinho (PMDB) - no corpo-a-corpo com os eleitores.

Por mais que um ou outro bauruense se mostre animado com este ou com aquele candidato, sempre fica um resquício de desconfiança (do tipo “já vi este filme antes”), como se as pessoas soubessem, com antecedência, que o problema é grande demais para ser resolvido por um homem só.

“A coisa tá feia! A coisa tá brava!”, gritava, entre um pregão e outro, o vendedor de laranjas Jorge Antônio Frederico, na feira livre do Jardim Redentor. “A verdade é que Bauru está abandonada. Se você der um pulo no meu bairro, a Vila Industrial 1, vai ficar assustado com a quantidade de buracos e de mato nas ruas. A cidade está precisando mudar urgentemente, mas, para ser sincero, não sei se outra pessoa que entrar na prefeitura será capaz de resolver todos esses problemas”, diz.

Queixas e lamúrias não são as únicas palavras que os eleitores têm para dirigir aos políticos em campanha. A reportagem constatou que existe, em boa parte dos cidadãos (desde a criança de 8 anos até a senhora de 80), um desejo de estar próximo ao candidato, seja para levar propostas, seja para dizer simplesmente: “Eu e minha família vamos votar em você.”

Nos textos a seguir, o leitor terá a oportunidade de acompanhar com detalhes as reações que os cidadãos comuns demonstraram diante de cada um dos candidatos. Verá, por exemplo, que uma das maiores dificuldades de Rosa Izzo, no presente momento, é fazer com que os eleitores a reconheçam nas ruas.

A ex-primeira dama, que perdeu 48 quilos nos últimos anos (razão pela qual pode passar despercebida para algumas pessoas), também luta para reabilitar a figura do marido, o ex-prefeito Antônio Izzo Filho.

O leitor verá, ainda, como uma garotinha de 8 anos conseguiu roubar a cena de Caio Coube, durante uma visita que o político e empresário fez ao Jardim Ouro Verde, zona oeste da cidade, na última semana. Por fim, poderá conhecer de perto algumas das dezenas de queixas feitas por eleitores ao candidato Rodrigo Agostinho, que já foi secretário municipal do Meio Ambiente e, atualmente, ocupa o cargo de vereador na cidade.

Acompanhe os relatos, a seguir. Acompanhamos três dos seis candidatos a prefeito. Na próxima matéria, enfocaremos os outros três.

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Repaginada

Nas eleições de Bauru, candidato e feira livre parecem ser uma combinação perfeita. Numa quinta-feira, às 7h30, lá fomos nós (o repórter fotográfico Éder Azevedo e eu) rumo à feira da rua Silva Jardim, na Bela Vista, para acompanhar Rosa Izzo (PDT), no trabalho de corpo-a-corpo com os eleitores. Eram pouco mais de 8h20 quando Rosa chegou, acompanhada de Faria Neto, presidente do PDT municipal e candidato a uma vaga na Câmara dos Vereadores, e de alguns assessores.

A experiência acumulada nas campanhas passadas - quando esteve ao lado do marido, Antônio Izzo Filho, nas duas vezes em que ele disputou a prefeitura de Bauru - parecem ter ficado para trás. Talvez por estar há tanto tempo afastada da política, Rosa aparentava um pouco de timidez no trato com os desconhecidos.

Faria Neto, que é radialista, tomou a frente e passou a atuar como cicerone da ex-primeira-dama. “Esta é Rosa Izzo, nossa futura prefeita”, dizia a todo mundo que passava.

Rosa mais ouvia do que falava: um eleitor reclamando que a saúde em Bauru está abandonada; outro se queixando dos buracos nas ruas. Estranhamente, ninguém teve coragem de chegar até Rosa e comentar a respeito dos processos e condenações que Izzo tem na Justiça.

Na última delas, pronunciada no último dia 16, pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ), Izzo foi condenado a cinco anos de prisão, em regime fechado, por extorsão cometida contra os proprietários da Empresa Circular Cidade de Bauru (ECCB), entre 1997 e 1998, período de seu segundo mandato.

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Pequena cidadã

Tarde de quinta-feira. Apesar do dia seco, nuvens escuras se levantam no céu. Estamos na região sudoeste de Bauru para acompanhar Caio Coube (PSDB), em um dia de corpo-a-corpo com os eleitores. Caio quase não pede votos; são os eleitores que vêm até ele para declarar apoio. A primeira parada ocorre próximo a um supermercado. Curiosas, três crianças que estavam no estacionamento da loja se aproximam da comitiva do candidato, que era composta, entre outros, pelos candidatos a vereador Marcelo Borges (PSDB) e Chiara Ranieri (DEM).

O garoto menor (rosto sujo e vestindo roupas rasgadas) se aproxima de Caio, e este lhe estende a mão. “Em quem você vai votar?”, brinca o candidato. “Esse é o Caio Coube?”, pergunta a menina. Tão logo a comitiva aponta na esquina, passa a ser recebida por um coro composto de mulheres e crianças: “É Caio Coube, oba!” Nesse grupo de pessoas, surge alguém que revela um precoce sentido aguçado de cidadania: a pequena Sthepany Vitória Florenço, 8 anos, estudante da 2.ª série do ensino fundamental. “O problema, tio”, diz ela, dirigindo-se a Caio, “é que a minha rua está cheia de terra. Não tem como a gente brincar. Outro dia, o pneu da minha bicicleta acabou furando depois de bater em um buraco.”

Caio sorri, mas não consegue retomar a conversa. Democraticamente, Sthepany resolve levar adiante suas queixas. “E aquela praça lá embaixo, tio! Está toda suja, cheia de mato. As crianças não têm como ir lá, pois é perigoso.”

“Pelo jeito, daqui uns tempos você será vereadora”, brinca Caio. “Quero ser presidente”, diz a menina, que ainda acha tempo para criticar a falta de médicos na unidade de saúde do bairro.

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Gosto de pastel

São 6h30 da manhã e lá vamos nós até a obra de uma escola, na região Sul da cidade, para ver o candidato Rodrigo Agostinho (PMDB) em ação. Acompanhado de sua vice de chapa, Estela Almagro, e do sindicalista Cláudio da Silva Gomes (que concorre a uma vaga no Legislativo), ambos do PT, Rodrigo vai falar para os pedreiros e ajudantes. Está amanhecendo, o sol começa a se levantar.

Prezado leitor, adivinhe onde será nosso próximo compromisso. Uma pista: nesse lugar costuma ter pastel.

Parabéns a quem disse que vamos à feira! Rodrigo e Estela seguem na frente. Tão logo chegamos à feira do Redentor, tento desvendar um mistério que vem afligindo meu espírito: “Por que candidato gosta tanto de ir à feira?”, pergunto a Rodrigo e Estela. “Para comer pastel”, brinca a petista. “A feira é um lugar onde costuma se reunir um grande número de pessoas. Dessa forma, temos condições de ter um contato mais direto com os eleitores”, explica Rodrigo.

“Eu acho que eu já vi esse moço em algum lugar”, diz uma senhora, ao passar por Rodrigo. Ele ri. “Eu já sou meio ‘figurinha tarimbada’ na política de Bauru, por isso fica mais fácil de as pessoas me reconhecerem. Por outro lado, é espantosa a quantidade de gente que ainda não sabe que, dentro de alguns meses, haverá eleições. Alguns dizem: ‘Não, a votação não será agora. Este ano é ano de Olimpíadas’”, afirma o candidato.

Uma mulher chega até a reportagem e pergunta: “Esse é o Agostinho?”. “Sim”, respondo. “Ele é da Semi, Sami, né?”, questiona a mulher. “Era da Semma, mas agora não é mais”, digo. “Ah...”

Nisto, Rodrigo se vira para nosso lado. “Pois não, senhora”. “É que eu queria fazer uma reclamação, mas deixa pra lá”, responde ela. “Não, pode reclamar sim, a gente dá um jeito”, diz Rodrigo.

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