O presidente Lula gabava-se frequentemente de resultados, quase sempre indevidamente associados às ações de seu governo, que nunca antes teriam sido alcançados em governos anteriores. Gabola, nestas ocasiões, não se envergonhava de apropriar-se dos bons resultados da política econômica financeira decorrente do Plano Real e da era FHC, que em momentos de arrogância megalômana rotulava de herança maldita. Seus arroubos eram ainda maiores quando dividia o palanque com a mãe do PAC Dilma “sumida” Rousseff. A platéia transportada e bem alimentada pelos aliados, esperançosos dos benefícios eleitorais que estas obras trariam se elas saíssem do papel, encantava-se com os seus repentes recheados de agressividade e menoscabo com seus eventuais adversários. Os bons ventos da economia mundial prenunciavam um céu de brigadeiro e estimulou companheiros a sonharem com um terceiro mandato. Infelizmente, para ele é claro, os tempos atuais exigem mais do que palavras e discursos vazios e aí reside o perigo. Lula tem errado seguidamente.
Apoiou Chávez na sua mal sucedida intervenção para a libertação dos prisioneiros colombianos em poder das Farcs. Assustou-se com a proximidade das investigações e protagonizou um triste episódio ao intervir pessoalmente no afastamento do delegado Protógenos Queiroz, que conduziu a Operação Satiagraha e desvendou suposto esquema de desvio de recursos públicos, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. No relatório final do inquérito sobre o Opportunity, a Polícia Federal dedica um capítulo inteiro a Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado, ex-deputado federal do PT. Segundo a Polícia Federal, Greenhalgh é “pessoa muito próxima ao secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, e à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff”.
Enquanto isso, o noticiário econômico informa que o Brasil amargou, no primeiro semestre deste ano, o seu pior resultado das contas externas desde o início da série histórica em 1947. De janeiro a junho, o conjunto das transações de comércio, serviços e rendas com o Exterior produziu um déficit de US$ 17,4 bilhões. A remessa de lucros das multinacionais cresceu 93% ( US$ 18,99 bilhões) e o saldo na balança comercial foi 44,8% menor (cerca de US$ 11 bilhões). O professor da FEA-USP Simão David Silber está pessimista com a velocidade da deterioração das contas externas brasileiras. “No curto prazo é financiável, mas tenho dúvidas daqui a dois ou três anos”, afirmou ao jornal O Estado de São Paulo. O presidente Lula, provavelmente aconselhado por sucessores de Duda Mendonça, saiu de cena. Levou com ele sua ministra chefe da Casa Civil. Como sempre acontece nestas ocasiões, nada viu ou ouviu e, o que é pior, nada fala para esclarecer a nação brasileira.
O autor, Milton Flávio, é médico, professor da Unesp e ex-deputado estadual-PSDB