Antes de ser nomeado ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o nikkei Massami Uyeda trabalhou por sete anos em Bauru. Durante esse período, foi professor de direito da Instituição Toledo de Ensino (ITE) e juiz substituto por dois anos. Ele saiu daqui para ser juiz titular em Ibiúna, na região de Sorocaba. Com o tempo foi galgando postos cada vez mais prestigiados até atingir o ápice, até esse momento, como ministro do STJ. A passagem por Bauru, segundo ele, teve importância fundamental.
Ele lembra que no tempo em que era professor da ITE teve de se aprofundar nos estudos para atender as necessidades dos alunos. Segundo ele, essa preocupação abriu novos horizontes em sua vida profissional.
“Foi um período extremamente proveitoso, pois, para ensinar, é necessário preparar as aulas. E este preparo, feito com regularidade, abriu-me novas dimensões, no sentido de que o conhecimento que possuía carecia de mais embasamento, o que me levou a fazer cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado)”, conta ele.
Nesta entrevista concedida ao Jornal da Cidade, Uyeda fala, entre outros assuntos, da infância em sua cidade natal, Lins, da caminhada até ser escolhido ministro do STJ, com aprovação inclusive do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e da homenagem que recebeu do governo japonês por ter sido o primeiro descendente nipônico a ocupar um cargo de ministro de um tribunal superior fora do Japão. Acompanhe!
Jornal da Cidade - De início, gostaria de saber em que cidade o senhor nasceu.
Massami Uyeda - Nasci em Lins, nos tempos áureos, em que a cidade ostentava o título de “maior centro cafeeiro do mundo”.
JC - Seus pais faziam o que na cidade?
Uyeda - Meu pai (Ichiro Uyeda), à época, possuía um estabelecimento comercial que comprava e vendia sacarias para produtos agrícolas como café, arroz, feijão e milho. Minha saudosa mãe (Sizue Uyeda) cuidava das tarefas do lar e ajudava meu pai.
JC - Que lembranças o senhor tem de Lins?
Uyeda - As mais doces e agradáveis. Tenho, felizmente, memória fotográfica e assim, visualizo o jardim defronte a Catedral de Santo Antônio, ainda quando as suas alamedas eram de terra. Havia o coreto e aos domingos, as retretas (canções clássicas e populares interpretadas por bandas marciais, muito comum nas cidades do interior) eram realizadas. Hoje, tudo parece-me feérico (do mundo da fantasia, mágico) e essas imagens que se fixaram nas retinas e na memória de um menino curioso acompanham-me como música de fundo.
JC - Estudou até que série em Lins?
Uyeda - Completei o curso ginasial e o colegial no Colégio Estadual que, à época, era padrão de excelência em ensino. Meus professores e professoras, que até hoje os reverencio, foram mestres abnegados e moldaram a formação dos estudantes, tanto que, quase todos os que prosseguiram seus estudos, ingressaram na medicina da USP, na Politécnica, no ITA e eu, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Em 1961, servi ao Exército Brasileiro no 4º Batalhão de Caçadores de Lins e dei baixa como cabo.
JC - O senhor deixou Lins quando e por quê?
Uyeda - Deixei a cidade em dezembro de 1961, para cursar direito em São Paulo e letras clássicas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP. Como trabalhava à tarde, tranquei a matrícula do curso de letras clássicas após concluir o primeiro ano. Cursei direito dois anos no período matutino e três anos no noturno, porque passei a trabalhar no período integral.
JC - Como nasceu o interesse do senhor pelo direito?
Uyeda - Nasceu da observação de que o direito, como ciência jurídica, é de fundamental relevância na pacificação social. Esta constatação foi conseqüente à observação de ocorrência de flagrante injustiça na imposição de uma penalidade disciplinar a um soldado, meu colega, fato que me levou a defender o injustamente acusado, sob pena de vir a sofrer as conseqüências de tal atitude. Mas, era o sentimento de justiça inato a todo jovem que pulsava mais alto do que a aferição de riscos que pudessem advir. Também, tive um grande estímulo por parte de meus pais que sempre me incentivaram a seguir o caminho estreito da ética e da compreensão humana. E ambos, ressaltavam o valor do estudo como essencial para a realização pessoal.
JC - Antes de ingressar no Ministério Público, o senhor trabalhou em quê?
Uyeda - Comecei a trabalhar quando era adolescente aos 15 anos, ajudando meus pais na quitanda que eles tinham em Lins. Em São Paulo, antes de me formar, trabalhei na Mineração Geral do Brasil Ltda., como secretário pessoal do diretor técnico, o doutor Roberto Jafet. Trabalhei como auxiliar jurídico no Departamento Jurídico da Central Elétrica de Furnas e fui advogado da Kibon.
JC - Antes de ir para São Paulo, o senhor deu aulas na Instituição Toledo de Ensino (ITE) e também foi juiz substituto em Bauru. O que essa passagem por aqui significou para o senhor?
Uyeda - De fato, no período de 1975 a 1982, tive oportunidade de lecionar na Faculdade de Direito de Bauru. Primeiramente como assistente do professor Abel Aparecido Cortez, que era, à época, juiz de direito de Santa Cruz do Rio Pardo, onde eu era promotor. Foi um período extremamente proveitoso, pois, para ensinar, é necessário preparar as aulas. E este preparo, feito com regularidade, abriu-me novas dimensões, no sentido de que o conhecimento que possuía carecia de mais embasamento, o que me levou a fazer cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado). Como juiz substituto, permaneci por cerca de dois anos em Bauru e morei nos Altos da Cidade, à rua Gustavo Maciel.
JC - O que achou da cidade?
Uyeda - Bauru sempre me atraiu, desde a juventude, pois era conhecida como a “cidade sem limites” e, na entrada da cidade, às margens da rodovia Marechal Rondon, havia um posto de gasolina chamado Posto 6 e era referência para todos aqueles que se dirigiam para a Noroeste ou a Alta Paulista. Bauru sempre foi uma cidade aberta e essa característica é refletida em seus habitantes. Não tenho críticas a fazer do período que estive aí, ao contrário, de Bauru e das pessoas que conheci, guardo somente boas recordações. Colecionei inúmeros amigos, nessa época, com os quais mantenho contato. Foi uma época de muita felicidade.
JC - O senhor permaneceu em Bauru até quando?
Uyeda - Fiquei em Bauru, como juiz substituto, de 1978 até o fim de 1979, quando fui promovido a juiz titular da Comarca de Ibiúna (região de Sorocaba).
JC - E depois de Ibiúna?
Uyeda - Após Ibiúna, fui titular em Andradina, Capivari e juiz adjunto em Campinas. Posteriormente, tornei-me juiz auxiliar da Capital e, em seguida, fui promovido a juiz titular da Capital, na 11ª Vara da Fazenda Pública. Atuei como juiz titular da 2ª Vara Cível do Foro de Santo Amaro, juiz substituto de 2º Grau nas áreas de direito privado e direito público do Tribunal de Justiça de São Paulo, juiz do 1º Tribunal de Alçada Civil, juiz do Tribunal de Alçada Criminal e, depois, desembargador, atuando na área criminal.
JC - No início da carreira, o senhor era promotor, mas parece que não gostou muito da experiência. Por que decidiu ser juiz de direito?
Uyeda - Foi com muito orgulho que ingressei na carreira de promotor de Justiça. O ideal de justiça sempre esteve dentro de mim. Sentia-me realizado profissionalmente como promotor. Os promotores prestam um relevante serviço à sociedade na defesa da lei e da ordem. Entretanto, certo dia, em minhas reflexões, veio-me o pensamento de que poderia contribuir ainda mais para a sociedade e também com uma realização profissional como magistrado. Fiz concurso, passei, e hoje vejo que fiz a escolha acertada.
JC - Imagino que a certeza de ter feito a escolha certa veio, em boa parte, quando o senhor foi nomeado ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Além do senhor, isso deve ter deixado toda a família muito orgulhosa.
Uyeda - Não há dúvida que é motivo de muito orgulho e de grande realização profissional para um magistrado vir a ser ministro do STJ, o que é extensivo aos familiares. A concorrência é grande para esse importante cargo. O Superior Tribunal de Justiça tem 33 ministros. Um terço é de desembargadores oriundos dos Tribunais de Justiça; um terço de desembargadores dos Tribunais Regionais Federais e o outro um terço de advogados e de membros do Ministério Público. Quando abriu vaga para os desembargadores dos Tribunais de Justiça, decidi participar do certame juntamente com outros 203 desembargadores. Eram duas vagas para desembargadores estaduais e o STJ escolheu quatro nomes e mandou a lista para o presidente da República. Meu nome estava lá. Para figurar na lista, é necessário ter, no mínimo, 17 votos. O presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) escolheu dois nomes para encaminhar para a sabatina no Senado Federal e meu nome era um deles. Passada a sabatina, o Plenário do Senado, em votação secreta, aprovou os nomes indicados e assim tornei-me ministro do STJ no dia 14 de junho de 2006.
JC - É verdade que o senhor foi homenageado pelo governo japonês por ser o primeiro descendente a ocupar um cargo de ministro em um tribunal superior fora do Japão? Quando foi isso? Que tipo de homenagem o senhor recebeu?
Uyeda - De fato, sou o primeiro descendente de japoneses a ascender ao cargo de ministro de um tribunal superior. Em fevereiro de 2007, tive a honra de viajar ao Japão, a convite do governo japonês e de ser recebido pelo príncipe Akishino-no-miya, irmão do príncipe herdeiro e de visitar a Suprema Corte Japonesa e diversas instituições e algumas cidades, na qualidade de convidado especial. Na ocasião, tivemos oportunidade de debater com a vice-ministra dos Negócios Estrangeiros do Japão, questões relativas aos brasileiros que se encontram trabalhando no Japão. O debate foi muito produtivo e contribuiu para aplainar arestas que estavam surgindo até então, devido à veiculação de notícias equivocadas que manchavam a imagem dos trabalhadores brasileiros no Japão.
JC - O senhor será homenageado também pela Câmara Municipal de Bauru com o título de cidadão bauruense. O que está achando disso?
Uyeda - Com muito orgulho, recebi essa boa notícia em Brasília. Essa homenagem terá grande significado em minha vida. Morei com minha família nessa cidade, aí fui juiz substituto e lecionei, como professor, na Faculdade de Direito. A homenagem será no próximo dia 15, na Câmara dos Vereadores, por iniciativa do nobre vereador Rodrigo Agostinho, a quem sou muito agradecido.
JC - Com relação ao centenário da imigração japonesa no Brasil, qual foi a participação do senhor nas comemorações?
Uyeda - Tive a honra de ter sido nomeado pelo Presidente Lula como membro honorário da Comissão dos Festejos para a comemoração do centenário da imigração japonesa no Brasil. Felizmente, pude participar dos principais eventos a esse respeito, a começar pelo Japão, em abril deste ano, como membro da delegação oficial do Brasil, juntamente com a ministra Dilma Roussef, o ministro Edson Santos e o presidente do Sebrae, Paulo Okamoto. Na ocasião, a delegação brasileira foi recebida pelo imperador Akihito. Participei dos eventos em Brasília, na recepção ao príncipe herdeiro Naruhito no Palácio do Planalto, na embaixada do Japão e no jantar no Palácio do Itamaraty. Em Brasília, por minha iniciativa e com o apoio das prefeituras de Campos do Jordão e de Piedade, foram plantadas mais de 300 mudas de cerejeiras. Tem cerejeiras no Palácio da Alvorada, na Granja do Torto, no STJ, na sede do governo do Distrito Federal e no Parque da Cidade, este com 100 mudas, formando um bosque. No Rio de Janeiro, também por minha iniciativa, o príncipe herdeiro Naruhito, juntamente com o governador Sérgio Cabral, plantou uma cerejeira no Palácio das Laranjeiras. A cerejeira é a árvore-símbolo do Japão e, quando está florida, propicia uma magnífica visão de beleza e esplendor que, para muitos, é uma antevisão do paraíso.
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Perfil
Nome: Massami Uyeda
Idade: 65 anos
Local de nascimento: Lins
Esposa: Emico Uyeda
Filhos: Massami Uyeda Junior e Mariana Uyeda Ogawa
Hobby: Fotografia
Livro de cabeceira: “Musashi”, que narra a história de Miyamoto Musashi, o mais famoso samurai do Japão; e “My Life as an Explorer”, autobiografia de Sven Hedin, explorador norueguês que percorreu a rota da seda no final do século 19
Filme preferido: “Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera” do cineasta coreano Kim Ki-Duk
Estilo musical predileto: Cool jazz, música romântica americana e bossa nova
Time do coração: “Gosto do Noroeste”
Para quem daria nota 10: “Aos homens e mulheres, trabalhadores ou empresários, que ganham a vida com honestidade, dentro de padrões éticos e com respeito ao próximo”
Para quem daria nota 0: Para todos os que desrespeitam a lei e querem levar vantagem praticando os mais variados tipos de atos anti-sociais.