Brasília - Em depoimento à CPI das Escutas Clandestinas da Câmara, o banqueiro Daniel Dantas negou ontem que tenha contratado a empresa Kroll para realizar escutas telefônicas clandestinas com o objetivo de investigar a empresa Telecom Itália - que disputou com o banco Opportunity o controle da Brasil Telecom.
Dantas disse que, ao contrário do que a imprensa “insiste em divulgar’’, não está envolvido em ações de grampos telefônicos.
“Na verdade, eu não contratei a Kroll. A Brasil Telecom contratou a Kroll, que investigou a Telecom Itália. Nesse processo não tem nenhum grampo telefônico. A Brasil Telecom contratou a Kroll pela sua competência internacional. A Kroll foi a mesma empresa que o Congresso contratou para investigar desvios na gestão Collor pelo PC Farias”, afirmou.
Dantas disse que a Brasil Telecom, ao contratar a Kroll, tinha como objetivo descobrir o destino de recursos “desviados’’ da empresa. “Saíram US$ 800 milhões dos cofres da Brasil Telecom, foram para os cofres da Telefonica da Espanha. O objetivo era investigar se esses recursos teriam parado em destinos ilícitos. Até as investigações serem suspendidas, a Kroll não tinha provas de quem teria recebido (os recursos)”, afirmou.
O banqueiro insinuou que a Telecom Itália foi responsável por grampos telefônicos ilegais no país no processo de venda da Brasil Telecom. “Quem fez grampo ilegal, ao que tudo indica, foi a Telecom Itália, que usou infra-estrutura no Brasil. Isso é alvo de investigação na Itália. Vários agentes da Telecom Itália confessaram que pagaram agentes para produzir escutas telefônicas e invasão de correspondências nossa e de pessoas a nós ligadas”, disse o banqueiro.
Dantas afirmou que as denúncias sobre a suposta contratação da Kroll surgiram diante da disposição da Telecom Itália em impedir que o Opportunity adquirisse a Brasil Telecom. “Em 1999, o controle da Telecom Itália foi adquirido por um empresário que queria o controle da Brasil Telecom e iria usar de todos os meios para conseguir. A partir daí, começam as disputas societárias que acabaram envolvendo o governo, o Estado e a imprensa. Uma série de notícias e fatos foram criados para tentar criar dificuldades ao nosso lado, entre eles a acusação de que eu teria contratado a Kroll para investigar a Telecom Itália.”
Dantas disse que o Citibank recomendou a contratação da Kroll, uma vez que o banco era um dos grandes clientes da empresa. O banqueiro afirmou ainda que todas as acusações de seu envolvimento em ações de grampos telefônicos são falsas. “Acho que essas informações tinham o propósito de produzir efeitos contrários ao nosso grupo numa disputa societária que se estendeu por vários anos sob o controle da Brasil Telecom”, afirmou.
Escutas
Dantas e a ex-presidente da Brasil Telecom Carla Cico foram acusados da contratação dos serviços da Kroll Associates para investigar a Telecom Italia, empresa que disputa com o Opportunity o controle da Brasil Telecom.
Devido às denúncias de espionagem, a Polícia Federal começou a investigar a responsabilidade da Kroll e dos executivos da Brasil Telecom em possíveis ações ilegais.
A investigação da Kroll teria atingido funcionários do primeiro escalão do governo, como o ex-ministro Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) e o ex-presidente do Banco do Brasil Cássio Casseb. A Kroll teve acesso a e-mails do ministro antes de ele assumir a pasta. Já Casseb foi monitorado antes e depois de assumir o cargo.
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Ex-presidente da Brasil Telecom é solto
São Paulo - Um mês depois de ser preso pela Operação Satiagraha, o ex-presidente da Brasil Telecom Humberto Braz foi libertado na tarde de ontem. Ele estava detido no presídio de Tremembé, no interior de São Paulo.
Braz é acusado, com mais dois suspeitos - Hugo Chicaroni e Daniel Dantas -, de corrupção ativa por suposta tentativa de subornar um delegado da Polícia Federal para livrar o banqueiro do Opportunity das investigações.
A polícia o soltou depois que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Eros Grau concedeu na noite de anteontem um habeas corpus de soltura. Aliado do banqueiro Daniel Dantas, ele entrou com o habeas corpus na sexta-feira passada contra decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça), que manteve sua prisão preventiva decretada pelo juiz da 6ª Vara Criminal de São Paulo, Fausto De Sanctis.
Segundo os advogados, o acusado apresentou-se espontaneamente à Polícia Federal para cumprimento da ordem de prisão preventiva “o que afasta, à evidência, os requisitos da conveniência da instrução criminal e da aplicação da lei penal”.