Assunção - O ex-bispo católico Fernando Lugo fez juramento, na manhã de ontem, como o novo presidente do Paraguai. Diante de cerca de 15 mil pessoas que acompanhavam o evento na praça do Congresso, Lugo assume o cargo por cinco anos.
A posse de Lugo acontece em um ótimo momento para ele e para o partido. Segundo pesquisa divulgada pelo jornal “ABC Color’’, o ex-bispo conta com apoio de 93% da população que dizem ter uma referência “muito boa’’ do novo presidente.
Com vestuário discreto, que inclui até mesmo sandálias, Lugo jurou “observar e fazer observar a Constituição’’ ante o presidente do Senado, Enrique González Quintana, e o plenário do Congresso.
O agora ex-presidente Nicanor Duarte, pertencente ao Partido Colorado, foi vaiado pelos manifestantes ao abandonar a sede legislativa depois de entregar os atributos presidenciais a González Quintana.
Lugo, 57 anos, recebeu o bastão de comando e a faixa presidencial das mãos de Quintana. Antes da posse oficial, foi tocado o hino nacional em guarani e em espanhol e realizadas 21 salvas de canhão.
O ex-bispo assume a Presidência depois de 61 anos de governos do conservador Partido Colorado.
No mesmo ato, também tomou posse o vice-presidente do país, Federico Franco, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), segunda força eleitoral e suporte da Aliança Patriótica para a Mudança (APC), a coalizão de ampla base ideológica que levou Lugo ao poder.
A cerimônia foi acompanhada também por diversos líderes da América Latina, incluindo o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
Discurso contra a pobreza
O ex-bispo prometeu na sua posse pôr em prática seus ideais socialistas para combater a pobreza e a corrupção.
“Hoje termina um Paraguai exclusivo (dos ricos), um Paraguai segregacionista, um Paraguai com fama de corrupção. Hoje se inicia a história de um Paraguai cujas autoridades serão implacáveis com os ladrões do povo”, disse o novo presidente.
Lugo não costuma usar terno e gravata e habitualmente calça sandálias, uma reminiscência do estado clerical que ele deixou oficialmente há poucas semanas, por decreto do papa Bento XVI, para poder assumir a presidência do país. Ele já havia se desligado do sacerdócio para se dedicar à política.
No pronunciamento que fez na praça do Congresso, diante do olhar dos colegas Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner (Argentina), Lugo pediu aos vizinhos que tenham “objetividade e solidariedade”.
Uma das principais promessas de campanha de Lugo é renegociar o valor que Brasil e Argentina pagam pela energia gerada nas usinas binacionais de Itaipu e Yaciretá, respectivamente.
Apesar do discurso de esquerda, Lugo escolheu um ministério moderado e se mostrou disposto a abrir as estatais ao capital privado, num modelo misto de gestão, além de promover boas relações com os EUA.
A posse dele reuniu os principais dirigentes esquerdistas da região, como Hugo Chávez (Venezuela), Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia). Já os centro-direitistas Álvaro Uribe (Colômbia) e Alan García (Peru) preferiram enviar representantes.
Esquerda
Lugo, tem a formação política ligada à Teologia da Libertação e à luta dos sem-terra. Na véspera da posse, milhares de seguidores foram a um ginásio da capital para ver um discurso em que ele prometeu não elevar o próprio salário.
O boliviano Evo Morales declarou que Lugo é um “irmão” que faz parte das transformações na região.
O venezuelano Chávez permanecerá no Paraguai para, no sábado, firmar tratados bilaterais que resultarão no envio de combustível em condições preferenciais e possivelmente em investimentos da Venezuela para uma refinaria no Paraguai.
“Viemos a uma reunião histórica. A reunião com Lugo é uma reunião com a história”, disse Chávez ao pousar chegar em Assunção, onde agora deve passar a ter uma presença tão constante quanto na Bolívia de Evo Morales. “Não pudemos anteriormente ultrapassar certos limites (no Paraguai), agora estou certo de que vamos fazê-lo”.