A essência que identifica realmente uma pessoa humana vai muito além de seu nome, CPF, RG ou número da conta bancária. Ela se expressa através de seus pensamentos e suas atitudes. O filme “A Concepção”, dirigido por José Eduardo Belmonte, procura esta essência e mostra que os seres humanos vivem na superfície de sua existência.
A história se desenvolve em Brasília e tem seu início com o cotidiano de alguns jovens filhos de diplomatas que moram juntos: Alex, Lino e Liz. Mais exatamente quando estes conhecem X, personagem sem nome e sem história, um alquimista que procura viver somente o momento presente. X propõe a formação de um movimento denominado “A Concepção”, que prega, entre outras coisas, a morte do ego, abolição do dinheiro, o caminho do excesso e o viver de cada dia como se fosse o último.
Os concepcionistas vivem transmutações diárias e momentâneas à procura da total liberdade. Não somente os personagens assumem este estilo de vida, mas o próprio filme “A Concepção” torna-se uma experiência de diversos estilos: o realismo do cinema novo, o cinema marginal, o cinema extremo, o surrealismo, o abstrato. Filme e personagens provocam com coragem o medo do observador atento de viver intensamente sua caminhada pela existência; afinal, a vida é somente uma viagem. O medo e a coragem devem ser entendidos em dois níveis. Ao primeiro podemos dar o nome de nível transacional.
Aqui, tanto o medo como a coragem, se desenvolvem nas diversas relações que temos com os outros seres humanos e com o mundo. Medo e coragem são entendidos como a (in-)disposição para vencer barreiras, para enfrentar novas situações. Neste nível, estas duas forças se revelam essencialmente pessoais. Aqui não há critérios objetivos que definam concretamente o que elas significam. Cabe a cada um identificar o significado do medo e da coragem em sua vida, quais os obstáculos aparentemente intransponíveis e qual a disposição que temos para vencê-los.
Neste nível transacional, a coragem é sempre acompanhada do medo. Os dois nunca se separam. Junto com a coragem devem existir, no mínimo, o conhecimento e a consciência da possibilidade do fracasso, da frustração e da dor. Caso contrário, a coragem acaba se tornando displicência e irresponsabilidade. No chamado nível transacional, a coragem e o medo são sempre flexíveis e se modificam com o passar do tempo, com o amadurecimento da pessoa humana. Um bom remédio contra o medo neste nível é a freqüência. O medo de falar em público acaba desaparecendo se tenho a coragem de repetir, várias vezes, o ato de falar diante de muitas pessoas.
A coragem e o medo, porém, estão presentes também em uma outra dimensão da vida, no nível existencial. Aqui estas duas forças agem no que temos de mais profundo, ou seja, em nossa própria estrutura humana. No nível existencial, tanto a coragem como o medo se tornam verdadeiras posturas diante da vida, influenciam radicalmente o nível transacional e determinam o desenvolvimento de nossa história pessoal. A postura de coragem diante da vida é aqui sinônimo de fé, ou seja, o ser humano é aquele que está existencialmente aberto para o novo. Ele se compreende como viajante do mundo destinado a todos os portos, a todas as terras, a qualquer experiência que a vida possa lhe oferecer.
O ser humano possui a consciência de que a vida, e ele próprio, são marcados por mudanças e transformações e que viver é mergulhar nesta vida sem ter medo do erro, pois como escreve o filósofo Nietzsche, o “erro é covardia”. O ser humano existencialmente corajoso é aquele que sente que, em seu centro, está a força divina que o faz ser criativo e o leva à transcendência. E, apesar de experimentar o medo no nível transacional, consegue vencê-lo e transpor os obstáculos.
Esta postura de coragem nos leva também a aceitar as dores do fracasso e a fazer delas uma experiência para a vida. Esta postura existencial de coragem nasce da consciência de que a existência é somente uma passagem. Por ser assim, tudo na existência passa. Experiências ruins ou boas são passageiras, como também o nosso modo de ser e de pensar. Os dias acabam sendo concepções novas de nossa própria vida através de nossas atitudes.
O ser humano que possui a postura de coragem é uma pessoa essencialmente feliz, pois ele se confronta em profundidade consigo mesmo, aprende a conhecer suas limitações e possui sempre o anseio de voar, e voar alto. Quem possui esta postura de coragem percebeu que a vida é única e nada podemos reter em nossas mãos. Tudo, mas tudo mesmo, flui como areia entre os dedos. “É preciso lançar-se na aventura da vida. Quem quiser guardá-la, há de perdê-la” (Teresa de Ávila).