Diferentemente da atualidade, em que a campanha política ganhou nova dimensão com a produção de TV, a ajuda de equipes de marketing para orientar discursos e a propaganda eleitoral gratuita, no passado pesavam os discursos, o improviso e o carisma do candidato. Aliado a isso, em geral, as pessoas tinham maior interesse em ouvir os políticos.
E foi nessa época que aconteceram comícios históricos e memoráveis. Os candidatos contratavam artistas, mas nada comparado aos showmícios recentes. Geralmente subiam ao palco cantores de música sertaneja da própria cidade.
Em contato com pessoas que participaram ativamente desse período político da história bauruense, a reportagem ouviu histórias interessantes e engraçadas, ainda vivas na memória de quem as relatou.
O pesquisador Irineu Azevedo Bastos lembra três episódios ocorridos há mais de 50 anos. Na década de 50, na eleição para prefeito, dois comícios foram marcados no mesmo dia e na mesma rua (avenida Rodrigues Alves), mas em quadras diferentes. Irineu conta que, em um dos caminhões, estava o presidente da República Getúlio Vargas, que apoiava o candidato a prefeito de Bauru João Simonetti. No outro, o destaque era o governador de São Paulo Adhemar de Barros, que não tinha um nome para apoiar em Bauru. O detalhe é que ambos vieram para o Município no mesmo trem da Noroeste. Nos comícios, optaram por não promover ataques pessoais um contra o outro.
Outra passagem contada pelo pesquisador refere-se a Jânio Quadros. Em 1960, ele veio a Bauru para um comício quando era candidato a presidente. Na cidade, o político quis visitar a ferrovia, mas os funcionários não o receberam porque apoiavam outro candidato. Horas depois, no palco montado na avenida Nações Unidas, Jânio aproveitou para soltar uma de suas frases emblemáticas. Ele disse que era bom que os ferroviários soubessem que não deveriam perseguir ninguém. “Ai daqueles que perseguirem os pequeninos”, disse.
Em relação a políticos locais, Irineu relata a disputa, em 1959, envolvendo o advogado Otavio Pinheiro Brisolla (candidato a prefeito) e o médico e espírita Alpheu Vasconcellos Sampaio (candidato a vice) - naquela época a eleição era separada. Segundo o pesquisador, no comício realizado perto da praça Rui Barbosa, assim que Sampaio começou a falar, os sinos da Igreja Matriz repicaram em protesto à opção religiosa dele.
Em outro episódio, Brisolla recebeu a visita do senador padre Calazans e do deputado federal padre Godinho. No comício, o último resolveu fazer pesadas críticas a Adhemar de Barros. O problema é que, em sua maioria, o público era ligado ao governador. Irineu lembra que Brisolla teve muito trabalho para apaziguar os ânimos.
Conhaque e tiro
O ex-deputado estadual Roberto Purini conta que, antigamente, as pessoas compareciam em peso aos comícios. Em 1976, quando disputou a prefeitura de Bauru, ele participou de um evento na Igreja Santo Antonio, na Bela Vista. Purini lembra que, naquela noite, estava muito emocionado e acabou falando da morte do pai, Giuseppe. Em seguida, pediu que subisse ao palco José Posting, um senhor de idade que sempre colaborava na divulgação de seus comícios. Ali, em meio ao público, o candidato beijou a fronte do admirador.
O ex-deputado diz também que, naquele pleito, seus adversários o chamavam de “professorzinho” e “pé de chinelo”. Respondia que havia freqüentado os mesmos bancos escolares dos colegas, mas que havia retornado ao colégio para lecionar. Sobre a segunda provocação, dizia nos comícios que, no dia da eleição, iria arrancar o chinelo e bater nos políticos que o provocavam. Purini classifica aquela época como romântica e que, às vezes, pela falta de recursos, era preciso empurrar o caminhão no dia do comício.
Presidente municipal do DEM, Dudu Ranieri é outro com histórias para contar. Em 1976, foi candidato a prefeito de Bauru e, para os comícios, utilizava uma carreta de quatro rodas utilizada na zona rural para o transporte de produtos. Chamava-a de trolinho.
Seis anos depois, ele participou de nova campanha. Brinca que, às vezes, o pessoal tomava uma dose de conhaque para relaxar. Mas em um comício na Vila Ipiranga, o candidato a vereador Paulo Telles, já falecido, exagerou na bebida e, em seu discurso, pediu para a garotada cantar “Criança Feliz”. Assim que terminou a canção, com o coro da meninada, encerrou seu pronunciamento.
Em evento no Parque Vista Alegre, o presidente do DEM lembra que outro candidato, Luis Margi, também já falecido, simplemente ficou mudo quando foi chamado a falar. Dudu “não deixou a peteca cair”, pegou o microfone e afirmou que o colega não conseguir proferir uma palavra sequer porque estava emocionado com o que pretendia fazer pelo bairro.
Em 1986, quando concorreu ao cargo de deputado federal, Dudu teve a companhia de artistas de renome nos comícios. Na avenida Rodrigues Alves, compareceu a dupla Tonico e Tinoco. Segundo ele, foram interditadas as duas ruas pelo fato de, naquela época, não haver canteiro central. A outra concentração aconteceu na Praça da Bíblia, com a presença de Chitãozinho & Xororó. Dudu afirma que não pagou pela vinda dos artistas. A conta foi bancada pelo empresário Antonio Ermírio de Moraes, na época candidato a governador.
Na disputa a vice-prefeito, ao lado de Nilson Costa, em 2000, Dudu lembra que o colega tinha como característica falar baixinho e que era ele quem “dava o show”, apresentando os candidatos a vereador e alfinetando os adversários.
O presidente do PDT municipal, Antônio Faria Neto, participou de comícios mais recentes. Em Bauru, sua “estréia” aconteceu em 1992. Lembra que os adversários o criticavam porque tinha vindo da vizinha Avaí e queria espaço na política bauruense.
Segundo ele, naquela época, o número de candidatos era o triplo das cadeiras no Legislativo. Além disso, Bauru contava com 21 vereadores. “Todo mundo queria subir no palco e não cabia”, diz. Ele acrescenta que a briga era intensa também porque as emissoras de televisão registravam imagens dos comícios e exibiam nos noticiários. Faria conta que, às vezes, candidato caía de cima do caminhão, de tanta gente que se espremia para aparecer.
O pedetista comenta dois fatos ocorridos em 1996, quando disputava a prefeitura de Bauru. O primeiro foi uma briga generalizada num comício realizado no Parque Jaraguá, sendo necessária a intervenção da Polícia Militar. Teve informação de que até tiro foi dado na hora da confusão.
Outro caso é a presença de uma dançarina de um conjunto musical que se apresentava nos comícios. Faria lembra que era uma morena de “fazer cair o queixo”. “Acho que as pessoas iam lá só para ver a moça e não para assistir ao comício”, brinca.
O pedetista afirma que, nas campanhas, chegava a dormir de três a quatro horas por noite e, numa ocasião em que fazia um frio daqueles, deu graças a Deus pelo cancelamento de uma reunião na madrugada seguinte na porta de uma fábrica.
Com o rigor da legislação eleitoral, eventos como comícios ficarão apenas na lembrança de quem participou do processo ou os assistiu.