Geral

Relação de vizinhança muda com o tempo e sobrevive em prédios

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

As casas cada vez mais fechadas, a distância geográfica entre parentes e a correria do dia-a-dia são empecilhos que podem dificultar a convivência entre as pessoas. Mas para fugir da monotonia de uma vida solitária, nada melhor do que preservar os laços de amizade entre os vizinhos, que muitas vezes, se transformam em uma verdadeira família. Mesmo em apartamentos, onde não há varandas ou calçadas que permitam o contato freqüente com o morador ao lado, há quem valorize a experiência de cultivar o afeto entre aqueles que estão por perto. É o caso da aposentada Helena Quialheiro de Oliveira, 71 anos, que sempre estabeleceu grandes relações de amizade por onde passou.

Moradora do Higienópolis há 34 anos, recentemente ela se mudou com filho para um prédio residencial no mesmo bairro. Como ele passa grande parte do dia fora de casa, dona Helena encontrou nos vizinhos uma forma de nunca se sentir sozinha.

“Nunca tinha morado em apartamento, mas me adaptei bem. Já conheço muita gente. A gente se cruza nos corredores, nos elevadores, pára e conversa um poquinho”, revela.

Ela, que há mais de 10 anos celebra o Dia do Vizinho, comemorado hoje em todo o Brasil, mais uma vez irá promover uma festa: a primeira junto às novas colegas de condomínio. “Acredito que, com essa festa, a gente vai fortalecer ainda mais essa relação”, comenta.

A comemoração acontece hoje à tarde, no salão de festas do condomínio, e deve contar com a presença maciça dos moradores, que parecem empolgados com a novidade. Café, chá, suco, refrigerante, bolo de fubá, bolinho de chuva, pão caseiro e pão de queijo. “Cada um vai trazer o que puder, mas vamos manter a tradição da Festa do Vizinho, que é utilizar xícara, pires e bule para tomar o chá e o cafezinho”, frisa.

Para toda hora

Junto com a reunião em homenagem a quem vive próximo, os moradores aproveitarão para comemorar o aniversário de Maria Aparecida Martins, 72 anos, a dona Cida, antiga vizinha de dona Helena. “Não moro no prédio, mas sou amiga da dona Helena e não poderia faltar na Festa do Vizinho”, conta, enquanto as moradoras do condomínio cobravam dela um bolo para o ‘parabéns a você’.

“A dona Cida vai ter que trazer um bolo bem grande”, brinca Zuleika Ferraz Gadotti, 72 anos. Vivendo há seis meses no prédio, ela revela que decidiu mudar-se para um apartamento quando ficou viúva. “Não queria mais morar em casa e não me arrependi da decisão. O pessoal aqui é ótimo, muito caloroso. A companhia delas me rejuvenesce, até esqueço que tenho 72 anos”, pondera.

Com a mesma idade e idêntica sensação de acolhimento, outra moradora, Abgail Valderrama Bolsonari, afirma estar passando por um período difícil na vida, em que precisa dedicar todo o seu tempo ao marido doente. No entanto, comemora o fato de ter encontrado nas vizinhas as amigas com quem sempre pode contar.

“As pessoas que moram aqui me dão força. Quando a gente se encontra, sempre bate um papinho. Isso ajuda a distrair um pouco a cabeça”, diz. Ela destaca que não deixará de participar da comemoração de hoje junto às demais moradoras, porque considera um privilégio poder compartilhar de momentos ao lado de quem lhe dedica amizade verdadeira. “Na época em que vivemos, precisamos cultivar e conservar relações como esta. Acredito que a festa só irá ajudar a fortalecer esses laços”, avalia.

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História

O Dia do Vizinho foi criado há mais de 30 anos pela poetisa Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, a Cora Coralina, na cidade de Goiás (GO). A idéia surgiu devido ao apreço que a escritora tinha pelos vizinhos. Após eles insistirem em festejar o seu aniversário, também comemorado hoje, Coralina teria pedido que, em vez de uma festa para ela, celebrassem o Dia do Vizinho. Estava criada a data para homenagear aqueles que transformaram a proximidade da moradia em uma oportunidade de construir grandes amizades.

A poetisa começou a escrever aos 14 anos e teve dezenas de livros publicados. Entre suas obras, se destacam “Estórias da Casa Velha da Ponte”, “Meu Livro de Cordel”, e o livro infantil “Meninos Verdes”. A autora morreu em Goiás, em 1985, aos 96 anos de idade. A nora de Coralina, Nize Garcia Bretas, morou em Bauru por muitos anos e participou da organização de algumas festas do vizinho, no Jardim Higienópolis. Ela mudou-se em 2006 para a cidade de Balneário Camboriú (SC), onde vive até hoje.

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Poesias de Cora Coralina sobre vizinhos

“Quem jamais deixou de ter em algum tempo o seu bom vizinho? Quem na idade adulta deixará de se recordar de um bom vizinho da casa paterna e dos folguedos com os meninos da vizinhança? Quem jamais deixou de se valer de seus préstimos em horas atribuladas? Ou não? Vizinhos de paredes-meias. Vizinhas de esquina. Vizinhos de frente, vizinhos do lado de cá e de lá da rua. Vizinhos de apartamento...”

“O vizinho é sempre pronto, solícito e prestativo. É ele que no silêncio da noite, na tranqüilidade do seu repouso interrompe o seu sono ouvindo um movimento inesperado na casa pegada. Nem espera pelo chamado. Já está de pé, mal ajeitado, calças sobre o pijama. Procura saber o que é preciso. Doença súbita imprevista, mal estar inesperado, e vai bater na casa do médico, na porta da farmácia, chamar uma assistência, acompanhar esse doente no pronto-socorro, o que leva muitas vezes o médico a perguntar: O senhor é parente do doente? Não, doutor, sou apenas o vizinho. Nada mais expressivo para definir o bom vizinho. Que Deus o ponha sempre perto de nós!”

“Vizinhos de apartamento... desconfiados, fechados, inibidos, isolados uns dos outros. Encontros ocasionais nos corredores, cumprimento frio, inaudível, convencional nos elevadores. Alheiamento. Quanta ocasião irrecuperada para um convívio amistoso!!! Cada qual fechado na sua carapaça de gelo, percebendo o melhor da vida que é a boa e fácil convivência mesmo nos encontros rápidos e ocasionais. Por que nos fecharmos tão hermeticamente na nossa rudeza individual se a vida nos põe sempre juntos em encontros freqüentes e cotidianos e se temos tanto para dar de nós e tanto para receber dos outros?...”

(Cora Coralina)

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