Ainda bem que acabou. A Olimpíada fez os brasileiros sofrerem. Se choro valesse medalhas subiríamos muitas vezes mais ao pódio. Nossas frustrações têm muito a ver com a mídia que ressalta atletas como potenciais ganhadores de medalhas, sem que isto seja verdade. Quem sabe porque esses atletas sejam garotos-propaganda dos anunciantes. A obtenção de um índice olímpico significa apenas que o corredor pode ir para a raia, nem que seja para chegar em último. Ir à final é outra história. Exige-se que o atleta seja o melhor entre os melhores, para ser campeão olímpico. Não basta ser bom. Além de técnica, condicionamento físico e talento é preciso ter o domínio da mente, para não desmoronar diante da pressão.
No fundo as empresas precisam, em seus anúncios, passar a imagem que seus protegidos e patrocinados são ídolos e prováveis vencedores. Patrocinador e patrocinado estariam no mesmo nível de sucesso. O público acaba acreditando que um número acima do razoável pode realmente ganhar medalha. Jade Barbosa, Daiane dos Santos, Jadel Gregório, Fabiane Murer tinham realmente alguma chance de medalha? A verdade não aparecerá, e nem importa.
Saúde e educação, que deveriam ser as prioridades do país vivem capengando. Nem seria lícito falar em massificação do esporte se o essencial ainda está por fazer. Martha e Cristiane, as melhoras jogadoras do mundo, sequer podem jogar no Brasil, onde se contam nos dedos os clubes que mantém futebol feminino. Aqui, as crianças praticam esportes nos clubes, nas várzeas, nas ruas. Quando amadurecem para competir, param de praticar esporte por necessidade de trabalho ou para ingressar na universidade. Nem as mais ricas escolas particulares têm instalações esportivas condignas e técnicos profissionais. Nos Estados Unidos as universidades dão incentivos em forma de bolsa de estudos para aproveitar talentos de quaisquer modalidades que já despontam desde o ensino médio.
A participação brasileira em olimpíada é sempre marcada por heróis esporádicos: Adhemar Ferreira da Silva, João do Pulo, Joaquim Cruz, Ricardo Prado, Djan Madruga, Aurélio Miguel, Gustavo Borges, Roberto Sheidt, Torben Grael, Nelson Pessoa. Acharam a vara da Fabiane, mas o futebol masculino ninguém sabe onde foi parar. Justamente a modalidade mais estruturada e rica. Nos anos 50 Nelson Rodrigues dizia que tínhamos complexo de vira-lata, por isso não ganhávamos. Agora estamos com complexo de poodle.A seleção ficou com o bronze de consolação e Dunga ainda se achou no direito de peitar a mídia. Ninguém exige que o time ganhe sempre, mas que jogue com espírito olímpico. César Cielo obteve medalha de ouro graças ao seu trabalho e sacrifício nos Estados Unidos, onde treinou com técnico americano. Maurren Maggi é uma história de superação, amor próprio e vontade de vencer. Foi suspensa por dois anos por causa de um exame antidoping, perdeu os patrocinadores e até o marido. Teve que recomeçar do zero. Mais por ela mesmo e pela filha, do que pelo país.
O Brasil levou à China a maior delegação da sua história olímpica: 277 atletas e 220 cartolas. Uma delegação de fazer inveja aos países ricos. Só de passagens foram gastos mais de 2 milhões de reais, sem falar na comitiva do AeroLula. Ouro em turismo. Nosso país é candidato a sediar a Olimpíada em 2016. A China levou oito anos para preparar a grande festa do esporte mundial. Produziu uma inesquecível abertura, construiu estádios belíssimos e deixou os Estados Unidos na poeira em número de medalhas de ouro. Se começarmos agora, teremos chance de um brilhareco, quem sabe.
Acabou o espetáculo televisivo das sofridas manhãs de agosto. Agora, a olimpíada é a dos candidatos correndo atrás de votos. Sofrimento ainda maior. Se não tivemos ouro no hipismo, nem no iatismo, nem no ciclismo e outros ismos, pelo menos a boa notícia vem do Supremo Tribunal Federal... o fim do nepotismo. Uma das modalidades que mais nos envergonha. Medalha de Ouro da moralidade para o Brasil, talvez a mais desejada pelo povo.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC