Cerca de quatro décadas após a “Revolução Sexual” do final dos anos 60, sexo permanece sendo uma espécie de tabu nas casas e escolas públicas de Bauru. Pais ainda encontram dificuldades para abordar o assunto, ao passo que as instituições de ensino não contam com projetos pedagógicos sobre o tema capazes de atingir todas as faixas etárias de estudantes.
A frase de um bauruense, pai de dois adolescentes (um rapaz e uma garota) ouvido pela reportagem (ele não quis se identificar) ajuda a dar uma idéia do tipo de discussão desenvolvida pelas famílias a respeito do tema. “Eu falo para minha filha: ‘Cuidado para não engravidar, senão você vai acabar destruindo sua vida’”, diz ele.
O homem admite que quase nunca conversa com o filho a respeito de sexo. “Não precisa. Essa garotada de hoje em dia conhece coisas que a gente nem imagina. Felizmente - ou infelizmente - tem tudo no Google (site de buscas da Internet)”, explica.
Nas escolas públicas, a situação não é menos desalentadora. Em grande parte das vezes, sexo ainda é tratado apenas a partir de seus aspectos biológicos. Fala-se muito a respeito dos órgãos genitais, do aparelho reprodutor e das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), enquanto questões de fundo emocional e afetivo acabam sendo deixadas de lado.
“Sexualidade vai além do orgânico. É um tema que envolve toda a parte biopsicossocial da pessoa”, afirma a psicóloga bauruense Maria Lúcia Biem. “Ainda hoje, os pais se preocupam muito, por exemplo, com o risco de a filha adolescente engravidar, mas não atentam para a forma como ela encara o próprio corpo e os possíveis complexos que ela possa carregar consigo”, diz.
Na opinião dela, o tema deveria ser tratado de maneira efetiva pelas escolas. “Educação sexual não pode se resumir a palestras sobre reprodução humana. É preciso que a questão seja tratada de maneira interdisciplinar sob seus variados aspectos”, pondera Biem.
Atualmente, escolas públicas estaduais e municipais têm a recomendação de desenvolver trabalhos de orientação sexual com seus alunos de maneira transversal, ou seja, o assunto pode ser abordado em diferentes disciplinas - não existe uma matéria específica para tratar da questão.
A Prefeitura de Bauru avalia que esse trabalho esteja de fato sendo desenvolvido nas escolas da cidade. “Temos 78 unidades de ensino (municipais). Seja em projetos ou dentro de cada disciplina, o tema dever ser abordado sempre que possível e necessário”, diz Fernanda Bechara, coordenadora da área de ciências da Secretaria Municipal de Educação.
Em nota, a secretaria informou ainda que “programas e projetos que tratem do assunto também podem ser desenvolvidos pelas unidades escolares dentro da disciplina de ciências”.
O governo de São Paulo, por sua vez, afirma que pretende desenvolver, a partir deste semestre, projeto voltado aos adolescentes da 8.ª série (de 13 e 14 anos), com orientações sob como evitar gravidez. Ano que vem, a Secretaria Estadual de Educação pretende implantar um programa nas escolas que administra visando conscientizar os alunos a respeito da diversidade sexual. A iniciativa também abordará questões como a prevenção a drogas e às DSTs.
Capacitação
Na visão de especialistas, os problemas na forma como as escolas públicas lidam com a educação sexual não se resumem ao fato de os projetos estarem hoje restritos a um grupo relativamente pequeno de alunos (como se o assunto não gerasse dúvidas nas crianças menores, por exemplo).
“Falta preparo para os educadores que irão lidar com esse tema, sem contar que não há materiais didáticos suficientes para que se possa trabalhar a questão de maneira satisfatória em sala de aula”, avalia Maria José Oliveira dos Santos, coordenadora regional do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo em Bauru (Apeoesp-Bauru).
Opinião parecida tem o presidente do Conselho Municipal de Educação, Danilo Da Cas. “É preciso preparar corretamente os profissionais que irão levar tais informações até as crianças e adolescentes. Não se pode improvisar sobre um assunto tão sério como este”, diz.
Os projetos que o governo do Estado pretende desenvolver nas escolas públicas da região incluiriam a compra de material didático referente ao tema. A Secretaria Municipal de Educação, por sua vez, adquiriu seis kits de orientação sexual que serão distribuídos às unidades escolares.
O órgão afirma, também, que mantém um trabalho que disponibiliza orientações pedagógicas e viabiliza palestras sobre o tema nas escolas municipais. Entre as ações desenvolvidas pela prefeitura estão o “I Educaids Bauru”, que tratou a respeito da prevenção ao HIV.
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Embora a mídia costume veicular com freqüência notícias e dados referentes ao tema sexualidade, isso não garante que os jovens utilizarão de maneira adequada as informações que recebem diariamente. Prova disso é o número assustador de adolescentes que ficam engravidam todos os anos. Só nos seis primeiros meses deste ano, foram atendidas 259 garotas grávidas (com idades entre11 e 19 anos) na rede básica de saúde do município.
“É claro que o trabalho da mídia, ao transmitir informações sobre sexo à população, é fundamental. Tudo o que vem a acrescentar é bem vindo. Mas nem sempre esses dados vêm de maneira organizada. É preciso que as famílias, em conjunto com a escola, desenvolvam um trabalho sério de base, no sentido de conscientizar os adolescentes a respeito do assunto. Do contrário, continuaremos assistindo ao crescimento dos números de casos de aids e de gravidezes indesejadas ao redor do mundo”, acredita o ginecologista Sérgio Henrique Antônio, diretor clínico da Maternidade Santa Izabel.