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Problemas da riqueza


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O professor Ricardo Hausmann, ex-ministro da Fazenda da Venezuela e hoje diretor de um Centro de Estudos na Universidade de Harvard, é um economista muito qualificado que é sempre ouvido com especial atenção quando trata dos problemas do aproveitamento dos recursos naturais no processo de desenvolvimento. Em recente palestra no Brasil ele falou da “maldição” que recai sobre países exportadores de recursos minerais e declarou que “é fácil criar miséria a partir do petróleo”, o que é uma realidade.

Muitos países que são ricos em petróleo descuidaram-se de construir ou expandir uma estrutura industrial capaz de fortalecer seus mercados internos, acreditando poderem viver eternamente daquela riqueza, ignorando que ela é finita. As exportações do petróleo acabam determinando a taxa de câmbio, que se torna extremamente valorizada, o que prejudica o desenvolvimento das atividades industriais e demais serviços. Quando a riqueza mineral começa a diminuir ou acaba, o país paga o preço de não ter desenvolvido o seu mercado interno. A Venezuela é um pouco o exemplo disso, como o são países árabes e africanos. A Noruega e a Holanda talvez sejam as grandes exceções.

Devemos ter essas questões em mente no momento em que a sociedade brasileira vai discutir o aproveitamento das novas jazidas de petróleo. Primeiro, precisa extrair o petróleo que está a 200 quilômetros da praia e a 6 mil ou 7 mil metros de profundidade. Temos o domínio da tecnologia para tirá-lo, de forma que este não é o maior problema, nem creio que haja dificuldade para encontrar o melhor modelo que pode ser o de concessão ou de participação, que é uma probabilidade. A questão é que vamos precisar de um montante de recursos que nem o governo nem a Petrobrás dispõem, de forma que será necessário cooptar os capitais nacional e estrangeiro para extrair o petróleo e processá-lo no país, de preferência a exportar a matéria-prima.

O segundo fator é saber como vamos distribuir a nova riqueza, pensando que esta é uma decisão crucial não apenas para a atual geração de brasileiros. Não podemos consumir isso agora e descuidar do futuro: em 2025 teremos provavelmente 240 milhões de habitantes e vamos ter que dar emprego a pelo menos 140 milhões de cidadãos e cidadãs entre 15 e 64 anos. Aqui se coloca a questão se nós seremos capazes de expandir os setores industriais (a começar pela indústria do petróleo) e de serviços de forma a absorver esse enorme contingente de mão de obra com empregos decentes. Usada de forma inteligente, em lugar de “criar miséria do petróleo”, essa nova riqueza permitirá reconstruir a infraestrutura que ajudará a expansão e fortalecimento do mercado interno, a maior integração regional e a melhoria da renda das pessoas.

Finalmente, uma terceira questão, depois de saber como vão ser distribuídos os benefícios à sociedade brasileira como um todo, é a escolha das políticas corretas que vão impedir que o ingresso de novos recursos do exterior se transforme numa supervalorizaçao cambial permanente. Aqui, efetivamente, se situará a decisão crucial que vai nos levar à posição de potência econômica mundial ou se vamos correr o risco de desmontar o parque industrial construído nos últimos 50 anos pela atual geração de brasileiros.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

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