Cultura

Laboratórios de criação

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 5 min

Uma coisa é certa: blogs não atualizados são páginas mortas. Entre as características intrínsecas dessa ferramenta virtual, a necessidade de atualização freqüente é a principal responsável pelos blogs serem considerados berços de futuros escritores.

Para o professor Mauro Souza Ventura, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, escrever em um blog com assiduidade e regularidade pode ser o primeiro, ou um importante passo, na trajetória de um escritor.

“O blog tem uma característica fundamental: a gente precisa escrever. E o exercício textual, que se faz presente e necessário, faz dos blogs uma espécie de laboratório de escrita e criação”, acredita.

Para o professor, o maior desafio do blogueiro é, justamente, conseguir atualizar a sua página. “E para quem escreve, essa prática cotidiana é importantíssima”, completa.

“O blog tem muita essa idéia de ser um diário mesmo. Se não tivermos um texto pronto para postar, vamos tentar escrever, o que acaba sendo uma oficina”, diz o estudante de letras Thiago Augusto Côrrea, 23 anos, responsável, ao lado de mais três amigos, por “alimentar” um blog literário - “Quatro Patacas” - a cada dois dias.

Para Alê Félix, proprietária da editora Gênese, a Internet tem plenas condições de atuar como uma importante mola propulsora para os escritores. “Abrir um blog, aprender a escrever despretensiosamente, interagir com os leitores por meio dos comentários, são todos caminhos para tornar um bom escritor conhecido”, considera.

Félix, que também assina um blog - www.alefe lix.com.br -, é uma das idealizadoras do projeto “Blog de Papel”. Segundo material de divulgação, o livro, lançado em 2005, é uma tentativa de mostrar no papel - como o próprio nome diz - um pouco do que os ilustres desconhecidos estão aprontando na Internet. O resultado foi a reunião de 14 textos de autores que gostam de escrever e 14 ilustrações de artistas que utilizam os blogs como meio de divulgar seus trabalhos.

Para a empresária, o diversificado leque de possibilidades oferecido pelos blogs faz com que os usuários tenham em mãos mais do que um laboratório.

“Você pode publicar de livros a pequenos textos, testar novos formatos. Um blog pode se tornar o seu livro, sua vitrine, seu ponto de venda. Para uma mente criativa e empreendedora, basta navegar e começar a escrever”, acredita.

Alguns defendem, porém, que a “onda” de escritores descobertos pela Internet, como foram João Paulo Cuenca, Clarah Averbuck, Daniel Galera e agora Vanessa Bárbara, está cada vez mais difícil, por conta da grande proliferação dos blogs. Para se ter uma idéia, de acordo com pesquisas divulgadas na própria rede, estima-se que 175 mil novos blogs sejam criados a cada dia no mundo.

“Não só o próprio blog como as outras ferramentas da Internet já provaram que são capazes de mostrar novos talentos que a ‘indústria’ não vê. Mas há poucos autores que conheço que saíram do blog para o livro”, lembra o estudante Corrêa.

Para ele, o processo de criação, muitas vezes diário, e o grande número de leitores que se conquista via web são muito importantes, mas “entre sentar de frente de um PC para escrever um livro e ser publicado por uma editora, vai um longo caminho”, avalia, consciente.

Na Cosac Naify, editora pela qual Vanessa Bárbara lançou “O Livro Amarelo do Terminal”, não existe um mecanismo nem um setor responsável pela caça de novos talentos. Segundo Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Cosac Naify, Vanessa, a dona do “Hortaliça”, uma espécie de franzine publicado na Internet, é o único caso de um escritor descoberto na web existente na editora.

Entretanto, para Machado, os blogs já foram, e ainda são, embora em menor escala, importantes ferramentas para os escritores no mundo atual. “Por conta de duas finalidades: para que os autores divulguem seus trabalhos e, sobretudo, para que eles consigam fazer de sua prática um trabalho conhecido”, finaliza.

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Obra coletiva

Bruno é um adolescente fascinado pela leitura e pela arte de escrever. Em um dia, o jovem tem seu computador portátil roubado e, junto com ele, o livro que começava a escrever. Escrito por Moacyr Scliar, esse é o enredo do primeiro capítulo de uma história a qual o desenvolvimento coube aos internautas, que deram asas à imaginação.

O resultado é o “Livro de Todos”, lançado neste mês, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Ao todo, 173 participantes contribuíram com o enredo, entre pessoas comuns e escritores famosos, como Roberto Shinyashiki e o vencedor do Prêmio Jabuti Menalton Braff.

Nos 30 dias em que o “Livro de Todos” - uma iniciativa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) - esteve no ar para contribuições, mais de 14 mil pessoas visitaram o website. A bienal, que está em sua 20.ª edição, foi realizada entre os dias 14 e 24 de agosto, no pavilhão do Anhembi, em São Paulo.

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Anônimos e ilustres

Por conta de outra característica da Internet - a visibilidade - a rede e suas ferramentas colaborativas não são recursos utilizados apenas pelos anônimos. “Muitos autores já conhecidos também usam os blogs para divulgar seus trabalhos”, aponta o estudante de letras Thiago Augusto Côrrea.

“Escritores já consagrados, muitas vezes, testam na rede seus poemas, ficções... Se funcionarem acabam indo para o livro”, concorda o professor Mauro Souza Ventura.

Entre tantos nomes de escritores já consagrados que fazem também deste suporte um laboratório de criação, Ventura destaca três: o do poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, do Rio Grande do Sul, cuja produção poética pode ser conferida em www.carpinejar.com.br; também do Sul o blog de Paulo Ribeiro, escritor, cronista e jornalista de Caxias do Sul; e o do poeta Chacal.

Em “Vitrola dos Ausentes“ (www.vitroladosausentes.blogspot.com), o leitor pode conhecer um pouco da obra de Paulo Ribeiro e do seu estilo bem peculiar. O autor é mais um exemplo de dono de textos que migrou do mundo virtual para o papel. “As Luas que Fisgam o Peixe”, publicado no ano passado, reúne, em livro, crônicas produzidas e postadas inicialmente no blog de Ribeiro.

Já o poeta Chacal, que despontou nos anos 70 e é um dos mais importantes nomes da produção poética das últimas décadas, a exemplo de Carpinejar e Ribeiro, publica suas produções literárias no blog “Chacalog” (chacalog.zit.net).

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