Comportamentos compulsivos são uma marca registrada da artista plástica bauruense Maria Amélia Nejm de Carvalho. Aos 46 anos e diagnosticada com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e transtorno bipolar, ela já passou por situações de tamanho sofrimento que a levaram a tentar suicídio por duas vezes.
Maria Amélia é uma desenhista primorosa. Mas a impressionante riqueza de detalhes de suas obras transbordam do papel para a sua vida, em forma de perfeccionismo, extrema organização e personalidade altamente crítica.
Tamanha exigência sobre si mesma e sobre o mundo que a cerca acarretaram, ao longo da vida, um sem-número de frustrações e angústias. O resultado: compulsões que se manifestaram nas mais variadas esferas de sua vida.
Maria Amélia tem 1,70 metro e 62 quilos, mas diz que precisa perder cinco. “Eu queria ser a Angelina Jolie. Eu choro muito, porque ela é perfeita e eu não sou”, diz.
Agitada, ela conta que chega a caminhar 12 quilômetros por dia, mas encontra dificuldades em conquistar o “corpo perfeito” em razão da sua compulsão por comida. Outro dia mesmo, diz ter comido seis paezinhos, logo após ter almoçado. “Às vezes, eu até passo mal e nem percebo o motivo. São as outras pessoas que falam. Para mim, eu nunca como muito”, avalia.
Guiada simplesmente pelo impulso consumista, a artista já comprou coisas que eu nunca tiveram serventia. Há 10 anos, quando o pai faleceu e ela recebeu cerca de R$ 12 mil como herança, gastou tudo em roupas e bijuterias. “Eu poderia ter feito outra coisa com esse dinheiro, mas, na época, foi uma coisa excitante e prazerosa”, observa.
Em tratamento há oito anos, Maria Amélia tenta se livrar definitivamente do vício em álcool e medicamentos. Embora não dependa mais de substâncias químicas, os “vícios” comportamentais parecem ainda cercá-la por todos os lados.
“Tenho várias manias. Uma delas é por limpeza e organização, por exemplo”, pontua. Ela relembra que, certo dia, ao arrumar a mesa para um almoço, chegou a medir a distância entre os pratos para que tudo ficasse simétrico.
A doença da artista a afastou da filha de 22 anos, com quem morou até 2006. “Foi uma decisão minha, porque vi que eu estava muito doente e minha influência não estava fazendo bem a ela”. Hoje, os contatos são realizados apenas através do telefone.
Segundo explica a psicóloga Elisabete Kurozawa, não raro, os compulsivos apresentam mais de um comportamento excessivo simultaneamente. As atitudes se intercalam, funcionando como uma válvula de escape para aliviar tensões.
“São todos comportamentos que geram prazeres imediatos mas que, no final das contas, acabam sendo estafantes. Por isso a incidência de casos de depressão e tentativas de suicídio entre os compulsivos. Costumo dizer que compulsão é sinônimo de desistência do controle frente as tentativas, em vão, de dominar aqueles atos repetitivos”, analisa.