“Esse menino vai ser artista”. A “profecia”, proferida há 54 anos por um padre ao olhar um desenho infantil, marca o início da história artística de Adélio Sarro. A pintura que ele tinha em mãos era uma reprodução de uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, feita quando o artista, hoje internacionalmente conhecido, tinha apenas 4 anos.
“Eu sempre desenhava muito, desde pequeno. Minha mãe conta que, um dia, subi em cima de um banquinho e desenhei o Coração de Jesus que estava olhando. Ela mostrou para o padre e ele disse que eu seria artista. Que bom que foi isso mesmo que aconteceu”, contou Sarro, em entrevista realizada na última quarta-feira, no Alameda Quality Center.
A visita deve-se ao lançamento da exposição do artista no local, que poderá ser vista até o final deste mês. A mostra é uma seleção de 17 telas e 12 esculturas, entre os mais de 8 mil quadros e 200 monumentos de Sarro, dos quais mais da metade está fora do Brasil.
De origem humilde, o artista natural de Andradina (SP) iniciou seu trabalho vendendo e expondo quadros na Praça da República. “Quase que toda minha produção eu ia vendendo de lá para estrangeiros. Depois, eu comecei a ir para o Exterior fazer exposições. E durante um bom tempo, levei quase tudo que eu produzia para fora”, recorda sobre sua trajetória.
Seu trabalho anterior foi uma turnê de exposições pela Rússia, de três meses de duração, realizada no final do ano passado. As obras de Sarro ficaram expostas no Museu de Arte Moderna, em Moscou, e no Museu da Academia de Artes, em São Petersburgo.
Com exposições firmadas até 2010, o artista, porém, prefere não falar de planos a longo prazo. “Quando eu comecei, jamais imaginava tirar o pé da minha cidade e, hoje, eu estou no mundo inteiro. Enquanto eu estiver respirando, vou buscar novos caminhos e trabalhar, mas o que vai vir para frente é sempre uma incógnita”, pensa.
Atualmente, aos 58 anos, Sarro acredita ter trilhado sua carreira a partir de um dom. “Acho que todos nós recebemos um dom divino, em todas as áreas. Cabe a cada um pegar o que recebeu e colocar em prática, buscando o seu espaço”, acredita. O conselho ele retira da própria história de vida. “De onde eu vim, eu acho que eu caminhei bastante. Não sou um artista de berço. Eu sempre digo que nasci em baixo de um pé de café e estudei até o 4.º ano primário de roça. Nessas condições, é muito mais difícil buscar esse espaço mas a conquista tem muito mais sabor. E se você conquistou foi por mérito”, defende.
Uma última dica do artista é a dedicação ao aprendizado eterno. “O segredo é buscar novos caminhos, horizontes e estar sempre aprendendo. Quando achar que já é um artista que já sabe tudo, pode jogar fora os pincéis porque você não vai fazer mais nada, vai parar de crescer”, finaliza.
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Estilo
De origem humilde e filho de agricultores, Adélio Sarro tem como tema principal os trabalhadores rurais. Em suas obras, fica nítido como as raízes camponesas têm acompanhado o artista ao longo de sua carreira e são as principais marcas do seu estilo. “Desde que eu comecei a pintar, eu retrato o ser humano no seu dia-a-dia e, principalmente, as pessoas pobres no seu trabalho”, explica.
Em suas pinturas, definidas como figurativas e, atualmente, dentro de uma linha expressionista, Sarro caracteriza o trabalho duro com braços, pernas, mãos e pés com dimensões exageradas, assim como feições muitas vezes carregadas. Mas, no conjunto, na maioria com animais e instrumentos musicais, chega-se a um resultado de efeitos suaves e harmônicos.
De monocromático a “colorista inveterado”, como se define o próprio artista, Sarro tem as diversas fases do seu trabalho caracterizadas por suas tonalidades, bem como pelas expressões faciais mais suaves ou mais duras das personagens que figuram suas telas. “Já tive um período de tons bem pastéis e de quadros quase que monocromáticos. Depois, fui ficando mais ousado, perdendo o medo e buscando a cor”, conta.
Embora seja obsessivo confesso pelo azul, segundo o próprio, o uso das cores é determinado por cada momento vivido pelo artista. “Eu tive um período muito longo azul e tudo que eu via era dessa cor. Mais tarde, comecei a mesclar e os quadros foram ficando bem coloridos e, depois, até demais. Chega em um determinado ponto que aquilo cansa e você começa a voltar a diminuir a intensidade da cor. Atualmente, estou voltando um pouco para o meu azul de novo, porque ele é que não me cansa nunca”, brinca.
Segundo ele, tecnicamente, esses retratos também sofreram modificações com o tempo: começaram por uma linguagem acadêmica e evoluíram até as modernas de hoje. “Daí para frente, não sei o que pode acontecer. Pode chegar até uma abstração, mas isso é o futuro que vai dizer”, avalia.
Quanto às esculturas, que também carregam traços do passado de Sarro, podemos dizer que estão mais próximas desse futuro. Já bem modernas, as esculturas produzidas pelo artista atualmente já caminham para a abstração. “Estou fazendo ensaios de esculturas abstratas em aço, mas ainda é um projeto em que estou começando a trabalhar para um mercado futuro”, adianta.
Entre os materiais utilizados pelo artista, o concreto é o seu preferido. “Uso desde aço, resina, bronze e todo material que der para trabalhar. Mas gosto do concreto porque ele é mais acessível em termos de custo e também me identifico muito com ele, por resgatar minhas origens”, explica Sarro, que teve como primeiro emprego a função de servente de pedreiro. “Acabei usando a minha base na construção civil na escultura, fazendo grandes monumentos. E até hoje não caiu nenhum deles, não”, brinca.
As esculturas monumentais de concreto do artista estão instaladas em cidades como São Caetano do Sul, Embu, Brodowski, Andradina, Santo André, Jardinópolis, Ribeirão Pires, Osasco, Marília e São Bernardo do Campo, entre outras do Estado de São Paulo, e em Kevelar, na Alemanha.
Entre tantas obras, Sarro destaca a “Via Sacra”, composta de 15 painéis de quatro metros, localizada na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida do Norte (SP), além de quatro reliefs de mais de sete metros de altura, feitos dentro das duas capelas da igreja.
Segundo o artista, a viagem de suas esculturas para as ruas, veio da sua necessidade de aproximar a arte das “pessoas simples”. “As pessoas mais humildes acham que a arte é algo distante. Por isso, tirei meus trabalhos das galerias e levei às ruas para que todos pudessem conhecer”, conta.
• Serviço
Exposição de Adélio Sarro no Alameda Quality Center até o dia 30 de setembro. Entrada gratuita. O Alameda fica na rua Luis Levorato 1-55, na altura do quilômetro 335 da rodovia Marechal Rondon. Mais informações: (14) 3321-5000.