Longe do cinema nacional desde o “Cidade de Deus” (2002), quando passou a se dedicar ao cinema estrangeiro - seu último filme é “Ensaio sobre a Cegueira”, que estreou no País na última sexta-feira -, Fernando Meirelles está de volta, mas não para fazer cinema.
Seu projeto atual no Brasil é a minissérie “Som & Fúria”, com estréia prevista para 2009 na Globo. A produção, baseada em uma atração canadense, será protagonizada pelos atores Andréa Beltrão e Felipe Camargo e mostrará os bastidores de uma companhia de teatro que encena William Shakespeare.
A série, que terá 12 capítulos, começou a ser rodada em São Paulo há dois meses. Na semana passada, a reportagem foi a Cotia (Grande SP) - onde ficam os estúdios de Meirelles - e acompanhou as gravações de um dos episódios, que trará ao público, de uma maneira bem-humorada, trechos de “Hamlet”, “Romeu e Julieta”, “Sonho de uma Noite de Verão” e “Macbeth”, obras célebres do dramaturgo inglês.
Embora o elenco conte com Regina Casé, Dan Stulbach, Maria Flor, Débora Falabella e Pedro Paulo Rangel, estavam lá Felipe Camargo, Daniel de Oliveira, Paulo Betti, Chris Couto e Gero Camillo. Mesmo com toda a agitação de uma filmagem (havia cerca de 60 pessoas andando de um lado para o outro, entre atores, figurantes, produtores e diretores), o clima entre eles era de tranqüilidade. O ambiente favorece: a produtora de Meirelles fica em um local que se parece muito com uma chácara.
“Tudo aqui é muito estimulante”, diz Paulo Betti, referindo-se ao local e às pessoas envolvidas com o programa. Deitado sobre a espreguiçadeira de uma sala reservada só para os atores, ele falou de seu personagem. “Dou vida ao Allan, um ator desmotivado, que toma champanhe antes de entrar em cena.”
Na mesma sala, Felipe Camargo comemorava sua oportunidade na minissérie apesar de sofrer com o calor de 32 graus em um figurino basicamente preto. Ele viverá Dante, o amalucado diretor da companhia. “É o melhor personagem da minha vida”, diz, fumando um cigarro de palha.
O último trabalho do ator foi em 2007, na novela “Paixões Proibidas” (Band). “Não acreditei quando recebi o convite. Mas as coisas vêm na hora certa”, diz Camargo, que afirma ter conversado bastante com Meirelles sobre Dante, que, entre outras maluquices, tem mania de colocar objetos na boca quando fica nervoso. Fato que o fez mastigar, dez vezes, um pedaço de papel na boca.
Com calça jeans, tênis e mochila nas costas, Daniel de Oliveira chegou bem depois dos colegas. Cumprimentou a todos com seu sotaque mineiro (ele é de Belo Horizonte) e falou sobre o seu personagem, Jacques, um famoso ator que resolve viver Hamlet nos palcos. “Por ser da TV, as pessoas do teatro têm preconceito”, diz Oliveira.
Citado o tempo todo pela equipe de “Som & Fúria”, Fernando Meirelles não estava em Cotia. Ele assina o projeto com quatro diretores, entre eles Gisele Barroco, que dirigiu “Antônia”.
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‘Ensaio sobre a Cegueira’ está em cartaz no Brasil
A história é de um português, o diretor é brasileiro, os roteiristas, canadenses, os atores vêm do Brasil, do Japão, do México e dos Estados Unidos, e o filme teve cenas rodadas no Uruguai, no Canadá e em São Paulo - em locais como o viaduto do Chá, o Minhocão e a ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira.
“Ensaio sobre a Cegueira” conta o que acontece quando o mundo não consegue enxergar. Dirigido por Fernando Meirelles (de “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”) e baseado no livro homônimo de José Saramago - que ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1998 -, o filme teve pré-estréia em Cannes neste ano e dividiu opiniões.
“Cegueira”, assim como quase toda a obra de Saramago, era considerada “infilmável” por causa do estilo do escritor, com ausência de passado e futuro dos personagens. No filme, nem nomes próprios eles têm.
Tudo começa quando O Primeiro Homem Cego (Yusuke Iseya) perde a visão sem motivo. Com o tempo, todos os que tiveram contato com ele ficam cegos também. Entre eles está o Médico (Mark Ruffalo, de “Zodíaco”). A Mulher do Médico (Julianne Moore), por algum motivo desconhecido, é imune.
Logo, a cegueira vira uma epidemia, e os doentes vão para um sanatório, onde começam a mostrar instintos primitivos. Gael García Bernal vive o Rei da Ala 3 do hospital. Com o tempo, A Mulher dos Óculos Escuros (Alice Braga), o Primeiro Homem Cego, a Mulher do Primeiro Homem Cego (Yoshino Kimura), a Criança (Mitchell Nye) e o Velho da Venda Preta (Danny Glover), ao lado do Médico e de sua mulher, unem-se para resgatar o que lhes resta de dignidade.
“Muita gente acha que a Mulher do Médico é muito passiva, mas, às vezes, aceitamos muita coisa”, disse a simpática atriz Julianne Moore - indicada quatro vezes ao Oscar -, no lançamento do filme no Brasil. Ela aceitou o papel ao saber que seria dirigida por Meirelles. “Eu faria qualquer coisa que ele me pedisse.”
Mas não foi tão obediente assim. “O Fernando só pediu que eu engordasse um pouco, mas eu achei que a personagem tinha de ser loira. Ele disse que não, mas eu apareci loira no primeiro dia”, conta a ruiva. O diretor aceitou depois de ver o resultado.
Meirelles não poupa o público de cenas pesadas, como a de um estupro coletivo que, nas exibições-teste, fez muita gente sair da sala. “Vimos que estávamos pegando pesado e suavizamos”, conta o diretor. Polêmicas à parte, “Ensaio sobre a Cegueira” não decepciona e deixa uma reflexão válida: quem, afinal, consegue enxergar nos dias de hoje?
Os cinemas de Bauru não divulgaram a previsão de estréia do longa na cidade.