Todos devemos ter na vida convicções próprias. Adotar uma posição, uma filosofia, depende de muita leitura, de muita reflexão. Tomar um caminho deverá ser o resultado de uma decisão desapaixonada. Nunca permitir que o inconsciente, o radicalismo, tomem a frente e destronem a razão, a imparcialidade. E isso se aplica ao nosso comportamento como um todo. Devemos pautar-nos em convicções isentas de preconceitos. Quando me afirmo, por exemplo, contrária ao programa de governo, que concede bolsas para o povo, devo justificar minha posição com argumentos sólidos, não com frases sentimentalonas. Isso me faz lembrar uma passagem envolvendo Rute Cardoso e o esposo, em um passeio a um museu da Europa. Ao passar por uma tela, em que um homem estendia a mão para dar um pedaço de pão a um mendigo, FHC comentou com a esposa que aquilo lembrava o programa salário-família. Rute, no seu modo incisivo, e diante de toda a comitiva, retrucou: Não, isso é assistencialismo puro!
Estou com Rute Cardoso. Sinto saudade de seu posicionamento firme, ponderado, judicioso. Por convicções próprias, também sou contra esse assistencialismo que cria parasitas, inertes a espera de um pedaço de pão que lhes mitigue a fome. Gosto muito de Aldous Huxley, aliás, gosto de pessoas inteligentes, que sabem pensar e não temem expor seus pontos de vista, mesmo que possam causar certo frisson. Pois, muito bem, Huxley, em um de seus ensaios, demonstra a diferença entre um bom arranjo político-econômico e um arranjo ruim: o bom arranjo reduz o número de tentações perigosas a que o indivíduo e grupos são expostos, enquanto que os maus arranjos as multiplicam. Se um arranjo político-econômico tenta os indivíduos e grupos envolvidos a se entregar ao servilismo, à obediência irracional, então, é uma instituição indesejável.
É interessante esse Aldous Huxley! Até quando, ele pergunta, um ato parlamentar pode influenciar na bondade, na felicidade, na criatividade das pessoas? Bondade e felicidade, para ele, independem de circunstâncias externas. É fato que uma criança faminta não pode ser feliz e que uma criança vivendo entre criminosos dificilmente se tornará boa. Mas, esses são casos extremos. As grandes massas da população vivem no meio-termo, entre a santidade e a depravação, entre a miséria e a pobreza. Desde que lhes seja permitido viver nesse meio termo, poderão sofrer mudanças no seu destino sem experimentar mudanças equivalentes no vício e na virtude, na miséria e na felicidade. Um governo paternalista pode diminuir a miséria ligada ao desemprego periódico. Infelizmente, a segurança econômica na sociedade industrializada foi alcançada, até agora, à custa da liberdade pessoal.
De novo: é interessante esse Aldous Huxley! Certos tipos de felicidade para ele, e mesmo um determinado tipo de bondade, são frutos do temperamento e da constituição. Há pessoas que nascem sem a semente do egoísmo. Existem alegrias e uma beatitude quase inocentes. Há coisas simples para se relembrar com lágrimas nos olhos, como uma margem relvada, um céu azul de primavera, nuvens brancas nas asas do vento, uma casinha humilde, um pequeno quarto com uma cama quase tosca... detalhes para se relembrar durante anos! Felicidade dessa espécie não pode ser aumentada nem diminuída por um ato parlamentar.
Confesso que Huxley me convenceu, me persuadiu a aceitar seus argumentos e, afinal, se, após muito pensar, ainda estou errada, pelo menos erro em ótima companhia.
A autora, Maria da Glória De Rosa, é professora doutora e colaboradora de Opinião - e-mail: mgderosa@uol.com.br