Aproveitar integralmente o alimento não é somente uma questão de economia doméstica. Ao se utilizar talos, folhas e cascas que a maioria das pessoas costuma jogar fora, se aproveita as partes com maior teor de nutrientes. Cartilha elaborada pelo Departamento de Química e Bioquímica do Instituto de Biociências (IB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu em convênio com o Serviço Social da Indústria (Sesi) mostra que em muitas frutas e legumes, a parte que costuma ir para o lixo é a mais nutritiva.
Trata-se do “Programa Alimente-se Bem - Tabela de composição química das partes não convencionais dos alimentos”, lançada anteontem. O trabalho traz dados sobre o valor nutricional de cascas, folhas, raízes, talos e sementes de mais 19 alimentos utilizados nas receitas do “Programa Alimente-se Bem”, que existe no Sesi desde 1999 e que tem como objetivo evitar o desperdício e incentivar o preparo de refeições econômicas e saudáveis. A relação já contava com 20 alimentos.
De acordo com a nutricionista Márcia Leme, coordenadora do restaurante do Sesi de Bauru, a pesquisa prova que utilizar essas partes menos nobre dos alimentos, além de econômica, é uma prática saudável. “É a comprovação científica que muito dos nutrientes estão em partes não convencionais”, diz. A nutricionista revela que uma porção de 100 gramas de polpa de abacaxi contém 0,81 grama de fibra. Já na mesma quantidade de casca da fruta, são encontrados 3,10 gramas de fibra.
“A quantidade de vitamina C também é maior na casca do que na polpa de abacaxi. Em 100 gramas de casca existem 16,8 miligramas de vitamina C. Na polpa essa quantidade é de 10,4. E o Sesi possui várias receitas nas quais você aproveita exatamente essas partes”, destaca.
Algumas partes já são tiradas dos vegetais nos supermercados. É muito difícil encontrar cenoura com o talo e seus raminhos, por exemplo. E essa parte que é descartada carrega, em 100 gramas, 16,65 miligramas de vitamina C, enquanto a polpa contém 6,24 miligramas. “É muita diferença e as receitas do Sesi são fáceis de fazer. O curso é gratuito e, no final a pessoa tem a opção de adquirir um livro com receitas”, afirma a nutricionista.
A professora do instituto de Biociências da Unesp de Botucatu e coordenadora da pesquisa Giuseppina Pace Pereira Lima lembra que isso não acontece em todas as frutas e legumes, mas ela ressalta que o desperdício é grande. “Em muitos casos, mesmo não tendo tantos nutrientes quanto a polpa, não utilizar cascas e folhas é jogar nutrientes no lixo”, afirma. Para ilustrar o tamanho do desperdício, a professora cita números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “O brasileiro produz 800 gramas de lixo por dia e 60% dele é orgânico. A quantidade de comida produzida por dia e jogada fora poderia alimentar 10 milhões de brasileiros diariamente”, revela.
Mesmo com a divulgação da pesquisa, ela acredita que ainda vai levar tempo até que a população incorpore essas partes dos alimentos às receitas. Vai ser difícil convencer as donas de casa, por exemplo, que o cabelo do milho é uma fonte de vitamina C. Mais difícil ainda é colocar os tais cabelinhos numa receita e deixá-los com cara apetitosa. “É uma coisa cultural. A vida inteira jogamos essas partes fora. Nosso paladar é mais para a polpa dessas frutas e vegetais. Mas se os aproveitarmos em boas receitas, certamente o consumo irá aumentar” pondera.
Lima revela que o próximo passo da pesquisa é aumentar ainda mais a quantidade de alimentos na tabela de composição. Além disso, também se estudará o desperdício de alimentos ricos em antioxidantes, utilizados na fabricação de cosméticos para suavizar sinais de envelhecimento - as famosas ruguinhas.
• Serviço
Informações sobre o programa Alimente-se Bem pelo telefone (14) 3234-7171