Quem disser que sabe para onde está caminhando a crise nos mercados financeiros está simplesmente arriscando um palpite, sem maior responsabilidade. Catorze meses depois de aflorar o escândalo dos subprimes, a reação dos bancos centrais de todo o mundo ainda é de surpresa, diante da extensão da malfeitoria que derrubou instituições centenárias do sistema bancário americano e faz balançar outras na Europa e na Ásia. O agravamento da crise esta semana se deve ao fracasso das tentativas de salvação do Lehman Brothers, que pediu concordata na segunda-feira, entendido pelo mercado como o sinal que as autoridades americanas iriam cessar a concessão de ajuda financeira aos bancos e agências envolvidos nos problemas das hipotecas. O próprio Federal Reserve se reuniu em seguida com os outros cinco maiores bancos centrais do mundo para garantir que a ajuda vai continuar e até se expandir, mas isso não foi suficiente para restabelecer a confiança. Ameaças de novas quebras pipocam à cada instante.
Em meio a notícias contraditórias que aumentam a incerteza e produzem muita confusão, ressurgiu pelas vozes do competente Sr. Paul Volcker e do não menos experiente Secretário do Tesouro Nicholas Brady a idéia de criar uma agência federal, nos moldes da antiga RTC (Resolution Trust Corporation) que funcionou na crise de 1989, como uma espécie de PROER (o original) e foi fundamental para restabelecer a ordem nos mercados. Da mesma forma que naquela ocasião, o governo dos EUA daria o suporte à Agência para absorver os papéis podres que estão nos balanços dos bancos e eliminar assim a principal fonte da instabilidade que está perturbando os mercados financeiros. Até o momento foi a melhor idéia que apareceu como possibilidade de administrar a crise. Não é coisa fácil de emplacar nesse período pré-eleitoral turbulento, mas terá que ser considerada fortemente diante da eventualidade de perda do controle.
O Brasil está melhor preparado do que jamais esteve para enfrentar uma crise dessa natureza mas ela traz dificuldades novas para o nosso desenvolvimento. Implica em que talvez tenhamos que aceitar uma desaceleração no ritmo de nosso crescimento, por força da redução do nível do desenvolvimento global. O prolongamento do nervosismo e da situação de instabilidade nos mercados financeiros deve produzir o efeito de refrear investimentos das empresas. A robustez do nosso crescimento está hoje ligada à expansão do mercado de consumo doméstico, depende muito mais de nossas energias internas do que de fatores externos, mas estes não deixam de influir principalmente quando impõem um clima de cautela nos investimentos globais. Na medida em que esse clima afetar o ânimo de investimento dos nossos empresários, o nível da atividade econômica vai sofrer lá na frente. Mas vamos chegar ao final de 2008 com a economia crescendo 5,5% e ainda mantenho a crença que podemos prosseguir num ritmo entre 4,5% e 5% de expansão do PIB em 2009.
A economia brasileira vai continuar se desenvolvendo porque eliminamos as duas principais ameaças que poderiam frustrar a expansão do PIB. A oferta da energia está garantida (seja do petróleo, da hidroeletricidade e das fontes alternativas proporcionadas pelo agronegócio) e não temos problemas de financiamento no balanço das transações correntes.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento. e-mail contatodelfimnetto@terra.com.br