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Sem a letra ‘A’


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Tornei-me amigo de José Fernandes, morador de Vila Falcão, mediante a convivência intelectual que mantive com seu filho, doutor Edson Fernandes, professor e historiador, quando passamos a trocar publicações. Ele enviava-me as deles e eu, as minhas. O intermediário desse processo foi seu pai, pois o Edson, embora lecione em Bauru também, reside em Lençóis, onde ocupa o cargo de vereador.

Nessas andanças e trocas de idéia com José, um dia lhe propus numa brincadeira, que me indicasse nomes de frutas que não contivessem a letra “a”. Eu sabia de duas ou três. Em encontros casuais com amigos, levantava sempre para eles o problema e outras frutas foram surgindo: pequi, noz, dendê. Um dia entrei na Internet e, num site específico sobre a falta da letra “a”, vi relacionadas mais de duas dezenas de nomes de frutas sem a primeira letra do nosso alfabeto.

Passados alguns dias José ligou para a minha casa num final de tarde e relatou alguns nomes que havia pesquisado: pêssego, figo, kiwi, coco. Nessa conversa, o mais notável foi revelar-me que escrevera há muito tempo, uma poesia com nenhuma palavra recebendo a letra “a”.

Até aí, tudo bem! Acontece que José Fernandes teve recentemente lançado um livro seu, “O poeta e eu”, do qual recebi um exemplar, e na página 20, na poesia “Quem sou?”, abaixo transcrita, uma advertência feita em 15 de janeiro de 1959: “Esta poesia foi escrita sem o emprego da letra “a”:

"Quem sou? Nem sequer sei o meu nome./Serei um rei?Um gênio?/ Quem sou? Serei herói? Serei um louco? Um réu confesso?/ Serei fome? Serei noite?/ Serei Morte que destrói?/ O que espero, o que desejo deste mundo triste?/ Vivo só com meu suplício, com meu tédio./ Só encontro dor e sofrimento, só isso existe./ Corro, procuro, busco, onde o remédio? Venho de longe ou de perto?/ De onde venho?/ Serei um velho? Serei um moço?/ Ou um menino?/ Serei o próprio Cristo que o mundo pôs no lenho?/Olvido tudo sobre o meu destino./ Porque tenho sempre este temor profundo?/ Por tudo o que existe neste mundo./ Do bem, pouco ouvi dizer confesso!/ Se em Deus penso, um conselho peço./ Tire-me do fogo, ó Senhor Supremo!/ Tire-me dos olhos este negro véu. /Somente o inferno é tudo o que temo. Mostre-me n’outro mundo o meu céu"

Pois é, a brincadeira com as letras e as frutas coincidiu no tempo (49 anos depois) e no espaço (do século XX para o XXI), com a poesia de José.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é colaborador de Opinião

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