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A substância da vida


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As eleições estão aí, ganhe este, perca aquele, alegrem-se uns, entristeçam-se outros, a substância da vida permanecerá a mesma. Sempre, faça sol ou faça chuva, haverá uma segunda-feira à espera da rotina nossa de cada dia, com gente se acotovelando nas filas dos ônibus, em busca do pão nosso de cada dia; outros restarão dormindo, até que um despertador histérico grite em seus ouvidos, e mesmo assim se voltarão para o outro lado, que a preguiça é maior, e dormirão o resto da manhã. Haverá sempre nos ninhos um outro passarinho ainda oculto dentro de seu ovinho, até que se rompa a casca e ele, assim novinho em folha, frágil aparição, eleve levemente seus pipios na ciranda acústica dos pássaros, outros.

Haverá sempre uma mágoa restando num peito qualquer, por causa de um nome de homem ou de mulher, mas haverá também quem se contorça de uma dor física, tão dolorida, que tenha a vontade de tirar de si a vida, enquanto uma donzela de azul colhe, nos canteiros, rosas vermelhas, as gotas de orvalho, como pérolas escorrendo límpidas, translúcidas, como a alma dos anjos.

Sempre haverá o desejo de um salário maior, de um grande amor, mas também o medo terrível de uma senhora no SUS, o filho no colo entre a ternura e a febre, aquela ausência de médicos, a lembrança do horário político, das promessas dos candidatos em campanha, não roubassem tanto os cofres públicos, às vezes uma receitinha dada em hora aprazada pudesse tirá-la de tanta angústia.

Haverá sempre violência, assaltos, e a par disso, grandes beijos de amor, sejam no mar de España, ou nas vielas escuras de nossos bairros, que a sede da carne precisa ser saciada.

Haverá sempre aquela falta de grana, de empregos, o estômago pedindo comida, que isso de fome zero é só outdoor. E haverá, por certo, mais e mais velhinhos endividando-se nos bancos, os remédios custando o olho da cara, o desconto em folha de pagamento, que os bancos não perdem nunca.

Haverá sempre um sonho desfeito a cada pôr de sol, mas também haverá nas fábricas aqueles que enxuguem silenciosamente o suor a lhes escorrer do rosto, agradecidos por terem braços e mãos que movimentem roldanas. Haverá sempre nas noites, mesmo no frio inverno, uma lua a inspirar os poetas e meretrizes; e uma ciranda de estrelas a aquecer corpos vadios estendidos por sobre as calçadas.

Haverá sempre os crentes, os místicos a acender velas aos santos e anjos, a elevar aos céus suas orações; mas haverá sempre também os ateus, os incrédulos. As eleições estão aí, ganhe este, perca aquele, alegrem-se uns, entristeçam-se outros, a substância da vida permanecerá a mesma, fluindo sempre, como um rio, alheia a nossas inquietações, indiferente a nossos credos. Apenas é preciso que exista sempre uma esperança qualquer a cada manhã; pelo menos a de que a gente não morra nesse dia.

O autor, Luiz Vitor Martinello, é poeta, escritor e professor

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