Por enquanto, a ciência ainda não consegue provar quais os mecanismos levam algumas pessoas a viver experiências de quase-morte (EQMs). Isso não quer dizer que as explicações científicas atuais estejam erradas, mas sim que esses fenômenos são complexos, subjetivos e têm uma forte carga emocional.
Apesar da dificuldade em encontrar métodos que possam apontar respostas a contento, pesquisadores têm oferecido evidências de que muitos aspectos das EQMs têm natureza fisiológica e psicológica. Eles têm comprovado, por exemplo, que algumas drogas, como a cetamina e PCP (cloridrato de fenciclidina), podem criar sensações nos usuários quase idênticas a muitas EQMs.
Segundo o filósofo Fausi dos Santos, professor da Universidade do Sagrado Coração (USC) e estudioso da escatologia (ciência que trata do destino final da vida e do mundo), o mecanismo por trás de algumas dessas experiências estranhas pode estar no modo como o cérebro processa as informações sensoriais quando está desorientado. Para ele, as drogas ministradas pelos médicos ou as próprias substâncias bioquímicas liberadas pelo organismo do paciente são estimulantes e capazes de produzir alucinações.
“Com isso, as imagens que o paciente percebe como uma experiência real seriam, na realidade, produzidas pelo cérebro, que estaria apenas tentando interpretar informações”, observa. Ele descreve que a sobrecarga de informações enviadas ao córtex visual cerebral poderia criar a imagem de uma luz brilhante que aumenta gradualmente, dando a sensação de movimento através de um túnel.
“Quando o nervo ótico entra em colapso, as células oculares começam a disparar imagens luminosas aleatórias, o que dá uma visão de túnel colorido”, pondera. Do mesmo modo, o senso espacial do cérebro é propenso ao mau funcionamento durante uma experiência de quase-morte.
‘Curto-circuito’
Nesse caso, novamente, os neurônios entram em “curto-circuito” e interpretam informações incorretas sobre onde está o corpo em relação ao espaço ao redor. “O resultado é a sensação de sair do corpo e flutuar. Combinado aos outros efeitos do trauma e privação de oxigênio no cérebro (um sintoma em muitas situações de quase-morte), isso leva à experiência resultante de voar no espaço enquanto se olha para baixo, para o próprio corpo”, analisa o filósofo.
Também a sensação de paz e calma sentida durante as EQMs pode ser um mecanismo orgânico que ajuda o indivíduo a lidar com uma situação de quase-morte, considera Santos. “Quando o corpo entra em colapso, o organismo libera endorfina com o objetivo de suprimir a dor”, afirma.
Obviamente, essas teorias são apenas uma possibilidade de explicação possível para uma EQM. Para muitos estudiosos, esse fenômeno parece oferecer alguma esperança de que a morte não é necessariamente algo a ser temido, nem mesmo o fim da consciência.
No entanto, Santos defende que visões e sensações fora do corpo não são, por si só, suficientes para afirmar ou negar a existência de vida após a morte. “Essa afirmação é, tranqüilamente, passível de questionamento”, pontua.
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EQM e religião
Embora seja considerada mística para muitas pessoas, a experiência de quase-morte (EQM) não é algo sobrenatural nem religioso, explica Málu Balona, professora e pesquisadora do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC). Segundo ela, o fenômeno da saída da consciência depende das crenças de cada indivíduo e da cultura de cada civilização.
“Essas imagens se manifestam de acordo com o sistema de referência do indivíduo. Os relatos de quem vê Jesus Cristo, Buda ou Alá vai depender dos arquétipos. Em todos os casos, a imagem é de uma personalidade altamente equilibrada e positiva”, diz a pesquisadora.
Ela destaca que pouco foi comprovado em relação ao que desencadeia as EQMs e, por isso, não é possível afirmar que o fenômeno tenha origem biológica. “Os pesquisadores crêem que a EQM é desencadeada pelo cérebro a partir do momento em que estamos na iminência da morte. Mas acredito que responsabilizar apenas um órgão seja pequeno demais para abrigar toda essa experiência multidimensional”, diz.
Religiosos ou não, grande parte dos indivíduos que passaram pela EQM relata mudanças comportamentais. Muitos apontam que, após o fenômeno, amadureceram e passaram a dar mais valor às emoções e à vida.
“É um dado curioso. Em 98% dos casos estudados, as pessoas voltam sem medo da morte e com uma grande mudança de valores. Eles passam por uma verdadeira reciclagem”, revela Balona.