Bairros

Casas servem de abrigo a várias gerações

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 4 min

A maioria dos bairros de Bauru possui, entre as centenas de casas feitas a partir da alvenaria, uma, duas ou mais casas feitas de madeira. Até mesmo nos bairros que abrigam construções mais modernas e que se renovam com o passar dos anos, como é o caso dos Jardim Higienópolis e Europa, ainda é possível encontrar esse tipo de moradia.

Nos bairros onde a concentração de casas desse tipo é maior, os moradores, em geral, são pessoas idosas que nasceram e cresceram no local, fizeram suas famílias, criaram seus filhos e hoje assistem seus netos e até bisnetos viverem no mesmo lugar. Em todos os casos, as casas são antigas, construídas há pelo menos 30 anos, e a maior parte pede uma restauração ou a demolição.

Existem ainda exemplos de casas conservadas, que foram pintadas, reformadas e adaptadas para as necessidades dos dias atuais. No Parque Vista Alegre, a residência de Maria Cruz Miani está conservada. Ao longo dos últimos 55 anos, abrigou com segurança a proprietária e seus descendentes. “Meu marido sempre estava fazendo um acerto aqui ou ali, nunca um problema ficava sem solução”, conta a moradora.

De acordo com Miani, a casa é confortável e ela não abre mão de morar no local. “Aqui está a maior parte da minha história, não quero sair daqui porque eu gosto do ambiente que a casa oferece”, explica.

Na Vila Formosa, Maria Ramos Rodrigues mora no local há pelo menos 40 anos. Desconfiada, a moradora pergunta a todo momento se o motivo da visita é a intenção de demolir a casa que herdou dos pais.

Além de Rodrigues, residem no local outros sobrinhos e, apesar da casa aparentar pouca manutenção, a proprietária explica que por dentro está tudo ‘certinho’. “Não tenho nem problema de goteira em época de chuva”, afirma.

Ela conta que não sabe afirmar há quanto tempo a casa foi construída. “Meu pai comprou a casa pronta e isso já faz, com certeza, uns 40 anos”, conta Rodrigues, que tem como vizinhos outras três casas construídas em madeira. Dessas, apenas uma está abandonada ou, pelo menos, desabitada.

Outros bairros onde a concentração de casas feitas a partir da madeira é grande são os jardins Bela Vista, Godoy e Ouro Verde. A região da Vila Independência envolve vários conjuntos populares, loteamentos, vilas e jardins, como as vilas Nipônica, Santista e São Francisco, os jardins Jandira, Noroeste, Central e Eugênia. Esse bairro surgiu pouco antes dos anos 50 e teve colonização feita basicamente por imigrantes japoneses e pessoas que vinham para Bauru para trabalhar na empresas férreas que atuavam na cidade.

Basta uma visita ao local para encontrar edificações antigas de vários modelos que serviram de moradia por muito tempo para essas famílias. Hoje a maioria das residências ainda é habitada, seja por uma parente ou pela própria pessoa que construiu a casa. Na Independência também estão presentes as edificações mistas, que misturam alvenaria e madeira como matéria-prima da residência.

A artesã Aparecida Mathias transformou a casa onde a família viveu por muito anos no seu ateliê. “Meu papai viveu aqui até o fim da sua vida, depois a casa foi alugada e agora resolvi utilizar o imóvel para desenvolver meu trabalho”, conta.

Ela explica que o marido andou dando um “trato” no local e que a casa de madeira tem colaborado muito com o seu trabalho. “A gente explica que essa é a única casa de madeira do quarteirão. Ao chegar aqui as pessoas se identificam com o local”, afirma a artesã, que produz pelúcia e outros enfeites todos de forma artesanal. Para ajudar, ela colocou no local móveis feitos de madeira, também produzidos de forma rústica.

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Vítimas do tempo

A ação do tempo é a principal “inimiga” das casas de madeira que existem na cidade. Como a maioria já tem algumas décadas de história, a falta de conservação permanente condena essas construções (mesmo que seus moradores não queiram) à demolição.

A chuva e o sol ao longo dos anos e a não-aplicação de uma tinta ou mesmo um verniz, que colaboram com a conservação, fizeram com que diversas casas deixassem de ter as condições necessárias para serem habitadas.

Isso explica o grande número de residências do tipo fechadas ou em péssima conservação. Como toda regra tem sua exceção, nos mesmos bairros onde se encontram casas abandonadas ou habitadas sem as mínimas condições necessárias, também é possível visualizar imóveis bem tratados, reformados e que, mesmo tendo sido construídos há tanto tempo, ainda podem abrigar famílias inteiras por muitos anos.

De acordo com Dirceu de Moraes Terni Júnior, proprietário de uma empresa em São Paulo especializada na construção de casas de madeira, a manutenção desse tipo de imóvel é muito mais simples e em conta do que uma construída em alvenaria.

Em construções novas, a manutenção se resume ao uso do verniz, que além de proteger a madeira também impermeabiliza a residência. Em casas mais antigas, a substituição de madeiras danificadas e aplicação de uma tinta (de preferência látex) darão uma cara nova à residência.

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