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Não se abalem!


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Não há nenhuma razão para que comece a encolher o crédito para o setor privado brasileiro simplesmente porque ele está encolhendo para o setor privado dos Estados Unidos. Há diferenças fundamentais de funcionamento entre os dois sistemas financeiros: lá, a onda de desregulamentações, após a crise dos anos 80, permitiu o desenvolvimento dos mecanismos perversos que levaram ao desastre; no Brasil, o movimento foi na direção contrária, principalmente na sucessão da crise que levou ao PROER no meio da década dos 90. O Banco Central foi desenvolvendo instrumentos de controle cada vez mais rígidos e aperfeiçoou as técnicas de fiscalização de tal sorte que hoje o sistema bancário brasileiro é um dos mais hígidos no mundo (e como tal é reconhecido nos organismos financeiros internacionais).

Este é um trunfo de que nos temos valido para impedir o contágio maior de problemas devido à quebradeira da banca no hemisfério norte. Temos um sistema de depósitos compulsórios elevados que permite ao Banco Central manobrar para ir substituindo o crédito externo pelo crédito interno, atendendo setores prioritários como o das exportações e o financiamento das importações essenciais para manter o ritmo dos investimentos e a absorção de tecnologia. O governo demonstrou que está pronto a usar os instrumentos que preservou durante estes últimos anos para que não falte crédito para setores estratégicos como o da habitação e o da agricultura que garantem o emprego e a oferta de alimentos.

As perturbações nos mercados financeiros lá fora ainda vão continuar por um bom tempo, o desenvolvimento da economia mundial dificilmente será retomado antes de uns 18 meses, mas isso não quer dizer que o Brasil deva abdicar de seu próprio crescimento. Da mesma forma que na questão do crédito, não há porque ceder ao contagio dos problemas externos e simplesmente aceitar crescer 2% do Produto anuais, depois de termos recuperado um crescimento robusto superior a 5% em 2007/2008, após 25 anos de mediocridade. Com as taxas de crescimento atual de 3,6% do PIB per capita, retomamos a capacidade de dobrar a renda dos brasileiros em 18 anos, portanto em menos de uma geração, enquanto se voltarmos à mesmice anterior a renda só vai duplicar à cada 60 anos.

O Brasil dispõe de recursos humanos e materiais que pode mobilizar para manter um ritmo de crescimento superior a 4% e mesmo se aproximar dos 5% em 2009 e 2010. Nesses momentos é importante apoiar a iniciativa do presidente Lula que decidiu ir ao encontro dos empresários e trabalhadores para renovar as garantias de que os investimentos e os empregos vão continuar. Ele aproveitou a última segunda-feira para demonstrar esse seu empenho durante a entrega da plataforma P-51 da Petrobrás em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Dirigindo-se aos trabalhadores que o aguardavam no estaleiro, em meio a uma chuva torrencial, ele deu o seguinte recado simples e direto, sobre a tormenta mundial: “Continuem fazendo as mesmas coisas que vocês faziam. Durante muitas semanas vai se falar em crise no mundo. A bolsa vai subir e descer... Não se abalem, porque esse país se encontrou com o seu destino”.

O autor, Antonio Delfim Netto, professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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