Articulistas

Consumidor e a crise


| Tempo de leitura: 3 min

Nos últimos dias, assistimos eventos internacionais históricos que desestruturaram a economia mundial e fundamentos do capitalismo, como a auto-regulação do mercado em crises cíclicas. Presenciamos oscilações nas bolsas de valores ao redor do mundo, algo de fazer inveja às maiores montanhas russa do planeta. A volatilidade, o pânico e a incerteza varreram o planeta. Infelizmente, a economia nacional não demonstrou tamanha independência dos fatores externos e acusou fortemente o golpe da desestabilização, com forte queda na bolsa e fuga em massa do capital especulativo que insistentemente e erroneamente é tratado como capital investidor.

Do ponto de vista político, nada a temer e os ajustes necessários para a retomada do ciclo de crescimento já estão sendo colocados em prática, discurso inacreditável e natural em pleno período eleitoral, onde o que realmente importa é a consolidação das bases políticas pelo País. Em relação à área econômica, a situação é de alerta geral e o posicionamento mais racional para o consumidor em geral é de cautela e o ímpeto de consumo deve resguardar um compasso de espera por definições mais claras no cenário econômico mundial e nacional.

Um grande participante de todo este cenário é o consumidor de baixa renda, que, ao longo dos últimos anos, se tornou a preferência do varejo nacional, responsável pelo crescimento expressivo das vendas nesse período. O real poder de compra dessa faixa da população está diretamente relacionado à estabilização monetária propiciada pelo Plano Real e pela crescente oferta de crédito que tem superado a marca de 30% de expansão ao ano. O crediário se tornou ferramenta comum para esse consumidor, propiciando, assim, compras de bens de consumo mais caros, como fogão, geladeira, TV, som, entre outros.

A exposição excessiva desse consumidor ao financiamento, o grau de comprometimento da renda dessa parcela da população com prestações, aliada à alta carga de juros cobrados nessas operações, colocam o consumidor de baixa renda no olho do furacão das preocupações futuras do consumo nacional.

Haverá uma contração natural da oferta de crédito gerando aumento das taxas de juros para financiamentos, os prazos de pagamento diminuirão sensivelmente em busca de proteção ao risco de inadimplência e na espera do mercado avaliar a sensibilidade da economia em manter o nível de emprego e renda da população de baixa renda. O aumento da taxa Selic, em abril, já era um sinal ao mercado para frear o consumo e inibir o crédito, que atingiu recorde histórico de 37% do PIB em julho. A expectativa do varejo para o final do ano ainda é de crescimento substancial nas vendas, 6% em relação ao mesmo período de 2007, mas a indicação para o consumidor de baixa renda é conter a euforia, avaliar seu nível de endividamento e entender que as previsões de crescimento econômico para 2008 e 2009 não mais são alentadoras, e sugerem, sim, período de contração e até de recessão nas análises mais pessimistas.

Isso significa dizer que o período de final do ano pode ser uma ótima oportunidade para o consumidor de baixa renda, através do recebimento de extras. 13.º, férias e gratificações, diminuir ou quitar dívidas, poupar alguma quantia como segurança para as incertezas de 2009 e consumir só o necessário. Esse movimento significa aliviar a baixa renda do consumo? Não, simplesmente indica a necessidade de cautela para o consumidor no curto prazo e a indicação, que da mesma maneira como o consumo é importante, a poupança permite proteção em momentos de crise, além de isentar o poupador de taxas de juros abusivas. Alguns estudos indicam que o consumo popular é emocional e que as compras partem de motivações sociais de status. Portanto, fica o alerta geral, ao consumidor de baixa renda, que a situação é delicada e que o consumo nesse momento deve ser bem pensado para que não se torne um problema insolúvel no longo prazo, assim como as hipotecas subprime americanas.

O autor, Sérgio Nardi, é escritor e diretor de marketing e novos negócios

Comentários

Comentários